Nilton Fukuda|Estadão
Nilton Fukuda|Estadão

Poder de barganha dos trabalhadores despenca 30,7% em 2015

Segundo pesquisa da Catho e da Fipe, está mais difícil negociar empregos e salários já que a relação de vagas por candidato caiu

Mário Braga, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2016 | 10h43

SÃO PAULO - O poder de barganha dos trabalhadores brasileiros na hora de concorrer a vagas de emprego ou negociar seus salários caiu 30,7% em 2015, voltando a níveis do terceiro trimestre de 2011. Esta foi a magnitude da queda na relação de vagas por candidato medida pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) com base em dados da empresa de recrutamento online Catho publicados em primeira mão pelo Broadcast, serviços de informações em tempo real da Agência Estado.

"Quando o mercado tem mais vagas, o trabalhador tende a ser mais seletivo, negocia salários e benefícios com mais força. Na situação atual, quem está contratando tem a faca e o queijo na mão, podendo barganhar cargas horárias maiores ou remunerações mais baixas", exemplificou o economista da Fipe Raone Costa. 

A piora nas condições do mercado de trabalho brasileiro ao longo de 2015 se deu apesar de uma melhora no quarto trimestre na quantidade de vagas ofertadas por trabalhadores em busca de emprego. Em dezembro, a alta foi de 4,3% na comparação com novembro. Em outubro e novembro, na margem, o índice também havia avançado 7,2% e 2,7%, respectivamente. De acordo com a Fipe, esse comportamento é sazonal e se deve às contratações temporárias para o fim de ano. 

Uma queda da ordem de 30% na relação de vagas por candidato como a registrada no ano passado só foi observada em 2009, quando o mercado de trabalho sentiu os efeitos da crise financeira global, afirma o economista da Fipe. Costa chama a atenção para o fato de que, apesar de o movimento no indicador de vagas ser similar nos dois períodos, o comportamento da taxa de desocupação medida pela Pesquisa Mensal do Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi diferentes nos dois períodos. 

Entre 2008 e 2009 a taxa média de desemprego avançou 0,2 ponto porcentual, de 7,9% para 8,1%. Já entre 2014 e 2015 o salto foi dez vezes maior, de 4,8% para 6,8%. "Lá atrás, o que acontecia é que as pessoas deixavam de criar vagas, mas não demitiam. A crise foi curta, cerca de seis meses, e logo depois o País voltou a crescer", detalhou Costa, ressaltando que os elevados custos de demissão levaram os empresários a permanecer com parte da mão-de-obra ociosa por algum tempo até uma sinalização de retomada econômica. "Hoje, como já estamos em crise há mais tempo, não só se deixa de gerar vagas, como se manda pessoas embora. Por isso o comportamento da taxa de desemprego está sendo muito diferente nestes dois momentos", afirmou.

No ano passado, o índice de novas vagas de emprego caiu 12,7%, embora tenha subido 1,3% em dezembro, 3,3% em novembro e 7,5% em outubro na comparação com os meses anteriores, segundo a pesquisa Catho-Fipe. No início de 2016, porém, a criação de oportunidades de trabalho voltou a apresentar trajetória de declínio. Na passagem de dezembro para janeiro, o recuo foi de 2,7%. Em relação a janeiro de 2016, a retração foi de 11,4%.

Metodologia. O Índice Catho-Fipe de Novas Vagas de Emprego é calculado com base em dados de novas vagas de emprego anunciadas no site da Catho. De acordo com a Fipe, o valor está relacionado à dinâmica da atividade econômica do País, em especial à geração de postos de trabalho. Já o indicador Catho-Fipe de Vagas por Candidato é a razão entre as vagas abertas e o número de candidatos de um período. 

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