Pode dar errado? Vai dar

Eis o que deveríamos ter aprendido com os acontecimentos da última década: Murphy estava certo. O que pode dar errado, vai dar errado - e precisamos planejar as coisas com base nisso. Por causa de ataques terroristas? Eles ocorrem. Bolhas de crédito? Elas explodem. Bancos de Wall Street sem regulamentos? Eles vão à falência. Plataformas de petróleo nas costas mal projetadas? Elas explodem. Economias europeias superendividadas? Elas não conseguirão pagar suas dívidas. Diques avariados no país dos furacões? Eles se rompem.

Ezra Klein, do The Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

Mas não aprendemos a nossa lição. Esqueça a preparação para os "cisnes negros", nome que o investidor Nassim Taleb deu para crises imprevisíveis. Paramos de nos preparar para o que o economista Nouriel Roubini chama de "cisnes brancos": as crises que podemos prever e até evitar.

Há menos de três anos, vimos a falência do Lehman Brothers. A crise continua nas nossas mentes e na nossa taxa de desemprego. Mas o Federal Reserve (o BC americano) continua sem um vice-chairman para a supervisão de bancos. Não há ninguém oficialmente encarregado do Escritório de Pesquisa Financeira do Departamento do Tesouro. O assento marcando "seguro" no Conselho de Supervisão da Estabilidade Financeira está vazio. O Departamento de Proteção Financeira do Consumidor tem um líder, mas não um diretor.

Ninguém foi confirmado para a chefia da Agência de Controle da Moeda (OCC na sigla em inglês). E os republicanos continuam dizendo que o economista Peter Diamond, ganhador do Prêmio Nobel, não está qualificado para participar do Conselho Diretor do Federal Reserve.

Por outro lado, os republicanos da Câmara estão lutando para tirar dos órgãos reguladores financeiros os recursos que precisam para fazer seu trabalho. Tanto a Comissão de Valores Mobiliários como a Comissão Reguladora do Mercado de Futuros precisam de dinheiro extra para exercer suas funções, ampliadas com base na Lei Dodd-Frank, mas a proposta orçamentária para 2011 dos republicanos as agraciou com drásticos cortes - e a proposta para 2012 rejeita grande parte da lei, sem saber o que deve substituí-la. A ironia? Tudo isso está sendo levado a cabo a título de redução do déficit. E por que temos um déficit enorme? A...crise financeira.

No ano passado, vimos a plataforma de petróleo do Golfo do México explodir. Os preços do petróleo sobem violentamente, causando problemas para os consumidores e dor de estômago para os economistas. E, mais importante, nove dos dez anos mais quentes já registrados foram na década passada. Assim, a Terra está se aquecendo e nossa situação energética está, literalmente, batendo em nosso rosto. Mas estamos fazendo algo a respeito? É bem o oposto.

Muitos dos republicanos de olho na candidatura à presidência pelo partido em 2012 apoiaram o plano de limitação e negociação de carbono para reduzir as emissões e deixarmos para trás os combustíveis fósseis. Essa foi uma parte da plataforma de campanha de John McCain e Sarah Palin em 2008, parte da campanha de candidatos como Jon Huntsman e Tim Pawlenty e Mitt Romney, e também dos discursos de Newt Gingrich. Hoje todos se retrataram, e o Congresso não está analisando outras alternativas, como as reais injeções de dinheiro em pesquisa e desenvolvimento. Estamos apenas observando as temperaturas elevarem e os preços subirem e esperando que as coisas acabem bem.

Em seguida, temos o mais branco dos cisnes brancos: bater no teto da dívida. Sabemos que um calote teria efeitos catastróficos - Ronald Reagan chamou isso de "impensável", o ex-vice-chairman do Federal Reserve Alan Blinder afirmou que "ele poderá nos levar de volta a uma recessão", e a Moody"s alertou que um calote provocaria um rebaixamento imediato da classificação de crédito do país. Sabemos o que precisamos fazer para evitar essas consequências. Mas não estamos fazendo nada.

Pelo contrário, os republicanos estão tentando se convencer de que talvez o calote não fosse algo tão ruim, e que valeria a pena correr o risco de assustar o governo Obama para que ele ceda ao programa republicano.

E digamos que conseguimos nos esquivar de uma crise envolvendo o teto da dívida. E da próxima vez? Ou a próxima crise depois dessa? É uma bomba na base na economia e basta errar apenas uma vez para as coisas ficarem realmente péssimas, e muito rápido. Pior, é um risco desnecessário. Se o Congresso quer que a mudança política siga adiante, é para isso que o orçamento existe. Pagar nossas contas, contudo, não é opcional. Mas no nosso sistema - único entre os países desenvolvidos - é opcional, embora com terríveis consequências. Um dia, alguns líderes tomarão a decisão errada, e a polarização será excessiva para conseguirmos superá-la, e a bomba vai explodir.

Quando uma crise chega, as pessoas que deveriam impedi-la gostam de dizer que ela não podia ser prevista. Quem poderia ter imaginado que os mercados imobiliários iriam à falência no país, ou que terroristas atacariam edifícios com aviões, ou que um furacão destruiria os diques em Nova Orleans? Às vezes há um pouco de verdade nessas alegações. Mas não nesses casos. Essas crises são previsíveis. Podem ser evitadas. São os cisnes brancos, e estão mergulhando e grasnando à nossa frente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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