Política atual deixa inflação mais distante do centro da meta

ANÁLISE: José Paulo Kupfer

O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2014 | 02h02

Uma das primeiras consequências da alta do IPCA de setembro acima do previsto pelos analistas de mercado foi a elevação das projeções para as variações mensais daqui até o fim de 2015. Nos próximos dois meses, a variação do IPCA deve ficar acima do teto da meta, mas abaixo dos 6,75% apurados no mês passado, o mais elevado em três anos

Mesmo com a ajuda do índice de dezembro de 2013, que passou de 0,9% e não deve se repetir este ano, aumentaram as possibilidades de o IPCA fechar 2014 na porta do teto, acima dos 6,3% ainda previstos pelos analistas no Boletim Focus. Cresceram também as chances de que a inflação permaneça nas proximidades do teto ao longo de todo o ano que vem. Em pelo menos quatro meses de 2015, de acordo com as estimativas atualizadas depois do IPCA de setembro, a variação acumulada do índice pode superar o teto da meta.

O que levou a inflação do mês passado a superar as estimativas foi o item alimentos e bebidas, aquele mesmo que recuou nos últimos três meses e contribuiu para aliviar o índice, no terceiro trimestre. Carnes, alimentação fora de casa e bebidas puxaram o índice. Mas as altas foram generalizadas, fazendo com que o índice de difusão voltasse a ultrapassar 60% do conjunto dos preços que compõem o IPCA.

Ainda que os preços dos alimentos possam refrear a tendência de alta, como indicado pelas variações dos índices no atacado de produtos agrícolas, é certo que a inflação continua resistente. Não se consegue vislumbrar reais perspectivas de convergência para a meta com a simples manutenção dos atuais níveis de juros básicos e de superávit primário fiscal. Na verdade, mesmo com a economia em clara estagnação, as hipóteses mais realistas apontam para pressões altistas nos preços, ao longo de 2015.

Essas pressões têm foco importante na situação cambial. Ainda que, em ambiente de baixo crescimento, a contaminação das desvalorizações do real ante o dólar tende a ser mais mitigada e menos imediata, é, no fim das contas, inevitável. No caso específico da situação atual, o câmbio é particularmente relevante na formação das importações de petróleo e derivados e, por isso, as defasagens dos preços internos e externos afetarão, mais fortemente, o caixa já combalido da Petrobrás.

Já anunciado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, aumentos de alguma monta nos preços dos combustíveis são inevitáveis e deverão vir logo depois das eleições. Quanto mais demorar, maior o risco de ser necessário decretar aumentos mais fortes. Nesse quadro, uma retomada de alta nas taxas básicas de juros pode ser antecipada.

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