Plano para conter alta dos alimentos sai nesta semana

Novo plano de safra, que será anunciado por Lula, trará R$ 78 bilhões para produtores do País

Fabiola Salvador e Beatriz Abreu, da Agência Estado,

30 de junho de 2008 | 11h19

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anuncia esta semana sua aposta para a queda dos preços dos alimentos a partir do próximo ano, apesar dos indicativos de que o setor de fertilizantes ainda pressionará os custos da produção agrícola: o novo plano de safra com R$ 78 bilhões que serão distribuídos entre os grandes produtores e o segmento da agricultura familiar, responsável pela produção dos principais produtos que pesam nos índices de inflação.   Veja também: Entenda os principais índices de inflação  Entenda a crise dos alimentos    O governo considera que o choque de oferta de alimentos, associado à continuidade do processo de alta dos juros pelo tempo que o Banco Central considerar necessário, trará a inflação para o centro da meta de 4,5%, no próximo ano.   A nova safra começa em setembro e, até lá, não faltarão recursos para o plantio e comercialização. Um total de R$ 65 bilhões serão repassados a médios e grandes produtores, como já adiantou o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. Trata-se de um incremento de R$ 7 bilhões em relação aos R$ 58 bilhões que financiaram a safra atual de 2007/2008.   Em relação à agricultura familiar, o governo injetará R$ 1 bilhão em novos recursos, garantindo uma soma de R$ 13 bilhões. "O presidente vai surpreender a todos com o anúncio da nova safra", garante um assessor palaciano.   A aposta é que a maior oferta de alimentos possibilitará um recuo no preço e, portanto, menor pressão inflacionária. Apesar da escalda do preço do petróleo e de outras fontes de pressão sobre a inflação - como o ainda elevado níveis de consumo doméstico - persiste entre os auxiliares de Lula a convicção de que a maior parte da inflação é provocada pelos produtos alimentícios, tese também defendida pelo Ministério da Fazenda.   Restrições   A tentativa do choque de oferta de alimentos, no entanto, deve ser acompanhada de uma política monetária ainda restritiva nos próximos meses, segundo fonte do governo. "Diante do cenário atual, o BC ainda continuará envenenando o mercado", como definiu um assessor ao se referir ao movimento de alta das taxas de juros, atualmente de 12,25% ao ano.   O governo já abandonou a estratégia de tentar retornar a inflação deste ano para o centro da meta de 4,5%, mas não desistiu desse objetivo para o próximo ano. Nesse contexto, como explicou um ministro, está a necessidade de romper a escalada dos preços, por meio da elevação das taxas de juros.   Essa situação será analisada mais uma vez na reunião desta segunda-feira à tarde do Conselho Monetário Nacional (CMN). Os ministros da Fazenda, Guido Mantega, do Planejamento, Paulo Bernardo, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, se reúnem a partir das 16 horas no Ministério da Fazenda para definir a nova meta de inflação para 2010, o ano da sucessão de Lula. A tendência é prevalecer uma posição de neutralidade que, neste momento, significa manter a meta de inflação em 4,5%.   A posição de Lula, como disse esse ministro, é clara. "Ele não chegará à campanha da sucessão presidencial com um cenário de inflação alta", comentou. Por isso, cada passo daqui para frente, inclusive as articulações em busca de apoio eleitoral, também para a disputa municipal deste ano, está sendo considerado pelo governo. O anúncio do plano de safra, na quarta-feira, em Curitiba faz parte da estratégia eleitoral.   Aproximação   Lula acompanhará o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, que é deputado federal pelo Paraná, numa demonstração inequívoca de maior aproximação com a classe produtora do sul do País, que já não estaria cerrando fileiras contra o governo.   Devido à ligação de Lula com os pequenos agricultores e com o Movimento dos Sem Terra (MST), os grandes produtores rurais não esconderam, nos últimos anos, o desconforto com a política agrícola de Lula. Existe também um aspecto técnico-político para que o anúncio aconteça em Curitiba: o Paraná é um dos primeiros estados a cultivar a safra e o governo quer reforçar a mensagem de que não faltará apoio à agricultura.   Alguns itens do plano de safra são conhecidos porque, desta vez, o Ministério da Agricultura não enfrentou a resistência da Fazenda na definição dos recursos para safra. "O discurso do Mantega é agrícola", comemora Stephanes. Nos últimos anos, quando a oferta de grãos excedia a demanda, os embates entre Fazenda, Agricultura e Desenvolvimento Agrário eram comuns. Mas esse cenário mudou diante do impasse provocado pela alta dos preços dos alimentos. Entre as medidas já definidas está a ampliação da produção de excedentes exportáveis para reforçar o saldo comercial do país.   Com a liberação de mais recursos e a correção dos preços mínimos - que servem de base para as políticas de apoio à comercialização - o governo quer colher uma safra superior a 150 milhões de toneladas. Parte desse esforço caberá à agricultura familiar, responsável por dois terços da produção dos 150 produtos medidos pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).   O governo dará mais dinheiro aos pequenos agricultores, mas exigirá que eles aceitem avanços tecnológicos que serão disponibilizados pela Embrapa. A meta é garantir nesse segmento um aumento de 18 milhões de toneladas de produção até 2010, principalmente em leite, milho, feijão, arroz, mandioca, trigo, aves, café, frutas, arroz e cebola.

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