Pedro Gomes/ALI Produções
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Plataforma única para produção deve facilitar investimentos no Brasil, diz presidente da Nissan

Plano global de produção com Renault e Mitsubishi foi anunciado em maio; segundo Marco Silva, redução de custos e escala maior devem compensar riscos das matrizes em investir no País

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2020 | 15h00

Após três meses de paralisação por causa da pandemia do coronavírus, a Nissan retomará a produção, ainda parcial, na fábrica de Resende (RJ) no dia 24. Além do desafio comum a todas as empresas do setor, de lidar com as perdas decorrentes da covid-19 e de um mercado muito inferior ao esperado no início do ano, a empresa terá de adequar seus projetos ao plano global anunciado há poucos dias no Japão de produção em plataformas (bases) unificadas com a Renault.

A aliança que reúne também a Mitsubishi passou por abalos após a prisão do ex-presidente do grupo, o franco brasileiro Carlos Ghosn, por suspeitas de fraudes financeiras. “A continuidade da aliança havia sido colocada em dúvida mas, com o novo plano, ela será fortalecida”, afirma Marco Silva, presidente da Nissan do Brasil. A fusão defendida por Ghosn está descartada.

Silva está iniciando trabalhos para definir, junto com a Renault, quais serão os dois primeiros modelos a serem produzidos até 2023 na plataforma compartilhada no Brasil.

Hoje, as duas empresas têm, por exemplo, quatro diferentes bases para a produção de seis modelos (March e Kicks, da marca japonesa, Sandero, Stepway, Logan e Captur, da marca francesa produzidos no Paraná). Com o compartilhamento, uma única plataforma produzirá sete carros das duas marcas.

“A sinergia promoverá economia de custos, ganho de escala, produtividade, eficiência redução de tempo de desenvolvimento de produtos”, afirma Silva, para quem a estratégia ajudará o Brasil e a América Latina a atrair investimentos das matrizes.

Nissan e Renault aguardam aval das direções globais para novos planos de investimento no País e é possível que o anúncio ocorra de forma conjunta em breve. De acordo com a empresa, investimentos para produção de modelos em bases compartilhadas são em média 40% inferiores aos necessários pela forma atual.

Segundo o executivo, toda vez que se apresenta um novo projeto, as matrizes levam em consideração as incertezas econômicas relativas, por exemplo, à instabilidade do País e custos elevados de produção, itens que já levaram as fabricantes locais a perderem vários projetos.

“Com melhores condições de custos e ganhos em produtividade na sinergia, vamos tirar parte do risco de se colocar dinheiro nesses produtos e poderemos vender os projetos de forma mais fácil (para as matrizes)”, afirma o presidente da Nissan. “O investimento virá.”

Silva ressalta que já existem sinergias entre as duas marcas nas áreas de compra, recursos humanos, alguns componentes comuns e isso vai se fortalecer com o uso das mesmas plataformas. “Em vez de 300 mil veículos em quatro plataformas poderemos fazer 300 mil ou mais uma plataforma só”, diz. Segundo ele, o ganho se estenderá aos fornecedores de peças que também terão ganho de escala.

O executivo afirma que, mesmo com o compartilhamento de bases que resultará em veículos com características comuns, cada marca terá sua estratégia na elaboração do produto. “Haverá fases em que a Nissan vai cuidar do seu produto e a Renault do seu pois continuaremos concorrendo no mesmo mercado.”

Plano global

As medidas anunciadas no fim de maio pela aliança Renault/Nissan/Mitsubishi visam reduzir custos e recuperar a lucratividade em todo o grupo. Só com o desenvolvimento e produção conjunta de novos utilitários-esportivos compactos (SUVs), por exemplo, a corporação espera uma economia de US$ 2,2 bilhões.

No caso da Nissan, o plano inclui fechar fábricas na Espanha e na Indonésia, mas Silva afirma que não há riscos de movimentos desse tipo no Brasil. “Mesmo com a indústria mais baixa, há capacidade para absorver parte da produção das duas fábricas (da Renault e da Nissan)”, diz. “Vamos avaliar o que é melhor, mais eficiente para cada planta, mas usaremos as duas para produção e também há projetos individuais que podem ocorrer de forma paralela.”

A marca também reduzirá seu portfólio de produtos em 20% de produtos – de 69 para 55 –, e promete lançar 12 modelos nos próximos 18 meses. Até 2024 pretende ter 80% de sua produção compartilhada com Renault e Mitsubishi.

Retomada

Silva informa que a reabertura da fábrica em Resende deve ser feita com apenas um turno. Parte dos funcionários está com contratos suspensos e parte com jornada reduzida, medidas previstas na MP 936 que vence nas próximas semanas. Ele vê com bons olhos uma eventual prorrogação da medida para preservar empregos, mas ressalta que “existe limite”, pois a produção será adequada à demanda.

Ele conta que inicialmente trabalhava com uma projeção de mercado de 2,9 milhões de veículos para o ano fiscal que vai de março de 2020 a março de 2021. O número foi baixando diante dos problemas econômicos que vieram com a pandemia e agora está em 1,6 milhão de unidades.

Lançamentos deste ano foram postergados, como o da versão V-drive do Versa, previsto para abril e que será retomado no retorno da produção. Já o novo Versa feito no México estava previsto para chegar ao País neste primeiro semestre e ficou para o segundo. O novo Kicks já estava previsto para 2021, mas também terá atraso, provavelmente de meses. Planos para a importação ou produção local de uma versão híbrida do Kicks também estão de pé, mas sem datas definidas.

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