Política de metas de inflação é adequada, diz Bundesbank

O vice-presidente do Bundesbank, o Banco Central da Alemanha, Jürgen Stark, disse hoje que considera a política de metas de inflação a mais adequada para o atual cenário macroeconômico brasileiro e advertiu que promover o crescimento da economia em detrimento do combate à inflação seria desastroso. "Não estou aqui para fazer recomendações às autoridades brasileiras, mas não se pode ter um crescimento sustentável sem estabilidade de preços", disse, antes de um encontro com o presidente do BC, Henrique Meirelles. "Pode-se chegar a ter crescimento por um ano, mas com o tempo a inflação vai sair do controle; isso é óbvio, faz parte das leis econômicas", disse. Stark, que também representa o governo alemão junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), chegou na quarta-feira ao Brasil, vindo de Buenos Aires, e está visitando empresários, parlamentares e autoridades federais para "obter informações". Ainda hoje, ele embarcará de volta para a Alemanha. Ele, a propósito, fez questão de lembrar que a Alemanha é o terceiro maior cotista dentre os países membros do FMI. Credibilidade e confiança Jürgen Stark opinou que as economias emergentes devem empenhar-se para conquistar e manter a credibilidade e a confiança do mercado financeiro internacional, ter uma economia flexível e uma política econômica de continuidade. Essa, no entender dele, é a receita para contornar crises. Stark elogiou as medidas adotadas pelo Brasil e disse que o retorno à estabilidade da economia é um exemplo bom e encorajador. "O Brasil ocupa um papel chave na economia mundial", observou. Ele avaliou que a queda da atividade econômica brasileira, no ano passado, não pode ser chamada de recessão e lembrou que ela "foi quase igual à da Alemanha". "Pelos dados que temos, a recuperação está a caminho", afirmou. ?É importante não mudar a política fiscal" O vice-presidente do Bundesbank não quis comentar a proposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de mudança na forma de cálculo do superávit primário, com exclusão de investimentos em infra-estrutura, mas advertiu que o tamanho e a estrutura da dívida brasileira ainda são elevados. "Na minha visão, é importante não mudar a política fiscal", disse. Por isso, defendeu a importância dos superávits primários para reduzir a relação dívida pública/PIB e da taxa de juros básicos. "Muitos países da Europa sofreram com esse processo de endividamento histórico", afirmou, citando Itália e Bélgica. "É um processo que demora, mas é necessário", insistiu, lembrando que é algo que chega a ultrapassar 30 anos. ?Cheque especial? do FMI Stark é contra a proposta de que o FMI adote uma espécie de seguro, como um "cheque especial", para ser usado pelos países membros da organização em casos de eventuais crises. "Não sou favorável à idéia, porque essa proposta muda fundamentalmente o caráter do FMI", disse Stark. "O FMI não é uma agência de seguro", acrescentou. O mandato dado ao Fundo, lembrou, é ajudar na solução de crises localizadas. Ele citou o fato de a Argentina estar, nos últimos 20 anos, com programas junto ao fundo. "Ela tem sido uma cliente do fundo, e isso não pode continuar". Na opinião de Stark, depois de resolver seus problemas imediatos de pagamento, com ajuda do FMI, os países membros devem procurar financiamento junto ao mercado financeiro internacional. Hoje, segundo ele, as condições do mercado são favoráveis ao Brasil, e os spreads pagos pelo País, embora ainda altos, são razoáveis e refletem riscos. Stark admitiu que o fato de três países (Brasil, Argentina e Turquia) responderem por cerca de 70% dos recursos emprestados pelo FMI preocupa, principalmente diante da possibilidade de haver algum default (calote). "Seria um perigo para o sistema financeiro", advertiu. Segundo ele, essa discussão já está ocorrendo na diretoria do FMI, mas não interfere nos programas em andamento com esses países. "Nossa obrigação é preservar a integridade do sistema financeiro internacional", afirmou. Reticente em citar países específicos, Stark acabou admitindo que a Argentina não foi um bom exemplo para os outros membros do fundo. Ele disse que, se ocorresse um calote do país vizinho, não ocorreria nada de imediato com as economias emergentes. Mas, em um segundo momento, os países membros e aqueles que estão participando de programas, como Brasil, seriam chamados a ajudar a pagar o rombo do inadimplente. "Por fim, todos teriam que pagar mais", calculou.

Agencia Estado,

12 Março 2004 | 13h24

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