Polo Industrial de Camaçari está ameaçado

Plantas antigas e falta de competitividade estão obrigando as indústrias química e petroquímica, base do polo, a deixarem a área

TIAGO DÉCIMO / SALVADOR, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2014 | 02h04

Base da formação, há 35 anos, do Polo Industrial de Camaçari, considerado o maior do gênero no Hemisfério Sul, na região metropolitana de Salvador (BA), a indústria química e petroquímica pode estar em via de extinção no local.

Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, a antiguidade das plantas industriais instaladas na região, aliada a fatores que impedem a competitividade das empresas - como logística precária e altos preços das matérias-primas e da energia - vão condenar as indústrias do setor que ainda estão no polo a deixar a área, se não houver mudanças no cenário.

As empresas evitam comentar a situação, mas os seguidos fechamentos de fábricas do setor no polo ilustram a situação. Apenas na última década, a Braskem - maior indústria do setor no local - fechou três de suas oito unidades. Além dela, deixaram o polo ou reduziram bastante a atividade, nos últimos cinco anos, grandes empresas internacionais, como Dow, DuPont, Air Products e Taminco (esta última adquirida em setembro pela Eastman Chemical), entre outras.

Como consequência, o volume de empregos diretos gerados pela indústria química e petroquímica no polo despencou de cerca de 15 mil, no início dos anos 2000, para em torno de 4 mil, hoje, segundo dados do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Química, Petroquímica, Plástica e Farmacêutica do Estado da Bahia.

O ciclo de retração não parece próximo do fim, apesar de alguns novos investimentos feitos nos últimos anos no setor no polo - como o da Basf, que está concluindo a instalação, na área, da primeira fábrica de ácido acrílico, acrilato de butila e polímeros superabsorventes (SAP) da América do Sul, após investimentos de R$ 1,2 bilhão.

Apenas uma empresa de avaliações de plantas e equipamentos industriais, a paulista S4A, concluiu, nos últimos meses, avaliações de quatro unidades industriais de três empresas químicas e petroquímicas interessadas em vender suas instalações no polo. Algumas já oferecem os espaços em leilões internacionais.

"A mudança de perfil do polo é definitiva, é uma questão de tempo para a indústria petroquímica acabar ou ficar muito pequena no lugar", sentencia o diretor comercial da consultoria S4A, Antonio Lopez, responsável pelas avaliações.

Diante da situação, conta o executivo, muitas empresas têm preferido construir novas instalações em outros pontos do País - ou em outros países - e tentar se desfazer dos ativos no polo. "A indústria (petroquímica) se modernizou muito, ficou bastante menos poluente e mais produtiva", diz. "Hoje, produz-se dez vezes mais em 10% da área que era necessária antes. As empresas do setor no Polo de Camaçari estão vivendo momentos difíceis de tomada de decisão."

Conjuntura. Para o Comitê de Fomento Industrial de Camaçari (Cofic), entidade que reúne 60 empresas do polo, porém, a raiz da questão está na conjuntura econômica brasileira. "A indústria química e petroquímica está perdendo peso relativo no polo porque estamos perdendo competitividade internacional", alega o superintendente-geral do Cofic, Mauro Guimarães Pereira. "Há problemas como os enfrentados pela indústria nacional como um todo, como nas áreas de infraestrutura e fiscal, e eles são acrescidos de outros particulares do setor, como o custo da matéria-prima."

O resultado, para ele, é que as empresas do setor têm preferido se transferir para países nos quais os custos de produção são menores. "As grandes indústrias estão indo para países como México, onde o custo da principal matéria-prima (o gás natural) é um terço do praticado no Brasil."

Pereira cita como exemplo a Braskem, que está instalando quatro fábricas no México, ao custo de US$ 3,2 bilhões, para produzir etileno e polietileno para consumo local e para exportação - com foco nos países da América do Sul.

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