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Pobreza já atinge 34,5% da população argentina

Levantamento da Universidade Católica era usado por grupo político de presidente Macri quando estava na oposição por falta de dado oficial

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2016 | 05h00

BUENOS AIRES - O grupo de pobres recebeu 1,35 milhão de argentinos no primeiro trimestre do ano e alcançou 34,5% da população, 13 milhões de habitantes. Entre esses, 2,3 milhões (6,9% dos argentinos) são considerados indigentes. O levantamento é da Universidade Católica Argentina (UCA), referência no tema desde que o kirchnerismo deixou de fazer a conta em 2013, sob o argumento de que estigmatizava cidadãos de baixa renda.

Em dezembro, o porcentual de pobres era de 29%. As causas do aumento desde então, segundo os autores do estudo, foram a desvalorização em dezembro de 30% no peso, uma das primeiras medidas do presidente Mauricio Macri, e a inflação decorrente do aumento em série de tarifas por corte de subsídios. O governo não contesta os dados da universidade porque os usava como ferramenta para criticar a política econômica kirchnerista. A Casa Rosada promete para agosto ou setembro estatísticas próprias.

“Uma desvalorização com reajuste de preços produz pobreza. Poderia se comparar com a de 2014, quando também houve um pico na pobreza e logo uma estabilização”, disse o diretor do Observatório da Dívida Social Argentina, o sociólogo Agustín Salvia.

O cálculo da UCA é feito com base no valor da cesta básica e no acesso a ela. Em março, uma família de dois adultos e duas crianças era considerada pobre se tivesse renda inferior a 8 mil pesos (R$ 1.926 ou US$ 540) e indigente se não chegasse aos 4 mil pesos (R$ 963 ou US$ 270). Em um cálculo diário, um pobre segundo a UCA é o que não conta com US$ 4,5 por dia. Indigente é o que não alcança US$ 2,25.

María Escobar, moradora de Bernal, a 20 quilômetros de Buenos Aires, está no segundo grupo. Vive com as filhas Liliana e Estella, de 2 e 4 anos, a quem sustenta vendendo balas e lenços de papel na rua “pelo que quiserem pagar”. É uma forma eficaz de pedir esmola, já que a maioria dos clientes devolve o produto e valoriza o fato de ela não estar pedindo. Aos 19 anos e só com o primário, ela sentiu indiretamente a inflação de 33,9% nos últimos 12 meses, já que está fora do mercado consumidor. “Vejo que sobra menos dinheiro porque dão menos esmola. É como nas férias, não há clientes”, compara.

María não tem renda fixa. O que arrecada na rua é gasto no aluguel de 1.500 pesos (R$ 361) de um quarto de 4 metros por 4 metros, na conta de energia elétrica de 300 pesos (R$ 72), em gás (150 pesos ou R$ 36) e no achocolatado para a filha maior, fruto de um estupro. “Faço todas as refeições em um centro comunitário e lá me dão roupas também”, explica.

María escapou do aumento na luz, que chegou a sete vezes com o corte de subsídios em fevereiro. Está na faixa que manteve a ajuda. No dia 8, o transporte público dobrará. A passagem mínima de ônibus irá para 6 pesos (R$ 1,44) – seria de R$ 3 sem nenhum subsídio. A maior parte dos trens metropolitanos que chegam a Buenos Aires e atendem aos mais pobres passará a 4 pesos (R$ 0,96). Se María requisitar a tarifa social nos dois casos, pagará respectivamente 2,70 pesos (R$ 0,65) e 1,80 peso (R$ 0,40).

Em seu último ano, o kirchnerismo comprometeu 4,8% do PIB em subsídios. O governo Macri promete concentrar o ajuste no primeiro semestre e baixar a inflação no segundo. Em abril, aumentarão também água e gás (até 3 vezes). Em maio, o metrô de Buenos Aires passará de 4,50 pesos (R$ 1) para 7,5 pesos (R$ 1,80).

Macri atribui ao kirchnerismo uma inflação acumulada de 700% e alega que não há outra forma de melhorar o serviço. A projeção da UCA para abril era de uma queda para 32,6% na pobreza e 6,2% na indigência, pela ampliação de programas sociais por Macri. “É provável que, com os novos aumentos, essa previsão de queda não se confirme”, acrescentou Salvia.

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