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'Política para a gasolina trava avanço do etanol'

Para executivo americano, política brasileira para a gasolina inibe novos investimentos no País, o que não ocorreu nos EUA

Entrevista com

EDUARDO MAGOSSI, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2011 | 03h06

Em cinco anos, a produção de etanol nos Estados Unidos passou de 14,7 bilhões para 53,4 bilhões de litros. Nesse mesmo período, a produção brasileira ficou estagnada em torno de 30 bilhões de litros. Além disso, o etanol americano, feito de milho, ganhou competitividade e praticamente igualou os custos de produção com o brasileiro, feito de cana-de-açúcar. O resultado disso é que o Brasil, que durante anos lutou pela derrubada de subsídios americanos para poder exportar etanol para os EUA, agora importa o produto daquele país. Para o presidente da associação dos produtores dos EUA, Robert Dinneen, essa inversão é resultado da política para os combustíveis. Como o mercado é livre nos EUA, o aumento do preço do petróleo e, consequentemente, da gasolina, tornou o etanol mais competitivo, incentivando investimentos no setor. No Brasil, como o preço da gasolina é regulado, os produtores não tiveram tal incentivo, e os investimentos praticamente sumiram depois de 2008.

"Não se verá mais uma demanda adicional aparecendo, nem novos investimentos em etanol no Brasil", afirmou Dinneen, em entrevista por telefone à Agência Estado. Segundo ele, os Estados Unidos têm condições de suprir as necessidades de importação brasileira do produto. Executivos do setor no Brasil, no entanto, afirmam que a importação de etanol dos EUA será um processo pontual, já que as usinas brasileiras voltaram a investir no aumento da produção. A seguir, os principais trechos da entrevista de Dinneen:

Qual o custo de produção do etanol de milho hoje? Ele está competitivo em relação ao etanol de cana do Brasil?

O custo líquido de produção é de cerca de US$ 2,35 por galão, ou US$ 0,62 por litro (1 galão equivale a 3,79 litros). Com o dólar cotado a R$ 1,85, o custo do etanol de milho é semelhante ao do etanol de cana produzido no Centro-Sul do Brasil.

Em 2005, a produção de etanol de milho dos EUA era de 14,7 bilhões de litros, e chegou a 52 bilhões de litros em 2011, ultrapassando até o mandato obrigatório para este ano, de 47,75 bilhões de litros. Além disso, superou em pouco mais de 5 anos a produção brasileira (que deve atingir cerca de 30 bilhões de litros em 2011/12). O que levou a indústria de etanol de milho a crescer de forma tão expressiva? Não há dúvida que as metas de mistura estabelecidas pelo Renewable Fuels Standard (o Padrão de Combustíveis Renováveis dos EUA, que define metas de mistura de etanol na gasolina anualmente, conhecido pela sigla RFS) foi um grande incentivo para o aumento de produção. O RFS prevê meta de 12,6 bilhões de galões (47,75 bilhões de litros) para 2011 e de 15 bilhões de galões (57 bilhões de litros) para 2015. Mas a forte alta do petróleo foi certamente o principal ator dessa expansão, tornando o etanol de milho mais competitivo e elevando a demanda do combustível renovável. No Brasil, onde os preços da gasolina são controlados pelo governo, não haverá o aparecimento dessa demanda adicional.

Então o senhor acredita que os preços congelados da gasolina são um obstáculo para a indústria do etanol de cana do Brasil?

Certamente. Se não fosse o preço da gasolina, mantido artificialmente baixo no Brasil, os preços do etanol iriam variar de acordo com a demanda e encorajariam novos investimentos. Atualmente, o Brasil está precisando até importar etanol dos Estados Unidos...

E os Estados Unidos têm esse etanol extra para atender a essa demanda brasileira?

Sim, hoje temos uma produção acima da demanda obrigatória. Devemos exportar para o Brasil cerca de 945 milhões de litros em 2011, de um total de 3,4 bilhões de litros que vamos exportar também para outros destinos. Em relação ao Brasil, acredito que os EUA poderão sustentar esse nível de exportação nos próximos anos, se os preços forem atraentes. Hoje a Califórnia paga um prêmio para o etanol de cana do Brasil, o que pode criar um padrão regular de negócios, onde o etanol de milho americano é exportado para o Brasil para compensar os volumes de etanol de cana que serão exportados do Brasil para os Estados Unidos, para atender à demanda criada pelos Padrão de Combustível Renovável e do Padrão de Combustíveis de Baixo Carbono da Califórnia. Esses mecanismos preveem a utilização de volumes crescentes de etanol avançado, que polui menos. E o etanol de cana atende as exigências desses mecanismos.

Além do Brasil, que outros países estão precisando de etanol no curto prazo?

A União Europeia continuará a ser o principal destino das exportações de etanol dos EUA, em função da Diretiva de Energia Renovável, que requer que um porcentual do combustível utilizado para transporte na UE seja renovável. O Canadá também tem um programa de combustíveis renováveis. Também estamos vendo demanda de lugares inesperados. Um exemplo são os Emirados Árabes, que estão importando etanol dos EUA pelos últimos dois anos para tender o programa nacional de gasolina oxigenada.

E os Estados Unidos devem investir para elevar a produção e atender a demanda exportadora, como a do Brasil?

Existem poucos projetos de expansão sendo realizados no momento, o crescimento em capacidade de produção é pequeno. Isso porque a capacidade de produção existente está muito próxima do "teto da mistura", ou seja, a produção atual está perto ou acima do nível máximo de etanol que pode ser misturada à gasolina nos Estados Unidos, que é 10% para todos os veículos convencionais. A agência de proteção ambiental do governo, a Epa, recentemente aprovou o uso de mistura de 15% de etanol (E15)em alguns veículos, mas várias questões regulatórias ainda devem ser feitas antes que se espere um uso generalizado do E15.

Os subsídios que o etanol de milho recebe também não foram importantes para a expansão da produção americana?

O subsídio existe para as refinarias que misturam o etanol de milho na gasolina, e não para os produtores de etanol. As refinarias recebem US$ 0,45 por galão. Anualmente, esse subsídio atinge US$ 6 bilhões por ano, mas não chega aos produtores de etanol de milho. De qualquer forma, esse subsídio expira em 31 de dezembro de 2011 e não será renovado. Mas os subsídios não foram os impulsionadores do aumento da demanda por etanol, e sim os preços elevados do petróleo. E foi a maior demanda que incentivou o aumento de produção.

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