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Pois é, pleno emprego

Os números sobre o desemprego de julho divulgados ontem pelo IBGE foram suficientemente surpreendentes para dar um nó górdio nas ideias do ministro do Trabalho, Manoel Dias.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2013 | 02h01

Na véspera ele olhara para o relatório do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), elaborado pelo seu Ministério, que apontara decepcionante resultado líquido nas contratações de pessoal com carteira assinada, e chegou a entregar os pontos: "Nossa realidade é essa mesmo, de crescimento do PIB de apenas 1% ou 2%".

No entanto, o desemprego medido pelo IBGE caiu de 6,0% (em junho) para 5,4% (em julho), nível que, com os devidos ajustes, apontam para algo em torno dos 5,7%, indicador muito próximo do pleno emprego.

Para o governo Dilma, que adora comparar estatísticas do Brasil com as do resto do mundo, esse patamar de desemprego por aqui seria motivo para queima de fogos de artifício. A Espanha, por exemplo, enfrenta desocupação de 26,3%; a Grécia, de 27,6%; a África do Sul, de 25,6%; a Itália, de 12,1%; e os Estados Unidos, de 7,4%.

Embora a realidade seja a de um PIB avançando a coisinha sugerida pelo ministro, o fato é que o mercado de trabalho real continua aquecido. Seria uma fornalha se, em vez do que é, o crescimento da economia fosse o pretendido pelo governo, ou seja, alguma coisa em torno dos 3%.

A que então atribuir a disparidade entre as estatísticas do Caged, que mede o trabalho formal, e as do IBGE, que se atém ao nível geral? De um lado, não há disposição das empresas de contratar quando se reforça a percepção de que a economia vai ficando entalada nas distorções e na perplexidade do governo. Além disso, elas já vinham segurando pessoal porque temiam a escassez de mão de obra, se fosse necessário contratar. São razões que podem explicar o ritmo mais lento do emprego formal.

De outro lado, o instantâneo capturado pelas objetivas do IBGE é o de que há cada vez menos gente procurando emprego no Brasil. Isso parece acontecer porque as ocupações autônomas, os serviços por conta própria, os biscates e as chamadas virações vêm dando retorno imediato melhor para o trabalhador do que o emprego numa empresa. Quem duvida deve conferir quanto fatura hoje um flanelinha numa grande cidade, como São Paulo.

Esmerilhadora de poder aquisitivo, a inflação só reforça essa tendência porque na informalidade ou no trabalho por conta própria não há os impostos e os descontos que reduzem o salário nominal em até mais de 30%.

Não está claro se o tombo do desemprego em julho é uma tendência firme ou se é apenas um fato isolado, que não deve se repetir. Em todo o caso, apesar da crise, as condições do mercado de trabalho não estão tão precárias quanto sugerem alguns líderes sindicais e o ministro do Trabalho.

A propósito, a informação mais relevante do IBGE talvez não seja o tombo do desemprego em julho, mas o baixo crescimento da massa salarial real em 12 meses (2,1%).

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