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Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Pode ser mais que uma bolha. É o que diz o mercado

No mercado financeiro, a palavra crise é usada com parcimônia. Afinal, trata-se de um setor no qual oscilações, muitas vezes intensas, fazem parte da rotina diária. Por isso, quando a atual turbulência financeira começou, há exatos 20 dias, todos os profissionais do ramo a descartavam com veemência.   Ouça o áudio da entrevista com Gustavo FrancoA escalada de nervosismo na semana passada, que obrigou diversos bancos centrais a injetar cerca de US$ 300 bilhões nos mercados de crédito, mudou essa situação. A negação veemente foi substituída por expressões evasivas, como "veja bem", "ainda não" e "não é o que parece, mas". Em resumo, se no início praticamente todos bancavam que não era uma crise, hoje ninguém garante que não é. Basicamente porque não se tem a exata dimensão do que pode ocorrer daqui para frente. "É como se estivéssemos numa casa sem luz, à noite, munidos apenas de uma lanterninha. Como a luz do dia ainda demora a chegar, o único jeito é caminhar lentamente, esquivando-se dos obstáculos que aparecerem pelo caminho", compara o economista Roberto Padovani, economista do Banco WestLB. No início, os prejuízos decorrentes da crise imobiliária dos Estados Unidos pareciam restritos às empresas do ramo, a fundos de investimento que tinham em suas carteiras papéis lastreados em hipotecas de alto risco (subprime) e a instituições especializadas em empréstimos para a compra de imóveis. Os efeitos, porém, se espraiaram. Fundos de importantes bancos, como o francês BNP Paribas e o americano Bear Stearns, tiveram pesados prejuízos por causa do crescimento dos calotes no segmento subprime. Isso provocou o aumento da chamada aversão ao risco, que praticamente paralisou o mercado de crédito de alguns países na quinta e sexta-feira.Se a atual turbulência se transformar em uma crise financeira, será a primeira do gênero desde 2001, ano marcado por uma recessão nos EUA que foi aprofundada pelos ataques terroristas ao World Trade Center. Essa crise, por sua vez, foi a última de uma seqüência iniciada em 1997, na Ásia - que teve também a quebra da Rússia e do fundo hedge Long Term Capital Management (LTCM), em 1998; a desvalorização do real, no início de 1999; e a crise da Argentina, em 2001. "Essas coisas (crises) a gente nunca sabe o tamanho quando está começando. Hoje claramente não se pode dizer que seja semelhante à crise da Ásia, mas seguramente é uma coisa mais séria do que o solavanco de seis meses atrás na Bolsa de Xangai", afirma o economista Gustavo Franco, que presidiu o Banco Central (BC) entre agosto de 1997 e janeiro de 1999. Para ele, o momento atual se assemelha ao da quebra do LTCM em 1998. "Quando esse fundo hedge estourou, afetou profundamente bancos importantes no cenário global, o que gerou uma grande crise."Os sismógrafos dos analistas estão agora ajustados para duas questões cuja evolução apontará se o caminho será o de uma crise ou não. A primeira diz respeito aos bancos. Cada nova notícia sobre prejuízos de instituições financeiras será analisada à exaustão para que se perceba se há risco de quebra. O segundo ponto está relacionado à economia real. "É preciso saber que impacto essa restrição do crédito terá no comportamento do consumidor americano", diz Marcelo Salomon, economista-chefe do Unibanco. Se a puxada for forte e generalizada, fará desacelerar ainda mais a maior economia do planeta. "Ainda é cedo para falar em crise. Mas os eventos da semana (passada) aumentaram a preocupação."

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

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