Plano não deve ser suficiente para reduzir preços, diz IEA

Para pesquisador do Instituto, alta na inflação no País não é causada por problemas na oferta de grãos

Giuliana Vallone, do estadao.com.br,

02 de julho de 2008 | 19h13

As medidas anunciadas pelo governo no Plano Safra 2008/09 para aumentar a produção agrícola no País e, conseqüentemente reduzir as pressões inflacionárias, não devem ser suficientes, afirmou nesta quarta-feira, 2, o pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA) José Sidnei Gonçalves. Para ele, fatores como a melhora do perfil de renda do brasileiro, a política de biocombustíveis dos Estados Unidos e o alto custo dos fertilizantes vão impedir que as ações tenham o efeito desejado.  Veja também:Ouça a íntegra da entrevista com José Sidnei Gonçalves  Plano agrícola prevê R$ 65 bi para conter alta dos alimentosEntenda os principais índices de inflação  Entenda a crise dos alimentos   Gonçalves afirmou que o aumento da inflação dos alimentos no País não deriva de problemas na oferta de grãos. "Se esse raciocínio estivesse correto, os preços não teriam aumentado, pois nós temos uma situação de safras recordes, uma atrás da outra, e vamos ter outra neste ano", disse.  "Então porque nós estamos tendo esse problema se a safra cresce substancialmente?" O pesquisador explicou que, enquanto, no plano internacional, os países emergentes crescem e diminuem as assimetrias com os países ricos, no plano interno, a melhoria da renda e o aumento na geração de empregos possibilita a ascensão de uma parte da população das classes D e E para a classe C.  "Isso significa que essas pessoas subiram de categoria do ponto de vista de renda e esse aumento se converte em maior consumo de alimentos. Uma parcela da população que consumia pouco alimento, passou a consumir mais. E a política monetária não tem nenhum efeito sobre isso", afirmou. Além disso, ele cita o impacto da política norte-americana de biocombustíveis nos preços. "O etanol dos Estados Unidos puxa para cima o preço do milho e da soja", disse. Ele lembrou que o milho é a segunda cultura de todos os produtores de feijão. "Se o preço do milho continuar no patamar atual, o cara vai plantar milho e não vai plantar feijão, o que significa que a oferta de feijão não deve crescer tanto na safra, então nós podemos ter sim um problema no preço." Ele afirmou que isso tem um impacto decisivo sobre os preços no País, pois mexe diretamente com a composição da safra. "Nós vamos fazer uma supersafra de milho e soja, porque os preços internacionais estão puxando esses produtos", disse.  "Tudo leva a crer que nós vamos colher uma nova supersafra neste ano. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) prevê que a safra será de 114 milhões de toneladas de grãos. Nós podemos chegar aos 150 milhões do governo, até mais do que isso, porque nós temos capacidade operacional pra isso. O problema é a composição dessa safra", continuou. "Do ponto de vista da safra em si, podemos ter uma situação de outra safra recorde com preço de alimentos se elevando no ritmo atual." Insumos  Gonçalves afirmou também que o aumento de R$ 8 bilhões (para R$ 78 bilhões) no crédito agrícola anunciado nesta quarta pode não ser suficiente para cobrir a alta nos preços do diesel e fertilizantes. "Com esse aumento, o preço de cada hectare fica maior. O volume de recursos que o produtor vai conseguir será pequeno frente ao custeio do hectare", disse. Ele citou que o aumento de 300% no preço dos fertilizantes entre 2000 e 2008 é um "problema seriíssimo" para o setor.  Além disso, o preço do petróleo também interfere. "Mesmo com a Petrobras segurando o preço do diesel, os custos aumentam substancialmente (com a alta do petróleo). Porque petróleo é nafta, é fertilizante nitrogenado, petróleo é agroquímico, petróleo faz parte da questão do próprio custeio da safra e petróleo é transporte", disse o pesquisador.  O alto preço dos fertilizantes e insumos agrícolas vem sendo tema recorrente de debates no governo. Ministros como Reinhold Stephanes, da Agricultura, e Guido Mantega, da Fazenda, já afirmaram que, os custos desses produtos devem prolongar a alta da inflação no País.  Preços mínimos Ele também comentou o reajuste de até 65% nos preços mínimos de feijão, milho, trigo e arroz. Para Gonçalves, a ação é importante pra regular o mercado, mas não deve ajudar a reduzir os preços de alimentos. "Se você aumenta o preço mínimo numa situação em que os preços já estão elevados, a medida não tem efeito direto nenhum."  "O preço mínimo só é acionado se os preços de mercado são menores que os do governo, mas eu não acho que isso vá acontecer, então isso não tem um efeito substantivo", explicou. Ajuste estrutural O pesquisador ressaltou, entretanto, que não é contra as medidas anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quarta. "O governo fez o que podia fazer, o que eu acredito é que, dada a conjuntura internacional e a composição dessa demanda por alimentos, que deriva literalmente da parcela dos consumidores que adentram no mercado - tanto aqui, como na China e Índia -, nós vamos ter que criar um mecanismo de oferta pra que a pressão desse aumento de consumo não impacte tanto nos preços", disse.  Segundo ele, o governo precisa fazer um "ajuste estrutural da oferta", já que a política monetária funciona quando há um aumento na demanda das pessoas que já estavam no mercado. "Agora isso não funciona para as pessoas que entram no mercado quando arrumam um emprego ou aumentam sua renda."  Além disso, ele ressaltou que a política monetária do País, com o aumento da taxa básica de juros, a Selic, para controlar o consumo, pode ter um efeito contrário, por aumentar o custo do dinheiro. "Você vai precisar de mais reais para tocar um hectare, dado o aumento dos insumos, e com esse limite de crédito ofertado, você vai precisar de mais dinheiro de outras fontes e esses recursos são mais caros que o crédito agrícola oficial", concluiu.

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