Evaristo Sá/ AFP
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Poderes estão cada vez mais fora de harmonia e vai se criando um clima terrível

No Executivo, é cada ministro por si, e nenhum por todos; Câmara e Senado seguem caminhos diferentes; já Bolsonaro só pensa na reeleição

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2021 | 04h00

Faz mais de um ano que o País assistiu incrédulo ao vídeo da reunião de governo, de 22 de abril. Foram reveladas as entranhas do governo Bolsonaro e seu modus operandi. Em qualquer democracia, o que se viu e ouviu ali seria motivo mais do que suficiente para o impeachment do presidente e a responsabilização de vários de seus ministros.

Salles confessou a autoria de crimes ambientais com sua boiada. Weintraub atacou os ministros do Supremo, Guedes revelou que a reforma administrativa do seu coração era jogar uma granada no bolso dos inimigos. Isso tudo sob o fundo musical dos palavrões de Bolsonaro.

Estava claro o caráter autoritário, a mesquinhez na questão da vacina e a sua total falta de decoro para o cargo de presidente da República. Não faltou a convocação de uma milícia civil. Tudo foi anunciado em alto e bom som, tendo ao seu lado ministros da área militar.

A reunião mostrou que ninguém está neste governo por acaso. Não existe isso de ministro técnico, são todos apoiadores da agenda bolsonarista. Só saem, demitidos, quando começam a atrapalhar o projeto do chefe. Mesmo de fora, mantêm o discurso golpista. O negacionismo os une e identifica. Não usam máscaras e não permitem que ninguém as use em seus gabinetes. A marca da seita.

São responsáveis pela agenda política e econômica, enquanto Bolsonaro só pensa naquilo: a reeleição. Sonho que, felizmente, parece cada dia mais distante.

De lá para cá, tudo piorou. As mortes por covid-19 beiram 600 mil, a pobreza se aprofunda, a cultura é incendiada e são milhões de desempregados.

Com o acúmulo dos pedidos de impeachment, a queda nas pesquisas e uma economia que não sai do lugar, Bolsonaro se jogou nos braços do Centrão, mas sem abandonar seus planos.

Vinha de forma homeopática, seguindo firme no seu propósito golpista. Mas, a cada revés, como a derrota do voto impresso, ele vai radicalizando. Enquanto fazemos piadas sobre o fumacê na Esplanada ou as lágrimas de crocodilo de Sérgio Reis, propõe o impeachment dos ministros do STF e convoca apoiadores para mais uma demonstração antidemocrática em 7 de setembro.

E o País segue à deriva. No Executivo, ninguém se entende, é cada ministro por si, e nenhum por todos. Os de áreas fundamentais, como Educação e Ciência e Tecnologia, só causam constrangimentos cada vez que abrem a boca. O da Saúde politiza a distribuição de vacinas. Na Economia, a inoperância do ministro é evidente. Não percebeu que precatórios vinham crescendo de forma explosiva. “Devo, não nego. Pago quando puder”, diz ele. Sua solução foi constitucionalizar o calote. Com uma PEC, propõe quitar dívida líquida e certa em parcelas, usando, para isso, recursos de privatizações. 

Coitados dos credores deste País que vão depender das vendas de estatais de Guedes. Trocando o certo por coisa nenhuma. A mesma ideia é cogitada para financiar o novo Bolsa Família. Pobres dos pobres.

No país de Alice, tudo é uma maravilha. Guedes alega que só não faz mais por culpa dos colegas, do Congresso, do Judiciário e, pasmem, da antecipação da campanha eleitoral. Vai assistindo, passivamente, a piora dos indicadores: inflação voltando, juros subindo, real desvalorizando e desigualdade se agravando.

Em meio a essa profunda crise, todas as tentativas de reforma têm sido um desastre. A privatização da Eletrobras e a reforma tributária que o digam. Sob títulos bonitos, como Auxílio Brasil, já saem do Executivo com vícios de origem. São propostas ruins, ineficazes e confusas. Se aprovadas no afogadilho, deixarão uma herança negativa para o futuro governo e futuras gerações. Melhor parar as rotativas.

Na Câmara, tem projeto para tudo: de PL da grilagem à volta das coligações. Pedidos de urgência se acumulam, e os ritos de avaliação pelas comissões são ignorados. Não há agenda, só pressa. Ou melhor, há agenda: a do Centrão. Nunca se viram tantos lobbies vitoriosos em uma única legislatura.

No Senado, o ambiente é outro: CPI da Covid, pressão sobre Augusto Aras e sabatina de André Mendonça na prateleira. Rodrigo Pacheco, eleito com apoio de Bolsonaro, já percebeu que a maré está virando e vem tentando se distanciar da pauta governista. As duas Casas seguem caminhos diferentes. 

E vai se criando um clima terrível...

*ECONOMISTA E ADVOGADA 

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