Fábio Motta/Estadão
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Plano estratégico da Petrobrás reduz produção e tenta destacar agenda ambiental

Estratégia anterior tinha como plano produzir 3,5 milhões de barris ao dia, em 2024; agora, a projeção é de produção de 3,3 milhões de barris ao dia, em 2025

Denise Luna, Matheus Piovesana, Niviane Magalhães e Wagner Gomes, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 18h26

RIO e SÃO PAULO - O detalhamento dos planos estratégico da Petrobrás para os próximos cinco anos mostrou que a petroleira decidiu trocar uma alta mais forte na produção por ativos mais lucrativos. A decisão levou à redução das previsões de crescimento e reforçou a prioridade no pré-sal e na redução da dívida alta. Uma novidade fora dos números foi o destaque às preocupações ambientais. A mensagem é que, mesmo com as forças voltadas ao combustível não renovável, a Petrobrás também quer ser verde.

Em relação ao plano quinquenal anterior, válido no período de 2020-2024, os investimentos e a produção de petróleo previstos encolheram. Os aportes previstos foram de US$ 75,7 bilhões para US$ 55 bilhões. A estratégia anterior tinha como plano produzir 3,5 milhões de barris ao dia, em 2024. O número ficou mais longe. Agora, a projeção é de produção de 3,3 milhões de barris ao dia, em 2025.

Os menores investimentos e produção são consequência de a Petrobrás ter optado por campos que dão retorno caso o petróleo Brent seja negociado a US$ 35, estratégia que a ajudou a resistir à pandemia. Nesta quinta-feira, 26,o barril fechou cotado a US$ 47,80. Além disso, a empresa tirou da conta os campos menos atrativos, que já começou a vender. O resultado é que a produção em 2021 deve cair 2%, para depois voltar a crescer. Na Bolsa, os números não foram bem recebidos. Nesta tarde, as ações caíam 1,84% (ordinária) e 1,52% (preferencial).

Assim como a companhia, analistas preferiram adotar um tom conservador. "Claro que se a empresa continuar desinvestindo, essa curva (de produção) pode ser revista", afirma Tasso Vasconcellos, analista da Eleven Financial. Ainda assim, ele considera que o plano é positivo em um prazo mais longo. "Historicamente, o foco da Petrobrás nunca foi a eficiência, mas isso está mudando."

Neste ano, em meio ao choque do petróleo, a companhia apostou no pré-sal, que tem baixo custo de extração. A estratégia se provou certeira: a Petrobrás gerou bilhões em caixa mesmo com o tombo nos preços do petróleo, dinheiro que reduziu sua alta dívida. O Plano mostrou que esse modo de defesa será mantido.

O conservadorismo foi visto na meta de redução da dívida. Com a geração de caixa deste ano, analistas especulavam que o nível de US$ 60 bilhões seria esperado já para o ano que vem, mas a Petrobrás preferiu mantê-lo no horizonte para 2022. O número, o menor em uma década, vai sinalizar que a petroleira está pronta para pagar dividendos extras, algo que hoje ela não faz. O Citi estimou que esse pagamento pode chegar a US$ 6 bilhões em 2022, ou R$ 32 bilhões.

Mas parte dos analistas se mantém mais otimista que a companhia. Isso porque desde janeiro do ano passado, a dívida caiu US$ 31 bilhões. No terceiro trimestre, estava em US$ 79,6 bilhões. "Há uma chance razoável de que a dívida líquida chegue a US$ 60 bilhões no final de 2021", escreveram Vicente Falanga e Gusatvo Sadka, do Bradesco BBI.

Petroleira verde

A Petrobrás fez ainda sinalizações de que vai reforçar a agenda da sustentabilidade ambiental ao revisar suas metas de redução de emissões de gases poluentes. Mais do que isso, atrelou a remuneração de seus funcionários ao cumprimento dessas metas, sinalizando que pretende ir além do discurso.

Especialistas veem como um passo audacioso. Ao priorizar o petróleo, ao contrário de rivais internacionais que apostam em energias renováveis, a Petrobrás atrelou seu futuro a um combustível relacionado à degradação do meio ambiente. Agora, precisa sinalizar que compensará os impactos. "Não é uma opção. Se as empresas não fizerem isso, não haverá procura pelos papéis. O custo ambiental já começa a ser precificado", diz Shin Lai, estrategista da Upside Investor.

Ele diz ainda que a ascensão do democrata Joe Biden à presidência dos Estados Unidos cria um desafio adicional ao setor. Biden pode impor restrições às petroleiras, o que colocaria um prazo de validade na atratividade do petróleo. "É uma corrida contra o relógio. Se esse plano de desaceleração de investimentos no setor petroleiro realmente pegar firme, uma empresa gigante com tantos ativos não será lucrativa e não terá muito valor", afirma.

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