coluna

Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

Políticas econômicas e escolhas

As decisões envolvendo as políticas econômicas dos países implicam sempre escolhas. É preciso estabelecer as prioridades e centrar nelas o foco da ação, sem perder a visão estratégica de longo prazo. Trata-se, evidentemente, de algo complexo e que, especialmente durante a crise, determina o diferencial entre os desempenhos.A economia mundial está cada vez mais globalizada, o que significa um bônus quando as coisas vão bem, mas também um ônus quando desandam. Nos dias de hoje não é possível a um país minimamente integrado à economia internacional passar incólume pela crise. No entanto, o desempenho de cada um pode se diferenciar por dois fatores principais: As condições de saída ou a situação dos chamados "fundamentos"; e a eficácia do conjunto das políticas econômicas adotadas.No que se refere ao primeiro quesito, dos "fundamentos", não há dúvida de que a economia brasileira detém, hoje, condições muito melhores do que em fases anteriores. Isso não só no que se refere ao aspecto fiscal, mas também em relação à saúde do setor financeiro e das contas externas.Quanto ao segundo quesito, da escolha e implementação das políticas, ainda há muito por fazer. É preciso maior agilidade para focalizar na prioridade que é combater a recessão "técnica" dada por dois trimestres - quarto de 2008 e primeiro de 2009 - de desempenho negativo do produto interno bruto (PIB). Na recessão todos perdem.Isso vale não apenas para a política monetária (juros e crédito), mas também para as políticas fiscal, cambial e de rendas, que devem ser rapidamente adaptadas para contrapor-se à crise.O Brasil conta com um mercado interno relevante - o décimo maior do mundo - e tem a oportunidade de fomentá-lo para compensar a queda da demanda externa.Os investimentos representam importante antídoto contra a crise, não só pela melhora na competitividade sistêmica da economia, mas também pelo seu efeito multiplicador. A infraestrutura, por exemplo, demanda investimentos anuais da ordem de R$ 100 bilhões para suprir os gargalos em energia, transportes, logística, saneamento, etc., conforme estudo da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). Na habitação, outro setor relevante, há um déficit de 8 milhões de moradias. O desafio é viabilizar e realizar os investimentos necessários.O BNDES realiza regularmente uma sondagem nas empresas para auscultar o clima de intenções de investimentos. Na sua mais recente atualização, já posterior ao início da crise, o banco chegou a um total de investimentos mapeados de R$ 1,3 trilhão para o período 2009-2012. Esse montante representa um incremento de 58% em comparação com o total investido no período 2004-2007. Ver Visão do Desenvolvimento nº 60, de 5 de fevereiro de 2009, no site www.bndes.gov.br.Uma segunda oportunidade é o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), cujo balanço de dois anos de execução acaba de ser divulgado. O PAC abrange um conjunto de projetos de investimentos em infraestrutura energética, de transportes e urbanização e saneamento da ordem de R$ 646 bilhões, no período 2007-2010. Desse total, prevê-se que R$ 130 bilhões, equivalentes a 20% do total, advenham do Orçamento federal e outros R$ 516 bilhões, 80% do total, de empresas públicas e privadas (www.brasil.gov.br/pac).Materializar essas intenções de investimentos é algo que requer eficácia e agilidade de implementação. Há vários pontos relevantes, como a questão do financiamento, mais caro e escasso depois da crise, mas também aspectos operacionais, como resolução de pendências regulatórias, burocráticas e de licenciamento ambiental. Além de incrementar os investimentos públicos, é fundamental criar um ambiente de negócios favorável às inversões do setor privado.Com um pouco de esforço, o Brasil pode transformar muitas das suas debilidades em vantagens competitivas. Ao realizar investimentos para melhora das condições sistêmicas e de qualidade de vida da população, eles também exercem o papel anticíclico, em contraponto à recessão. *Antonio Corrêa de Lacerda, professor doutor da PUC-SP, doutor em economia pela Unicamp, é economista-chefe da Siemens e coautor, entre outros livros, de Economia Brasileira (Saraiva)E-mail: aclacerda@pucsp.br

Antonio Corrêa de Lacerda*, O Estadao de S.Paulo

14 de fevereiro de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.