Política e economia não se entendem

A mãe de todos os problemas é um impasse de solução constantemente adiada

Josef Barat*, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2017 | 05h00

Um avanço importante do governo Temer foi o enquadramento da política macroeconômica, retomando os fundamentos da estabilidade monetária e do controle do déficit fiscal. Importantes também têm sido a retomada da credibilidade internacional e as ações pontuais de caráter microeconômico. Não é pouco, dado o caos na economia decorrente dos desvarios dos “anos dourados”, da exacerbação descontrolada do consumo, dos mimos a empresários amigos, do declínio das taxas de investimento, da perda de competitividade da indústria e da degradação das infraestruturas. Não se pode negar que havia método nessa dourada insensatez. Não foi tarefa simples criar tão brutal recessão a partir de fatores internos, já que não houve fator relevante de causa externa.

Mas no Brasil há sempre obstáculos às tentativas de dar um rumo certo à economia. Quando se buscam medidas de ajuste fiscal, reformas para pôr a economia nos trilhos e estabilidade para restituir credibilidade e gerar perspectivas, a política entra em cena para confundir. Num país grande, desequilibrado e desigual, é difícil que a política aponte para caminhos que tirem o País da recessão. Empresários, trabalhadores, funcionários públicos e políticos querem crescimento, geração de renda e de empregos, bem como generosas benesses do Estado. O problema é que ninguém aceita fatos simples como estes: o Estado está quebrado em seus três níveis, o déficit público chegou ao descontrole, a Previdência em breve não terá como pagar benefícios (como já ocorre em muitos Estados) e a carga tributária tornou-se insuportável.

A mãe de todos os problemas é, ao fim, um impasse de solução constantemente adiada. De um lado, a política estacionada no patrimonialismo, clientelismo e sugação parasitária do Estado que remonta ao século 18 e à sólida formação autoritária ibérica do País. De outro, a economia precisando romper amarras para se inserir no século 21 e num mundo crescentemente globalizado e competitivo. Exceto alguns segmentos, como o agronegócio e poucos setores industriais, a iniciativa, o empreendedorismo e a inovação são contidos sistematicamente pela burocracia infernal, pelo sistema tributário alucinadamente perverso e pela falta de regras claras na economia. Ou seja, o pretendente a correr a desafiante maratona das decisões de investir e gerar empregos tem de fazê-lo descalço, em pista de cascalho e com obstáculos à frente. E corre o risco de ser informado ao fim da corrida de que houve mudanças nas regras da própria corrida.

A política nacional está tão fora de sintonia com a realidade do País e os políticos tão preocupados em salvar a sua pele que já se começa a difundir a ideia de que a culpada de toda esta tragédia é a Lava Jato! Como se essa operação inovadora, globalizada e eficiente fosse a causa, e não o inevitável resultado dos desmandos, da roubalheira e da pilhagem aos cofres públicos. A Lava Jato só pode ajudar a economia, na medida em que restitui credibilidade às instituições e sinaliza para a necessidade de transparência e segurança jurídica nos negócios com o Estado.

O grande desafio do governo Temer – se quiser ser reconhecido como aquele que soube superar a maior recessão da nossa história – é resolver o impasse entre a economia e a política. Se a disposição de ajustar a economia é visível, o mesmo não se pode dizer da disposição de gerir os não menos graves problemas da nossa política. Trazer a visão que políticos, empresários e trabalhadores têm do Estado brasileiro para situar a economia do País no mundo globalizado significa trazer a política e as instituições – ancoradas no século 18 – para o presente. É tarefa para super-heróis mitológicos, e, infelizmente, nosso ambiente político, com as raras exceções de praxe, é de anti-heróis.

*Economista e consultor de entidades públicas e privadas, é coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo

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