Pobreza ressurge e Argentina tem mais favelas

Proporção atual de pobres, que havia caído desde o início do governo dos Kirchners, volta a crescer e número de favelas é cada vez maior na Argentina

Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

10 de maio de 2014 | 12h19

BUENOS AIRES - No segundo semestre de 2003, nos primeiros meses do governo de Néstor Kirchner, a pobreza atingia 47,8% dos argentinos. Em 2006, havia caído para 23%. Porém, desde a posse de Cristina Kirchner em 2007, há divergências sobre a proporção real de pobres no país. A Casa Rosada - o palácio presidencial - sustenta que a proporção continuou caindo desde aquela época, até os atuais 4,7% oficiais, o mais baixo nível de pobreza da história argentina, comparável a vários países da União Europeia.

No entanto, "la malaria", gíria com a qual os argentinos se referem aos tempos das vacas magras, está de volta. Isso é o que indica o Observatório Social da Confederação Geral do Trabalho (CGT) - a maior central sindical do país, de tradição peronista, que rompeu com a presidente Cristina em 2012 por considerar que ela "traiu" os trabalhadores -, que contabiliza a pobreza real do país em 30,9%.

Detalhado relatório elaborado pela Universidade Católica Argentina (UCA) sustenta que a pobreza na Argentina atinge 27,5% dos habitantes. Isso significa que 11 milhões de argentinos estariam abaixo da linha de pobreza. Destes, 2,2 milhões são indigentes. Com isso, os índices da UCA indicam uma pobreza cinco vezes maior que os números do governo relativos ao primeiro semestre do ano passado. Por trás do aumento da pobreza estariam a disparada da inflação e o esfriamento da economia.

Segundo o Centro de Pesquisas Participativas em Políticas Econômicas e Sociais (Cippes), por causa da inflação os subsídios dados pelo governo às famílias pobres com filhos perderam 68% do poder de compra desde sua criação, em 2009.

Há poucos dias, quando o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) estava a ponto de anunciar os índices relativos ao segundo semestre, uma ordem do ministro da Economia, Axel Kicillof, deteve a divulgação dos números atualizados.

Favelas. O padre Martín Carrozzo, designado há cinco anos para a Paróquia Cristo Operário da Villa 31 pelo então cardeal Jorge Bergoglio, atual papa Francisco, afirma que as favelas portenhas estão crescendo de forma persistente. "Além disso, também há mais pessoas sem-teto", relata ao Estado. Enquanto em plena crise de 2001-2002 a população favelada era de 107 mil pessoas, em 2010 o Censo indicou 163 mil.

No contexto de alta inflação e esfriamento da economia, o padre Carrozzo expressa preocupação pela queda nas doações: "Há três anos enchíamos um contêiner de comida e roupa. Agora só conseguimos encher 25%".

Carlos Sosa, de 37 anos, nasceu no interior da província de Buenos Aires e foi à capital argentina em 2008 procurar trabalho. Quando o pouco dinheiro acabou, teve de dormir sentado nos duros bancos da rodoviária de Retiro. Mas teve de sair dali, já que ladrões agiam na noite, roubando os poucos bens dos sem-teto. Por ser deficiente físico, conseguiu um passe-transporte, com o qual entrava em um ônibus rumo à cidade de La Plata. No ônibus, dormia seguro por uma hora até chegar à parada final. Ali trocava de ônibus e dormia outra hora. "Depois consegui um subsídio de moradia do governo portenho. E aí consegui um trabalho vendendo cafezinho no centro. Agora posso dormir na horizontal, com uma coberta, não mais sentado no frio. Como isso é bom!"

Maria Muñoz teve de deixar a cidade de Santiago del Estero, onde era espancada pelo marido. Com a mãe e uma filha pequena, partiu para Buenos Aires, onde dormiam nas ruas. Depois de duros anos, conseguiu instalar-se na Villa 31, a maior favela de Buenos Aires. Maria trabalha em uma padaria na própria favela. "A pobreza aumentou de novo, isso é evidente", diz.

Maria e Carlos, que já passaram por situações de miséria, agora colaboram com organizações sociais que ajudam pessoas sem-teto. Uma das organizações é a associação civil "Estação da Vida", criada por Luis Grieco há 16 anos, época na qual a Argentina começava uma recessão que se aprofundaria com a crise de 2001-2002. Segundo Grieco, "neste ano temos picos de 200 pessoas, similar ao número de 2001". "Este ano foi o triplo da média do volume dos últimos três anos. Houve dias que ficamos sem comida para atender a todas as pessoas."

O Barômetro da Dívida Social da UCA informa que a "insegurança alimentícia" na Argentina afeta 11,7% da população. Isso indica que 4,5 milhões de argentinos sofreram no último ano uma redução de seus alimentos ou eventos de fome por questões econômicas. Segundo o Centro de Estudos sobre Nutrição Infantil (Cesni), ONG argentina que colabora com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 50% das crianças no país entre seis meses e dois anos sofrem anemia por falta de ferro, isto é, por má alimentação.

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