Pobreza volta a crescer na Argentina, afirma oposição

No início do ano passado a proporção de pobres havia caído à metade, registrando um nível de 26%

Ariel Palacios, especial para O Estado,

22 de maio de 2008 | 14h48

Ao longo da meia década em que o denominado "casal presidencial" - o ex-presidente Néstor Kirchner e sua esposa e atual presidente Cristina Kirchner - está no comando da Argentina, a pobreza no país registrou uma acentuada queda. Quando Kirchner tomou posse no dia 25 de maio de 2003, a pobreza assolava 53% dos argentinos. No início do ano passado a proporção de pobres havia caído à metade, registrando um nível de 26%.  Segundo a presidente, em 2008 o volume de pobres teria baixado mais ainda, e estaria ao redor de 20%. Mas, economistas independentes, sindicalistas e lideranças da oposição afirmam que ao contrário do que sustenta o governo, desde 2007 a pobreza voltou a crescer, empurrada pela escalada da inflação. Os críticos do governo afirmam que Cristina, que tomou posse em dezembro passado, está empenhada em camuflar a nova alta da pobreza. "Temos a percepção de que a pobreza está aumentando", afirmou - desatando a polêmica - o presidente da Pastoral Social, monsenhor Jorge Casaretto, em base a um relatório da Universidade Católica Argentina (UCA). O estudo realizado pela instituição revela que a proporção de argentinos pobres atualmente estaria entre 28,1% e 30,6%. Incluída neste grupo, a proporção de indigentes seria de 8,7% a 10,5%.  Irada, Cristina respondeu as críticas do clero de forma indireta: "existe outro país, uma realidade diferente daquela que alguns setores querem nos convencer". O Ministro do Interior, Florencio Randazzo retrucou o relatório, afirmando que "é pouco sério". Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) - organismo sob intervenção do governo desde janeiro do ano passado - a proporção de pobres no país caiu de 23,4% no primeiro semestre de 2007 para 20,6% no período entre outubro do ano passado e março de 2008. Da mesma forma, segundo o Indec, a indigência também caiu, passando de 8,2% para 5,9%. De acordo com os dados do governo, existem 8 milhões de pobres, dos quais 2,4 milhões seriam indigentes.  No entanto, os economistas independentes afirmam que o número "real" de pobres poderia ser 4 milhões superior ao índice "oficial". Os consultores privados sustentam que a pobreza oscilaria entre 28% e 33%. Eles sustentam que, da mesma forma que o governo está manipulando o índice de inflação desde o ano passado, agora começou a maquiar os dados sobre a pobreza. A credibilidade do governo Cristina sobre os índices oficiais - cada vez menor - já foi alvo de críticas do Fundo Monetário Internacional (FMI). A pobreza está diretamente associada ao aumento do custo de vida, especialmente a cesta básica. Esta, segundo o governo, só aumentou 3,4% nos primeiros quatro meses deste ano. Mas, segundo a consultoria Equis, o aumento foi de 30% só nos primeiros três meses de 2008. A oposição, em coro, respaldou os índices da Igreja. Elisa Carrió, segunda colocada nas últimas eleições presidenciais e líder da centro-esquerdista Coalizão Cívica, afirmou que "existem muitos argentinos que estão passando de pobres a serem indigentes". Segundo seu principal assessor econômico, o ex-presidente do Banco Central Alfonso Prat-Gay, sustentou que "o índice do governo é imoral". O prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, da coalizão de centro-direita Proposta Republicana, sustentou que "se a inflação continuar sua disparada, o país terá mais pobres". Segundo Ernesto Kritz, da Sociedade de Estudos Trabalhistas (SEL), a pobreza assolaria atualmente 30,3% dos argentinos. A segunda central sindical do país, a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), de posições críticas ao governo Cristina, alega que a pobreza atinge 32,6% da população, enquanto que os indigentes equivaleriam a 13% dos argentinos. O principal economista da central, o deputado Claudio Lozano, argumenta que o número de pobres seria de 13 milhões de pessoas. Segundo a CTA, o argumento do governo sobre a redução da pobreza "é pouco verossímil", já que a inflação está em disparada.

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