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Ponto a favor

Apesar da valorização do real, o desempenho da balança comercial é fortemente positivo e trabalha como principal alavanca no ajuste das contas externas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2016 | 21h00

Se eventualmente os planos de resgate da economia do governo Temer não derem  resultado, não seria por falta de contribuição da balança comercial (exportações menos importações).

Ao contrário, apesar da valorização do real (queda do dólar de 17,9% em 2016, até esta quinta-feira) o desempenho dessa conta é fortemente positivo e trabalha como principal alavanca no ajuste das contas externas (Transações Correntes).

O superávit de agosto, dentro das expectativas, ficou em US$ 4,1 bilhões, o que perfez um saldo positivo de US$ 32,4 bilhões na acumulada dos oito primeiros meses do ano (veja o gráfico). O mercado, auscultado pela Pesquisa Focus, prevê para todo este ano um superávit comercial de US$ 50 bilhões.

A principal causa desse ajuste num momento em que os principais parceiros comerciais enfrentam paradeira na economia e baixa disposição a fazer encomendas tem a ver com sacrifício. Trata-se da redução do consumo nacional induzida pela recessão e pela perda de renda, que reduziu as importações (queda de 25,5% nos oito primeiros meses do ano) e deixou alguma sobra para exportar.

Esse resultado positivo trabalha a favor de uma virada da economia. Mas não se pode deixar de levar em conta que, a partir do momento em que o crescimento voltar, as importações tenderão a aumentar.

Esta crise se diferencia das outras grandes crises da economia brasileira pelo menos em dois pontos: não enfrenta vulnerabilidades no setor bancário e não apresenta fuga de capitais.

A saúde do setor externo, por sua vez, tem a ver não só com a existência de um colchão de US$ 377 bilhões em reservas externas, mas, também, com a forte entrada de dólares de longo prazo (de US$ 65 bilhões a US$ 70 bilhões em Investimento Direto no País em 2016) e com esse excelente desempenho da balança comercial.

Paradoxalmente, o excelente comportamento da área externa do Brasil tende a atrair ainda mais dólares e, portanto, puxar as cotações do câmbio interno para baixo. Essa relativa valorização do real, por sua vez, é um dos fatores que, a mais prazo, tendem a enfraquecer o resultado da balança comercial, na medida em que barateia em reais as importações e encarece em dólares as exportações.

Mas há outro obstáculo para que as exportações possam alavancar o crescimento econômico imediato. O Brasil continua sendo um país fechado e protecionista. As receitas com exportações não pesam mais que 10% do PIB. O único setor altamente competitivo no mercado externo é o agronegócio, que, no entanto, enfrenta agora persistente queda das cotações.

Nos últimos 13 anos, os sucessivos governos do PT não cuidaram de negociar acordos de comércio exterior. Ficaram à espera de que avançassem as negociações da Rodada Doha, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), que afinal emperraram. Enquanto isso, o resto do mundo tratou de fechar negociações bilaterais ou regionais que deram às partes acesso preferencial a seu mercado. Esta é uma área que precisa agora ser destravada para que as exportações possam ter maior papel no crescimento econômico do Brasil.

CONFIRA:

Fundo do poço?

Não deixa de ser um bom indício. As vendas de veículos aumentaram 1,53% em agosto, em relação a julho. Depois do mergulho persistente, esta é boa notícia. Mas convém não tirar conclusões apressadas. De um lado, agosto teve dois dias úteis a mais do que julho e isso pode ter ajudado nas vendas. De outro, agosto foi mês de Jogos Olímpicos, fator que trabalhou na contramão. São razões que pedem cautela nas avaliações. Embora o endividamento do consumidor continue alto e sua disposição para sacar o cartão de crédito continue baixa, dá para sentir que as vendas pararam de cair.

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