DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Política de estímulos de Dilma afetou economia do País, diz Tombini

Pela primeira vez, presidente do Banco Central criticou a política fiscal adotada pelo governo a partir de 2008 e disse que medidas foram ineficazes para gerar crescimento nos últimos dois anos

Bernardo Caram, Rachel Gamarski e Célia Froufe, O Estado de S. Paulo

26 Maio 2015 | 16h02

Atualizado às 16h50

BRASÍLIA - O presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, disse nesta terça-feira, 26, que a política fiscal adotada desde 2008 e no segundo mandato de foi ineficaz para gerar crescimento nos últimos dois anos e acabou comprometendo fundamentos da economia do País. Tombini participa de audiência pública na Câmara dos Deputados. 

Segundo o presidente do BC, "as políticas que funcionaram em 2008, os estímulos, não produziram crescimento nos últimos dois anos, mas acabaram por, digamos assim, afetar os fundamentos macroeconômicos, em particular os colchões de contenção que nós tínhamos na área fiscal". Ele ressaltou que o que o Brasil faz neste momento é restabelecer os fluxos fiscais, com o objetivo de se preparar para "um novo ciclo fiscal". "Temos que enfrentar esse período de desaceleração da economia. Ter um sistema saudável capaz de enfrentar esse período", disse.

Ele afirmou que será visto ao longo dos próximos meses uma queda na inflação, com redução significativa do índice no início do ano que vem. Os dados no início de 2015, entretanto, dificilmente serão piores que os primeiros meses deste ano, quando o governo realinhou os preços administrados. Para Tombini, a expectativa do mercado de que a inflação termine 2016 em 5,5% é positiva, "porém não suficiente para o cumprimento do nosso objetivo", que é atingir o centro da meta, de 4,5%.

Segundo Tombini, há um evento importante neste ano, que é a normalização das condições monetárias da economia americana. "Deve ser mais para o fim do ano", ponderou.

Ajustes. Tombini disse que a economia brasileira passa por sérios ajustes, importantes e necessários. De acordo com ele, 2015 será um ano de construção de base mais sólida para crescimento mais à frente. O presidente do BC afirmou também que os investimentos devem retrair-se influenciados por eventos não-econômicos, o que os agentes têm interpretado como eventos relacionados à corrupção, e menor atividade econômica, mas, mesmo assim, a confiança retomará.

Segundo Tombini, deve-se evitar que a reprecificação abrupta dos ativos do Brasil atinja o crescimento do País. "Temos que evitar que reprecificação abrupta dos nossos ativos traga implicância ao crescimento", ressaltou. O presidente do BC reconheceu a importância do programa de swap cambial e afirmou que a ação cumpriu bem o seu papel.

Sobre a economia americana, Tombini também falou sobre a expectativa para a próxima decisão do Federal Reserve (Banco Central Americano). "Temos que ter a economia em ordem no Brasil para esperar a próxima decisão do Fed, que é a mais preparada e esperada da história", afirmou Tombini. "A tendência (de alta) do dólar americano tem chamado atenção", continuou. De acordo com ele, é preciso reconhecer ainda que o processo de normalização da economia americana é complexo. "O preço das commodities apresentou tendência de retração desde 2011", completou.

Juros. Tombini afirmou que alta do juros é "um remédio que infelizmente tem que ser aplicado neste momento". Segundo o presidente do BC, a alta dos juros é um instrumento da política monetária e vem sendo usado pelo Banco Central. "Este ano é um ano de transição", afirmou o presidente. 

 

A taxa Selic está em 13,25, após alta de 0,50 na última reunião do Comitê de Política Monetária. A próxima reunião está marcada para os dias 2 e 3 junho, com aposta por parte do mercado de mais um acréscimo de 0,5.

BNDES. Na avaliação do presidente do BC, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ainda tem fatia grande no mercado de crédito de longo prazo. Ele lembrou que o banco, seguindo orientação dos ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, irá atuar com recursos escassos, estimulando o mercado de capitais.

"É importante fazer com que os recursos escassos do BNDES sirvam para alavancar o mercado de capitais brasileiro, que avançou bastante nas últimas décadas, mas que precisa avançar nos instrumentos de dívidas do setor privado", disse. Ele ressaltou que a medida deve incentivar a emissão de debêntures de infraestrutura, que têm como objetivo fazer com que o crescimento não fique dependente do BNDES.

Questionado por um parlamentar como via os lucros "exuberantes" dos bancos, Tombini citou em sua resposta a alta nos últimos dias da Contribuição Social sobre Lucro Líquido, que atinge o setor.


Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.