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Plano Real venezuelano?

A dolarização, na Venezuela, não é recomendável pois o país dependente de exportações de petróleo

Monica De Bolle*, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2019 | 04h00

Apesar de tudo, Maduro ainda não caiu. Apesar de tudo, é possível que não caia tão cedo. Ainda assim, há intensa movimentação para articular cenários para o esperado “dia seguinte”, o “quando Maduro cair” mesmo que o “se Maduro cair” não tenha deixado de ser preocupação relevante após o apoio de vários governos a Juan Guaidó. Uma das questões mais intrigantes é como acabar com a hiperinflação venezuelana quando Maduro se for.

A hiperinflação da Venezuela parece diferente das hiperinflações que marcaram outros países da região nos anos 70, 80, 90. No caso brasileiro, a inflação mensal mais alta que sofremos foi às vésperas do Plano Collor I no início dos anos 90, quando a variação dos preços chegou a 80% ao mês. Na Venezuela, estima-se que a inflação hoje esteja em torno dos 180% mensais – isto é, os preços estão à beira de triplicar a cada mês. Para os brasileiros que se lembram do convívio com a inflação extrema, a tragédia da Venezuela é familiar, ainda que mais exagerada.

A inflação extrema causa o absoluto desalinhamento dos preços relativos, isto é, perde-se a capacidade atribuir valores a qualquer bem ou serviço em relação a outros bens e serviços. Como a escalada de preços se dá em espiral, o valor nominal de uma barra de chocolate pode subir mais do que o de uma caixa de chicletes sem que isso reflita um aumento maior de demanda por barras de chocolate do que um aumento da demanda por chicletes, por exemplo. A perda de sinalização de escassez e abundância que ocorre quando há inflação extrema desnorteia toda a economia. Por essa razão, para acabar com um processo hiperinflacionário é fundamental encontrar um mecanismo para realinhar os preços relativos.

Para ficarmos apenas no passado recente, uma forma eliminar a hiperinflação é dolarizar formalmente a economia como fez o Zimbábue em 2008. Nesses casos, abandona-se por completo o uso da moeda doméstica e adota-se o dólar. O problema é que ao fazer isso, o país perde a capacidade de ter sua própria política monetária e cambial. Ou seja, caso precise deixar a moeda desvalorizar para ajudar a economia a crescer por meio de um aumento das exportações, por exemplo, não poderá fazê-lo. Pensem no debate sobre a Grécia em 2010 quando o país atravessava crise gravíssima e muitos diziam que a única solução era abandonar o euro. A Grécia pertence a uma união monetária cuja moeda é o euro, portanto não tem moeda própria, o que significa que não pode utilizar outros mecanismos de ajuste para aliviar a crise, como uma desvalorização do câmbio.

No caso da Venezuela a dolarização não é recomendável por várias razões, inclusive porque trata-se de país dependente de exportações de petróleo. Caso a Venezuela dolarizasse, a economia ficaria ainda mais sujeita às oscilações dos preços do petróleo – a quantidade de dólares em circulação aumentaria ou encolheria conforme as flutuações internacionais, trazendo volatilidade indesejável para a economia. Há muita coisa que não se sabe sobre a Venezuela: não conhecemos o tamanho do déficit fiscal, não sabemos qual o ritmo de expansão monetária do qual depende o governo para financiar o déficit, não temos noção das reservas internacionais de que o país dispõe, tampouco quanto deve aos credores internacionais. Contudo, uma vez que se tenha alguma noção desses dados, é possível imaginar que a solução para a hiperinflação venezuelana passe por uma espécie de Plano Real adaptado à realidade local.

Para evitar a dolarização, a criação de uma moeda virtual remunerada como a URV brasileira – com taxas de conversão diárias para o bolívar - poderia ser uma via para reintroduzir a credibilidade monetária. No Brasil, após o ajuste fiscal que também será inevitável na Venezuela, a instituição engenhosa de um regime de duplas moedas permitiu que a inflação extrema se circunscrevesse apenas aos cruzeiros reais da época, e não à URV. Tecnicalidades à parte, o período de transição até que o plano de estabilização ganhasse credibilidade suficiente, serviu para que os preços relativos se realinhassem em URVs e para que a população se acostumasse com a ideia de que era possível ter uma moeda estável. Quando o processo se consolidou, a moeda virtual – a URV – virou o Real concreto. 

Há muito sobre o que pensar para tornar viável qualquer espécie de Plano Real para a Venezuela quando a ditadura madurista chegar ao fim. Contudo, a experiência brasileira, prestes a completar 25 anos, continua sendo extremamente relevante para os raros casos hiperinflacionários mundo afora.

*ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

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