Política de garantia de preço mínimo da safra já é questionada

Produção brasileiraem excessopode levar o governo a gastar mais para garantir preço de alimentos

NIVALDO SOUZA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2014 | 02h03

O Brasil se prepara para bater recordes de produção no campo, como aumento em trigo e feijão, por meio de uma política de estímulo à quantidade que conta com cada vez mais financiamento público - o Plano Safra saltou, do intervalo 2013/2014 para o ciclo 2014/2015, de R$ 136 bilhões para R$ 156 bilhões. Mas o que inicialmente soava como uma boa notícia, aos poucos começa a ser questionada.

O centro do debate são as dúvidas do mercado sobre até que tamanho o agronegócio brasileiro pode ser realmente competitivo no cenário internacional. A discussão começa a questionar um dos principais mecanismos do governo para o setor, a Política de Garantia de Preço Mínimo (PGPM), que pode precisar nesta safra de mais do que os R$ 5,6 bilhões previstos.

A PGPM é o instrumento que garante ao agricultor uma remuneração mínima do custo de produção, caso haja excesso de oferta no mercado. O problema é que o aumento de produção de alguns produtos agrícolas tem derrubado os preços de mercado, apontando uma queda que pode fazer parte da safra 2014/15 a registrar valores abaixo do mínimo definido. O resultado já começa a ser traçado por analistas e mesmo pelo governo como um risco à PGPM, operado pelo Ministério da Agricultura.

Nas contas da consultoria FC Stone, somente para o milho, que se beneficiou no ano passado da quebra da safra nos Estados Unidos para exportar 27 milhões de toneladas, o estímulo ao aumento de produção nos últimos anos pode levar o gasto do governo para atingir o nível oficial de 21 milhões de toneladas para exterior custar R$ 4 bilhões. "Temos uma situação bastante nebulosa com as contas estourando. O governo vai ter de colocar a mão no bolso para garantir preço", diz o gerente de risco da consultoria, Etore Baroni.

Baroni diz que os norte-americanos voltaram em nível de produção, colocando mais de 30 milhões toneladas sobre a safra passada. A recuperação dos EUA está impactando os preços globais do grão e dificultando a exportação do milho brasileiro, cujo custo de logística é maior. "O Brasil só consegue exportar milho depreciando o preço no Brasil e o governo cobrindo a diferença do preço mínimo", afirma.

Embora o governo não oficialize o risco de precisar fazer subvenção para não mexer com o mercado, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) já trabalha com a perspectiva de acionar mecanismos de equalização financeira, compra para composição de estoque para garantir o preço mínimo.

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