Pode-se pôr um preço à vida?

Quarentena imposta pelo governo de muitos países por causa da pandemia do coronavírus nos obriga a um novo olhar

Eduardo Porter e Jim Tankersley, The New York Times

26 de março de 2020 | 11h00

Podemos medir o custo de centenas de milhares de mortos? O presidente Donald Trump e importantes figuras do mundo dos negócios estão insistentemente estionando se será prudente um fechamento prolongado da economia dos Estados Unidos – que já tirou milhões do emprego – para conter o alastramento da pandemia do coronavírus. “Os nossos cidadãos querem voltar ao trabalho”, declarou Trump na terça-feira no Twitter, acrescentando: “A  cura não pode ser pior (e muito) do que o problema!"

Em essência, ele levantou uma questão em torno da qual os economistas discutem há muito tempo: de que maneira uma sociedade pode avaliar se que vale mais o bem-estar econômico ou a saúde? “Os economistas deveriam fazer essa análise do custo-benefício”, disse Walter Scheidel, especialista em história da economia da Universidade Stanford. “Por que ninguém está atribuindo valores aos custos econômicos de um fechamento de meses ou mesmo de um ano em relação às vidas salvas? Toda a disciplina está bastante equipada para isso. Mas as pessoas sentem certa relutância a pôr o pescoço p"

Alguns economistas que apoiam o fim das atuais restrições à atividade econômica afirmam que os governadores e mesmo o governo Trump não avaliaram suficientemente os custos e os benefícios dessas restrições. “Nós atribuímos um peso muito grande a salvar vidas”, afirmou Casey Mulligan, economista da Universidade de Chicago, que por um ano exerceu o cargo de economista-chefe do Conselho de Assessores Econômicos de Trump. “Mas esta não é a única consideração. É por isso que não fechamos a economia todos os anos na época da influenza. Eles estão ignorando os custos do que estão fazendo. E também têm poucas indicações de quantas vidas estão salvando”.

No entanto, existe amplo consenso entre os economistas e os especialistas em saúde pública, segundo o qual levantar as restrições imporia enormes custos em termos de vidas adicionais perdidas para o vírus – e representaria um reduzido benefício duradouro para a economia. “Adotar a comparação de custo/benefício é útil, mas no momento em que fazemos isso, os resultados são tão espantosos que não precisamos entrar em detalhes para saber o que fazer”, disse Justin Wolfers, economista da Universidade de Michigan. O único caso em que os benefícios do fim das restrições superam os custos em vidas perdidas, disse Wolfers, seria se “os epidemiologistas estão mentindo para nós a respeito do número de pessoas que estão morrendo”.

Avaliar os custos econômicos em contraposição às vidas humanas parecerá algo inevitavelmente crasso. No entanto, as sociedades também avaliam coisas como empregos, alimentos e dinheiro para pagar as contas – assim como a capacidade de atender a outras necessidades e prevenir desgraças não relacionadas. “Tornar as pessoas mais pobres tem consequências também para a saúde”, segundo Kip Viscusi, economista da Universidade Vanderbilt que passou sua carreira usando técnicas econômicas para avaliar os custos e benefícios das regulamentações do governo. As pessoas sem dinheiro, às vezes, se matam. Os pobres muito mais provavelmente morrerão se ficarem doentes. Viscusi calcula que em toda a população, cada perda de renda de US$ 100 milhões na economia causa uma morte a mais. As agências do governo calculam regularmente essa relação.

A Agência da Proteção Ambiental, por exemplo, estabeleceu um custo de aproximadamente US$ 9,5 milhões por vida salva como referência para determinar se vale a pena despoluir um sítio tóxico. Outras agências usam valores semelhantes para determinar se vale a pena investir na redução de acidentes em um cruzamento ou tornar mais rígidas as normas de segurança no local de trabalho. O Departamento da Agricultura tem uma calculadora para avaliar os custos econômicos – assistência médica, mortes prematuras, perda de produtividade em casos não fatais – de doenças contidas nos alimentos.

