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Pode o Grande Bazar de Istambul desmoronar?

A estrutura de um dos mais visitados pontos turísticos da Turquia está comprometida por obras irregulares, mas ninguém quer pagar reforma

HASNAIN, KAZIM, DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2013 | 02h05

O grande bazar de Istambul é um labirinto antigo: o reboque está caindo do teto. Em muitos lugares, a pintura praticamente desapareceu e os desenhos coloridos nas paredes necessitam desesperadamente de uma nova pintura. "Faz muito tempo que tudo isto foi feito", diz o comerciante de roupas Mehmed. "Acho que há 30 ou 40 anos."

O mercado que existe há séculos e é uma das maiores atrações turísticas de Istambul, atraindo milhares de pessoas diariamente, corre o risco de desmoronar e necessita de uma reforma urgente.

Pelo menos é o que afirmam seus administradores. Eles alegam que muitos dos comerciantes, sem permissão, escavaram as paredes para aumentar o espaço das lojas. Em vários casos, teriam até derrubado as paredes para criar sótãos. E isso coloca em risco a estabilidade do prédio.

Uma investigação feita a pedido da administração do mercado revelou que 135 empresas removeram paredes e 926 reduziram sua espessura para ter mais espaço para as mercadorias. Até mesmo o teto está instável, pois tem de suportar o peso dos aparelhos de ar-condicionado, caixas d'água e antenas parabólicas em número sempre maior. De acordo com o jornal Zaman, os responsáveis poderão sofrer penalidades.

O relatório de inspeção, divulgado no mês passado, indica que o subsolo do prédio - localizado em Eminönü, a parte europeia antiga da cidade - corre o risco de desabar. O bazar, onde as pessoas negociam, regateiam, fofocam e bebem chá há mais de 500 anos, está em perigo.

"Não vai desabar amanhã", diz Mehmed, terceira geração de uma família vendedora de roupas, em pé na frente das prateleiras repletas de toalhas para sauna. "Isso é um absurdo. Sim, já está na hora de fazer alguma coisa, mas o prédio não vai desabar amanhã."

Aydin dirige a loja ao lado de Mehmed, vendendo roupas de algodão e utensílios tradicionais para banho turco. Ele também não acredita numa catástrofe iminente. "Na verdade, isso tudo tem a ver com quem deve pagar pela reforma", afirma. "O objetivo é pressionar os comerciantes. Não concordo que devemos arcar com os custos."

O problema é a situação complicada sobre a propriedade das lojas. Algumas pertencem aos comerciantes, outras à prefeitura da cidade e muitas pertencem ao Estado ou a fundações. "A cidade contribuiu para as coisas se deteriorarem aqui", diz Aydin. Segundo ele, a prefeitura removeu o revestimento do teto porque supostamente continha chumbo e o substituiu por ladrilhos. "Agora os corredores estão sempre úmidos - há sempre atalhos sendo abertos", diz o comerciante.

Diversos negociantes afirmam que as penalidades e os anúncios de trabalhos de reforma são apenas ameaças. "Trabalho aqui há mais de 20 anos", diz um senhor que vende cachimbos da Anatólia. "Quantas vezes já ouvi dizer que as paredes do mercado vão desabar? Quantas vezes ameaçaram remover os anexos ilegais? Nada aconteceu." Mas existe um perigo: "Se ocorrer um grande terremoto, como aqueles que ocorriam em Istambul com frequência no passado, tudo isto realmente vai desabar".

Outros apontam para a longa história do bazar, que sobreviveu a todos os terremotos, incêndios e crises políticas. O sultão Mehmed II encomendou a construção desse mercado fechado em 1461, depois da conquista de Constantinopla. Com o passar dos séculos, mais e mais pessoas foram chegando até que, num determinado momento, o bazar se transformou no maior mercado coberto do mundo. Os turcos o chamam de Kali Carsi, o que significa literalmente "mercado coberto". De acordo com comerciantes e membros da associação que administra o mercado, ele abriga 4.000 negócios em 64 ruas e alamedas, e entre 20.000 e 25.000 trabalham ali.

Tesouros e lixo. No início, o mercado era um ponto de encontro dos moradores, um local de reunião depois de uma visita às mesquitas próximas e naturalmente um ponto de comércio, onde os lojistas vendiam ouro, pedras preciosas ou tecidos finos. Novos negociantes chegaram e hoje há uma ampla variedade de produtos à venda: desde antiguidades até móveis, desenhos caligráficos e livros. "Infelizmente existe também muito lixo", diz Aydin. "Roupas baratas do Extremo Oriente e brinquedos de plástico." O bazar conta também com bancos, lojas de câmbio, cafeterias e casas de chá, além de correio e um posto policial.

"Os turistas foram nosso mais importante fator econômico durante um período", diz Mehmed. Os comerciantes lucram muito com os visitantes, porque todos os guias turísticos dizem que você tem de regatear no bazar e dá uma dica: não se envergonhe de oferecer um terço do preço oferecido pelo vendedor. Como os negociantes sabem disso, eles cobram um valor irrealisticamente alto por alguma mercadoria e, desse modo, os dois lados ficam satisfeitos com a transação.

Os comerciantes dizem que os corredores podem desabar e colocar em risco seu bem-estar econômico. "No final, os turistas não virão mais aqui porque ficam com medo", disse Mehmed. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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