Políticas flexíveis são melhor aposta durante a crise, diz BID

Governos agora terão de saber dosar essas políticas, já que a duração e o tamanho da atual crise são incomuns

Gustavo Uribe, da Agência Estado,

26 de fevereiro de 2009 | 18h37

Os pacotes de estímulo fiscal para amenizar os efeitos da contração de crédito global têm sido aposta certa para a maior parte dos países. No entanto, um estudo divulgado nesta quinta-feira, 26, pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mostra que nem sempre políticas monetárias e fiscais anticíclicas bastam em tempos de crise. Para o BID, os governos agora terão de saber dosar essas políticas, já que a duração e o tamanho da atual crise são incomuns. A instituição lembra que a maior parte dos países latino-americanos e caribenhos que foram capazes de adotar políticas fiscais e monetárias mais flexíveis durante as crises financeiras mais recentes tiveram posteriormente uma redução do PIB abaixo de 5%, enquanto nações com muito menos flexibilidade apresentaram contrações acima de 10%. Veja também:De olho nos sintomas da crise econômica Dicionário da crise Lições de 29Como o mundo reage à crise De acordo com o economista do BID Alejandro Izquierdo, uma política monetária mais frouxa costuma levar à desvalorização da moeda e a um aumento nas exportações. No entanto, segundo o economista, a desvalorização da moeda, que estimulou as exportações como uma maneira de enfrentar a crise em vários mercados emergentes no passado, pode não funcionar tão bem desta vez devido à recessão global atual, particularmente nas nações ricas. Para ele, a resposta adequada dependerá da natureza e da extensão da crise. "Há uma boa chance de que o acesso a financiamento permaneça caro para mercados emergentes, particularmente em termos dos preços das exportações, e pode até permanecer fechado para alguns países por um tempo significativo", disse Izquierdo. "Como resultado, os governos terão de equilibrar com muito cuidado suas políticas fiscais potencialmente expansionistas com suas necessidades de financiamento atuais e futuras." O estudo do BID também indica que países que pouparam pouco durante tempos de bonança têm um espaço de ação limitado para aumentar os gastos a fim de aliviar os efeitos da recessão global. Qualquer tentativa de ampliar acentuadamente os gastos pode corroer a confiança em sua capacidade de pagar as dívidas no futuro. "Sem boas condições econômicas iniciais, os países têm um raio de ação limitado", avalia Eduardo Cavallo, um dos economistas que participaram do estudo. "Ainda assim, as condições iniciais não selam o destino. Decisões de política adequadas e apoio de organizações multilaterais podem ajudar a aliviar parte dessas limitações." Ainda segundo Cavallo, os países precisam ter um nível razoável de reservas para cobrir os pagamentos de obrigações internacionais e proporcionar financiamento para o comércio. O estudo organizado pelo BID, intitulado "Lidando com uma contração internacional do crédito e respostas de política econômica a paradas bruscas no fluxo de capital externo para a América Latina", examina respostas de políticas que foram bem-sucedidas em crises financeiras passadas e apresenta soluções para a crise que aflige o mundo hoje. A instituição analisou políticas econômicas empregadas por 19 países em desenvolvimento durante crises na década de 1990, período em que o aumento dos spreads (diferença entre o custo de captação do dinheiro e os juros cobrados para emprestá-lo) nas taxas nacionais e as reduções nos fluxos de capital afetaram grupos de países emergentes ao mesmo tempo. Avaliação  Segundo a instituição, a América Latina e o Caribe melhoraram suas condições econômicas desde os anos 90, o que lhes deu algum espaço de manobra, em particular na política monetária, para implementar medidas para enfrentar a crise. "Os países acumularam US$ 400 bilhões em reservas internacionais e reduziram substancialmente o nível de dívida denominada em dólares, principalmente dentro do sistema bancário", avaliou Izquierdo. O estudo também aponta que algumas nações da América Latina serão forçadas a cortar gastos diante da crise atual por terem poupado pouco. Uma média das maiores economias da região - Brasil, México, Argentina, Colômbia, Peru e Venezuela - mostra, por exemplo, que elas gastaram 77% da receita extra proveniente dos ganhos em commodities desde 2002. Diferente delas, o Chile depositou em um fundo especial uma parte considerável da receita tributária e gastou apenas 34% dela, podendo manter os gastos atuais, indica o estudo. Exemplos de respostas  Como exemplo de políticas bem-sucedidas empreendidas em tempos de crise, o estudo aponta o Brasil e o Peru como nações que souberam agir de forma eficaz em situações adversas. No caso do Peru, o país cuja economia era fortemente dolarizada conseguiu em 1998 montar reservas estrangeiras para fornecer financiamento em dólares aos bancos durante a crise e evitar grandes desvalorizações da moeda. Quanto ao Brasil, o país enfrentou uma redução drástica das linhas de crédito para o comércio devido à incerteza dos investidores quanto ao resultado das eleições presidenciais de 2002. O Banco Central usou suas reservas internacionais e realizou leilões de dólares direcionados nos mercados à vista para proporcionar financiamento em moeda forte aos exportadores, aliviando a contração de crédito para um setor que é vital para a economia. "Não existe uma fórmula única para lidar com a crise atual", disse Cavallo. "Embora as condições iniciais muitas vezes não sejam ideais nos países da região, eles podem ampliar seu espaço de manobra por meio de políticas adequadas."

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