Calculando o custo/benefício

Agora, alguns economistas decidiram se arriscar e aplicar essa maneira de pensar à pandemia do coronavírus. Em um documento divulgado na segunda-feira, Martin S. Eichenbaum e Sergio Rebelo da Northwestern University, com Mathias Trabandt da Universidade Livre de Berlim, usaram o número da EPA para encontrar a maneira ótima de reduzir o alastrar-se da doença sem custos econômicos que ultrapassem os benefícios. A economia sofreria uma contração considerável mesmo sem um fechamento imposto pelo governo se as pessoas optassem por não ir trabalhar e não ir aos mercados, na esperança de evitar o contágio.

Nesse caso do isolamento voluntário, Eichembaum e colegas calcularam que a demanda do consumidor americano declinaria US$ 800 bilhões em 2020, ou cerca de 5,5%. Baseado em projeções epidemiológicas, à medida que o vírus corre solto, ele se expandiria rapidamente infectando algo acima da metade da população antes que uma operação de imunização em massa freasse o seu curso. Pressupondo uma taxa de mortalidade de aproximadamente 1% das pessoas infectadas, cerca de 1,7 milhão de americanos morreriam dentro de um ano.

Uma política de contenção do vírus pela redução da atividade econômica reduziria a progressão do vírus e a taxa de mortalidade, mas também imporia um custo econômico maior. Eichenbaum e colegas afirmam que uma política “ótima” – a avaliação dos prejuízos econômicos em relação às vidas – exige restrições que desaceleram substancialmente a economia. Segundo esse enfoque, o declínio do consumo em 2020 mais do que dobra, para US$ 1,8 trilhão, mas as mortes caem em meio milhão de pessoas. Isso representaria US$ 2 milhões em atividade econômica perdida por vida salva.

Nesse exemplo, “você quer que a recessão seja pior”, disse Eichenbaum. Mas um importante corolário é que há limites para o sacrifício. Além de determinado ponto, não valeria a pena perder mais atividade econômica para salvar mais vidas. O modelo, ele observou, depende consideravelmente dos pressupostos, que pretendem mostrar a magnitude dessas relações. E os economistas ainda estão fazendo contas. A relação custo/benefício mudará se considerarmos que o sistema de saúde poderia ficar sobrecarregado pelos casos de covid-19, aumentando as taxas de mortalidade. Isso justificaria um fechamento mais agressivo. Tudo se resume ao valor de uma vida.

O preço da vida

Nos anos 60, o Prêmio Nobel da Economia, Thomas C. Schelling, propôs que se permitisse que as pessoas colocassem um preço à própria vida. Observando quanto elas estariam dispostas a gastar para reduzir sua probabilidade de morrer – comprando um capacete para andar de bicicleta, dirigindo dentro dos limites de velocidade, recusando-se a comprar uma casa perto de um local poluído ou pedindo um salário mais alto para um emprego mais perigoso. As agências do governo calculariam um preço específico.

Entretanto, isso pode levar a alguns números estranhos. Como observou Peter Singer, o filósofo ético australiano, você pode salvar uma vida nos países pobres com US$ 2 mil ou US$ 3 mil, e muitas dessas vidas ainda poderão ser perdidas. “Se você compara isso a US$ 9 milhões”, ele disse, “é uma coisa maluca.” A discussão se torna ainda mais sensível quando consideramos o perfil etário dos mortos. Isso levanta a questão: salvar a vida de um velho de 80 anos será algo tão valioso quanto salvar a vida de um bebê? A covid-19 me parece muito mais letal para os mais velhos, qualquer que seja o seu valor econômico. Mas Trump declarou na terça-feira que enquanto os indivíduos com maior risco de contraírem o coronavírus estão sendo protegidos, a economia pode estar “ansiosa por retomar” no prazo de três semanas. “Os mais velhos serão cuidados com a nossa proteção e amor”, ele afirmou no Twitter. “Nós podemos fazer as duas coisas ao mesmo tempo." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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