Políticos argentinos farão teste de sanidade mental

Passar pelo divã de Freud, fazer teste de urina, submeter-se a eletrocardiograma. Requisitos exigidos para ser contratado por uma empresa? Não. Estes são alguns testes de uma imensa bateria de exames que os candidatos a cargos políticos federais, estaduais e municipais poderiam ser obrigados a fazer antes das próximas eleições.A polêmica idéia é do ex-chefe do gabinete de ministros e atualmente senador Jorge Capitanich, cuja idéia principal é impedir que políticos mentalmente desequilibrados e de saúde debilitada possam ocupar cargos de comando do país.RendaDe quebra, Capitanich - que não é nenhum revolucionário, já que representa setores conservadores do Partido Justicialista (Peronista) - exige que os candidatos apresentem um certificado que comprove que não possuem antecedentes policiais, além de uma declaração dos bens que possui atualmente, e as cinco últimas declarações de renda.Capitanich argumenta que, se estes exames são exigidos para a contratação de funcionário por empresa privada, a classe política deveria passar pelas mesmas exigências. "Quando alguém se candidata ao cargo de piloto de um Boeing, gerente de uma empresa ou secretária tem que apresentar um exame psicofísico. Mas, atualmente, para ser presidente, deputado ou senador, nada."DrogasNo Congresso Nacional, a notícia de que o projeto havia sido encaminhado, causou muitas risadas, mas também um amplo nervosismo. Em declarações às rádios portenhas e aos canais de TV, a população nas ruas apoiou a proposta de Capitanich. Os testes também permitiriam verificar se os políticos consomem alguma espécie de droga.Em meados dos anos 90, o ex-secretário de Combate às Drogas, Alberto Lestelle, causou polêmica ao afirmar que entre uma votação de um projeto e outro, deputados e senadores iam aos banheiros cheirar carreiras de cocaína.Candidato vai sair de show de TVEntre esta segunda e hoje, quase mil pessoas apresentaram-se para participar de El candidato de la gente (O candidato das pessoas), programa de TV que estreará daqui a duas semanas. A modo de reality show, "El candidato" escolherá 16 pré-candidatos - que jamais tenham sido políticos - que disputarão entre si o apoio do canal de TV America 2 para as eleições parlamentares argentinas.O programa é mais um sinal do profundo descrédito sofrido pela classe política argentina tradicional e de que a sociedade procura formas políticas alternativas. Nas eleições parlamentares do ano passado, em diversas províncias, os votos brancos e nulos chegaram a 50%. Os pré-candidatos terão que explicar suas plataformas políticas e serão acompanhados por câmeras de TV, que fiscalizarão sua vida.As câmeras também acompanharão o cumprimento de uma série de provas, basicamente, de serviços sociais. Finalmente, o candidato será escolhido por um júri de jornalistas políticos famosos, além do voto telefônico. O canal de TV criará um partido político para este candidato, que, se for eleito, será rigorosamente vigiado pelas câmeras ao longo de seu período parlamentar de quatro anos.Auto-estima e tangosUm dos candidatos, o psicólogo Raúl Machado, disse que sua plataforma eleitoral terá como principal pilar "o ensino da auto-estima desde o primeiro até o terceiro grau". Ele argumenta que as raízes dos males da Argentina estão nas letras tristes dos tangos. Outros candidatos, mais preocupados com o lado econômico da crise, carregavam pastas grossas, cheias de planos para reativar a economia argentina.O local da primeira seleção foi o pátio do Cabildo, lugar ad hoc para o evento, já que ali, em 1810, começou a revolta que levou à independência da Argentina, seis anos depois. Segundo uma pesquisa do jornal La Nación feita com os candidatos a candidato do reality show, 36% estão entre 35 e 50 anos, 32% estão acima de 50 anos, e 32% entre 25 e 35 anos. Do total, 80% são homens. Um total de 26% autodefinem-se de centro, enquanto 14% de centro-esquerda e 10% de centro-direita. De direita, somente 8%, e de esquerda, menos ainda, 6%. Mas 36% não sentem afinidade por nenhuma dessas posições.DescréditoO descrédito da classe política atual é forte, já que 52% dos participantes do reality show não sentem se identificam com nenhum dos atuais candidatos à presidência da República. A participação em partidos políticos foi uma constante da sociedade argentina do último meio século. O partido Justicialista (Peronista) possui 3 milhões de filiados, enquanto que União Cívica Radical (UCR), 2 milhões.Mas, entre os candidatos de El candidato de la gente, 64% nunca militaram em partido político algum. Para o cientista político Hugo Haime, o programa de TV pode propiciar o surgimento de uma nova classe de lideranças políticas. A analista Graciela Römer discorda e sustenta que o progresso da democracia deve surgir da reforma dos partidos políticos.

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