Política fiscal austera ajudaria a conter os riscos

O crescente déficit em conta corrente do Brasil não surpreende. Já ficou muito claro que, neste e nos próximos anos, a economia brasileira vai precisar muito da chamada "poupança externa" para poder investir cada vez mais, mesmo com sua baixa poupança doméstica (que é o que sobra da renda depois do esfuziante consumo nacional).

Análise: Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

Na história econômica do Brasil, fases de déficit em conta corrente frequentemente terminaram com crises cambiais. Boa parte da instabilidade econômica e do baixo crescimento do período que vai do início dos anos 80 até o começo da atual década pode ser debitada à "vulnerabilidade externa".

Não é de espantar, portanto, que muitos economistas estejam preocupados com a perspectiva de mais uma fase de déficits externos. Mas parece que, na etapa atual, o financiamento pode ser mais saudável.

Nos últimos 12 meses, o Brasil acumulou um déficit em conta corrente de US$ 31,5 bilhões, mas, por outro lado, teve uma entrada de investimento direto de US$ 26,3 bilhões. O investimento direto é a melhor e mais segura forma de financiar o déficit externo, já que, além de fazer o País crescer, tem como contrapartida os dividendos a serem remetidos no futuro. E esses serão fartos quando a economia for bem, e minguados quando for mal (que costuma ser o momento mais delicado para os dólares saírem).

Por outro lado, como nota um relatório de Guilherme da Nóbrega, do Itaú Unibanco, a presença dos investimentos "de portfólio", isto é, em ações e renda fixa, vem crescendo de importância, e "o déficit brasileiro não é mais financiado inteiramente com investimento direto". Nóbrega acha natural que os investimentos de portfólio aumentem sua presença na poupança externa captada pelo Brasil, mas escreveu que "os mercados testarão" até que ponto isso pode acontecer.

É certo que, para viver com poupança dos outros, um comportamento responsável ajuda. E isso implica, entre outras providências, uma política fiscal mais austera, que contribua para reforçar a poupança doméstica - uma tarefa que o novo ou a nova presidente terá de encarar logo no início do mandato.

É JORNALISTA DO "ESTADO"

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