Masao Goto Filho/Estadão
Masao Goto Filho/Estadão

‘Situação fiscal prejudica combate à inflação’

Economista prevê que o IPCA atinja 6,5% em 2016 e acredita que País vai mesmo perder o grau de investimento

Entrevista com

Nilson Teixeira, economista-chefe do banco Credit Suisse

Ricardo Leopoldo, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2015 | 20h58

A retração do consumo e dos investimentos determinará o encolhimento da economia também em 2016, quando o Produto Interno Bruto (PIB) deverá cair 0,5%, estima Nilson Teixeira, economista-chefe do banco Credit Suisse. Ele espera uma retração de 2,4% na economia neste ano e, em entrevista ao Broadcast, serviço de informações em tempo real da Agência Estado, argumenta que as concessões públicas na área de infraestrutura só deverão gerar efeitos positivos diretos sobre a atividade em 2017. Segundo ele, uma ajuda expressiva, mas insuficiente, para a economia deverá vir da desvalorização cambial, que levará o setor externo a contribuir com 0,8 ponto porcentual para o PIB no próximo ano.

A recessão, diz, levará as receitas do País a resultados abaixo do esperado e, como há rigidez das despesas do governo, isso agrava o quadro. Nesse contexto, Teixeira estima que o País deverá registrar um déficit primário de 0,2% do PIB neste ano, com estabilidade do setor público consolidado no próximo ano.

A elevada inflação em 2015, que Teixeira estima em 9,4%, não deverá desacelerar de forma expressiva no próximo ano, quando deve avançar 6,5%. Com o IPCA nesse nível, o economista avalia que o Banco Central não terá condições de baixar os juros até o fim de 2016. “Com a redução da meta do superávit primário, de 1,1% para 0,15% do PIB este ano, bem como para 2016 e 2017, a política fiscal ficou ainda mais expansionista. E isso está prejudicando o combate à inflação. Nessa conjuntura econômica, Teixeira considera provável que a agência Standard & Poor’s retire o grau de investimento do Brasil em 2016. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual é a avaliação do sr. sobre a decisão da Moody’s de rebaixar a nota soberana do Brasil, com perspectiva estável? 

Havia uma expectativa de mercado de que a Moody’s poderia rebaixar a nota do País e torná-la mais próxima da S&P. Contudo, a perspectiva ficou neutra, o que foi visto de forma positiva. Como a provável leitura da Moody’s é de que o Brasil conseguirá voltar a crescer e gerar resultados fiscais satisfatórios, é baixa a probabilidade de o País perder o grau de investimento em 2016 dessa agência de rating.

Que fatores levaram o Credit Suisse a projetar um resultado primário negativo de 0,2% do PIB em 2015 e estável em 2016?

Os resultados das receitas ficaram menores do que o esperado e as despesas não têm diminuído em termos reais. Há incertezas sobre outras receitas - como, por exemplo, se será possível realizar ainda neste ano a abertura de capital da Caixa Seguridade.

O sr. projeta retração do PIB de 2,4% neste ano e de 0,5% em 2016. Num biênio de recessão e fracos resultados fiscais, o Brasil pode perder no ano que vem o grau de investimento dado pela Standard & Poor’s? 

O importante é avaliar a trajetória da dívida bruta perante o PIB. Seria necessário um superávit primário superior a 2% do PIB, com crescimento da economia entre 2% e 2,5%, para a dívida ficar estável. O mais provável hoje é o Brasil perder o grau de investimento da S&P em 2016.

Por que o sr. avalia que o PIB cairá 0,5% no próximo ano? 

Desde 1996, todos os processos recessivos, exceto o de 2008, foram revertidos pelo setor externo, graças à desvalorização cambial, com recuperação das exportações e redução de salários reais. Será difícil a recuperação ocorrer pelo consumo das famílias. A confiança está baixa, os juros estão altos, a taxa de desemprego está aumentando. As perspectivas não são favoráveis para os investimentos. Os estoques das empresas estão altos, há menor oferta de crédito do BNDES e aumento da Selic. A contribuição do setor externo deve ser de 0,8 ponto porcentual do PIB em 2016. Sem ela, a retração do PIB poderia ficar acima de 1% no ano que vem.

