'Plano não vai tirar economia da estagnação'

Chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) afirma que efeito de estímulos à economia europeia será limitado em relação ao Brasil

Entrevista com

José Júlio Senna

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2015 | 02h05

O chefe do Centro de Estudo Monetários do Ibre/FGV, José Júlio Senna, acredita que o pacote europeu terá efeito limitado. Mas, se nada fosse feito, o impacto na economia poderia ser pior por causa da expectativa criada pelo Banco Central Europeu (BCE) de que medidas seriam adotadas para ajudar a economia. A seguir, trechos da entrevista ao Estado.

Qual é a avaliação do sr. sobre o programa anunciado nesta quinta-feira, 22?

Se nada fosse feito, acho que a gente poderia ter uma piora da percepção de risco. Desde meados de 2012, quando o Mario Draghi (presidente do BCE) disse que faria o que fosse necessário para salvar o euro, as taxas de juros dos países da região passaram a cair. O grande fator que trouxe essas taxas para baixo foi a expectativa de que o BCE faria algo concreto para ajudar a zona do euro.

E o impacto no mercado?

O programa já era esperado, então estava no preço (dos ativos). O euro vinha se depreciando, e os juros fechando cada vez mais. Fico com dificuldade de enxergar o que mais pode ocorrer de importante. Pelo lado do câmbio, talvez, tenha um efeito adicional, mas o grosso já foi antecipado.

O sr. poderia detalhar?

Depois que o evento ocorre, sempre há espaço para um movimento adicional. Eu diria que esse movimento, talvez, seja mais no câmbio do que em qualquer outro lugar, ajudando de alguma maneira os países da zona do euro no seu esforço exportador, o que não é pouca coisa.

E o impacto para a economia brasileira?

Em termos de Brasil, talvez, tenha um pouco mais de pressão na taxa de câmbio, mas novamente grande parte estava antecipada. Em outras palavras, o movimento de câmbio que já aconteceu fica com uma probabilidade baixa de ser revertido. Isso, talvez, de fato, seja um efeito importante, porque o volume (do programa) foi mais expressivo do que o esperado. Mas sou bastante cético de que esse programa é a solução para tirar a economia da estagnação.

O que faz o sr. acreditar que o programa será ineficiente?

O primeiro programa de relaxamento quantitativo foi no Japão, e os analistas, de modo geral, entendem que o efeito principal é de sinalização. O BC está comprando o papel e é ele que tem o poder de definir os juros. Se o BC começa a comprar papéis e, mais adiante resolve subir a taxa de juros, vai produzir uma perda de capital para ele: os juros sobem, e o preço do papel cai. À medida que o BCE compra os papéis, ele passa a ideia de que não pretende subir o juro tão cedo. O outro ponto é o seguinte: utilizando o papel português como referência, o BCE não comprou quando estava em 17% e agora vai comprar quando está a 2,5%. O ganho relativo que se pode ter com as taxas de juros já muito baixas é pouco. Um terceiro fator: o programa nos EUA teve uma importância grande porque trouxe uma certa surpresa. E os mercados estavam muito disfuncionais naquela época. O ex-presidente do Fed Ben Bernanke queria descomprimir os mercados de créditos no contexto no mercado de capitais. E esse não é propriamente o caso da zona do euro.

Por quê?

Não existe aquele mercado congelado. Estamos numa fase crônica da crise. Eu diria que esse tipo de política tem um potencial maior de produzir efeitos positivos quando é adotada numa fase aguda. Por fim, há um estudo de um centro de pesquisas da Europa sobre a desalavancagem. Ele mostra que o setor privado havia se endividado muito. Com a crise, o setor público teve de entrar para socorrer. Dessa forma, o endividamento público somado ao privado não se reduziu - existem duas exceções, os Estados Unidos e o Reino Unido. Logo, empresas e famílias estão mais preocupadas em reduzir o grau de endividamento que em gastar.

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