Pobres vão pagar caro pela crise dos ricos

Só neste ano, 64 milhões devem cair na pobreza extrema, aponta estimativa do Banco Mundial

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

O mundo poderá ultrapassar a meta de redução da extrema pobreza até 2015, apesar da crise, mas outros objetivos, como a diminuição da mortalidade infantil e a ampliação do acesso ao saneamento, provavelmente ficarão prejudicadas, segundo o Banco Mundial. Além disso, o número de pessoas muito pobres será maior do que poderia ter sido, se o crescimento econômico não tivesse diminuído nos últimos dois anos e os programas sociais não tivessem sido afetados.

Em todo o mundo, o contingente de pessoas em extrema pobreza deverá diminuir de 1,8 bilhão em 1990 para 918 milhões em 2015. O resultado seria bem melhor, se 53 milhões, de acordo com o banco, não ficassem presas na miséria por causa da crise e de seus desdobramentos. Essa estimativa inclui 20 milhões na África Subsaariana.

No fim de 2010, haverá 64 milhões a mais de miseráveis, por causa da recessão, de acordo com o Relatório de Monitoramento Global 2010 apresentado ontem por diretores do Banco Mundial (Bird) e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Parte desse acréscimo será eliminado nos próximos anos, com a melhora da economia.

As Metas do Milênio foram adotadas oficialmente em 2000 pela Organização das Nações Unidas (ONU). Os governos se comprometeram a cortar pela metade a proporção de pessoas com renda inferior a US$ 1,25 por dia - de 22% em 1990 para 11% em 2015. Provavelmente será possível chegar a 15% de pessoas em pobreza extrema, em termos globais. Mas o desempenho dos países será muito desigual e muitos não conseguirão cortar a proporção pela metade.

Na África Subsaariana, a redução será de 57,6% em 1990 para 38%. Poderia ser 36%, sem os efeitos da crise. Mesmo em 2020 a região continuará fora da meta, com 32,8% de pessoas muito pobres, pouco mais que metade da parcela calculada para 1990.

A erradicação da pobreza extrema é a meta número um. As outras são a universalização da educação primária, a promoção da igualdade de gênero, a redução da mortalidade infantil, a melhora da saúde materna, o combate à Aids e a outras doenças contagiosas, a sustentabilidade ambiental e a cooperação global para o desenvolvimento. O mundo provavelmente alcançará as metas de paridade entre meninos e meninas na educação primária e secundária até 2015, de acordo com as novas projeções. Quase dois terços dos países em desenvolvimento chegaram à paridade de gênero em 2005. Mas as mulheres continuam em desvantagem na educação superior.

Dificilmente se alcançará o objetivo de reduzir em 75% a mortalidade materna até 2015. Em relação à mortalidade de crianças com menos de cinco anos, só foi possível, até agora, alcançar 40% do objetivo fixado.

A crise e seus desdobramentos deverão resultar num acréscimo de 1,2 milhão de mortes de crianças com menos de cinco anos entre 2009 e 2005. Essa projeção inclui 265 mil bebês. As estimativas estão associadas com a previsão de más condições de nutrição e de acesso a água limpa e a padrões de saneamento.

O Brasil foi muito menos afetado pela crise, em termos de emprego e de renda, que a maioria das economias emergentes e em desenvolvimento. Além disso, já cumpriu a maior parte das metas mais importantes, como a redução da pobreza extrema, a universalização do ensino primário e a diminuição da mortalidade infantil. Mas o País partiu, nos anos 90, de condições bem mais favoráveis que as das economias em desenvolvimento.

Nesta crise, as economias emergente e em desenvolvimento estão pagando por problemas criados no mundo rico. As dificuldades enfrentadas pelos países em desenvolvimento não resultaram, desta vez, de erros cometidos internamente. Quase todos entraram na crise com inflação baixa, contas externas mais ou menos em ordem e situação fiscal bem melhor que a de uma década atrás. Os efeitos da crises "poderiam ter sido muito piores, se os países em desenvolvimento não tivessem melhorado suas políticas e instituições nos últimos 15 anos", comentou o vice-diretor gerente do FMI Murilo Portugal. Apesar disso, ressalvou, o impacto da crise nas condições de vida pode ser muito sério, pois a margem de segurança é estreita para muitas pessoas, até nos melhores tempos.

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