Como o sr. avalia o cenário para investimentos em infraestrutura em 2016? 

Será muito baixa a capacidade do setor de infraestrutura de estimular o crescimento no próximo ano de forma direta. As concessões em infraestrutura muito provavelmente serão aprovadas no fim de 2015 ou durante 2016. O processo de investimento toma tempo.

Por que o sr. estima que o IPCA subirá 6,5% em 2016, depois de uma alta de 9,4% em 2015?

A inflação em 2016 deverá ser menor do que em 2015 porque ocorreram neste ano altas de preços administrados, que devem ser superiores a16%, com quase 40% dessa alta advinda do preço de energia elétrica. Neste ano, a energia deverá subir 53%, mas baixará 5% em 2016. A contração da atividade contribui para a redução da inflação. Em muitos anos, o BC não foi capaz, por várias razões, de entregar a inflação na meta de 4,5%. Quando isso ocorre, a ancoragem de expectativas de inflação começa a ser menos relevante para determinar a inflação atual. A autoridade monetária tem caminhado para recuperar esse processo de ancoragem de expectativas. Com a redução da meta do superávit primário de 1,1% para 0,15% do PIB para este ano, bem como para 2016 e 2017, a política fiscal ficou ainda mais expansionista. E isso está prejudicando o combate à inflação.

Em função da inflação de 6,5% em 2016, o sr. prevê que o BC não terá condições para cortar os juros e deverá mantê-los em 14,25% até o fim do próximo ano.

Caso a realidade vá ao encontro da nossa leitura sobre a inflação, será menos provável que o BC corte os juros até o encerramento do próximo ano. Contudo, se a leitura do Banco Central for confirmada, que a inflação está indo para perto de 5% no terceiro trimestre de 2016 e abaixo de 4,5% em 2017, aumenta a probabilidade de ocorrer redução de juros no segundo semestre do próximo ano.

O que é necessário para que o País volte a crescer e deixe a recessão para trás, especialmente a partir de 2017? 

O governo viabilizar uma pauta favorável de reformas claras, capaz de convencer a sociedade sobre sua importância e necessidade. Essas reformas deveriam ocorrer nas áreas trabalhista, tributária e na Previdência Social.

Mas, com a atual crise política, há perspectiva para que o governo consiga o apoio do Congresso para aprovar tais mudanças até o final do seu mandato, em 2018? 

Com o cenário político atual, é possível atribuir uma probabilidade baixa. Mas essa é a razão de ser necessário o governo federal implementar um esforço para mostrar à sociedade os obstáculos ao crescimento e buscar o seu apoio para as mudanças.

Por que o sr. espera uma oscilação do câmbio de R$ 3,60 no fim de 2015 para R$ 4,00 em dezembro de 2016? 

É uma variação pouco maior de 10% em termos nominais, que significaria uma depreciação real de quase 6% no período, o que não é tão expressivo.

Qual será a influência sobre o câmbio no Brasil com a desvalorização da moeda chinesa ante o dólar e a retomada da alta de juros pelo Fed? 

Esse movimento da China aumenta a probabilidade da expansão menor daquele país. Isso eleva as chances de haver redução da demanda por commodities e tornar os termos de troca mais desfavoráveis aos países exportadores desses produtos, o que seria negativo para o Brasil. No caso dos EUA, o Federal Reserve tende a aumentar os juros nos próximos meses, o que pode pressionar a taxa de câmbio no Brasil. Esperamos que o Fed eleve a taxa em 0,25 ponto porcentual neste ano e mais 1,0 ponto porcentual em 2016, o que será feito de forma escalonada.

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