População não economicamente ativa intriga especialistas

Especialistas em relações trabalhistas estão intrigados com a alta pontual no número de brasileiros que não estão trabalhando nem tomam uma providência efetiva para trabalhar. Após um crescimento lento até agosto sobre igual mês de 2012, em torno de 0,5%, a chamada População Não Economicamente Ativa (PNEA) aumentou 3,5% em setembro último ante igual mês de 2012 e avançou 3% em outubro, em relação a outubro do ano passado, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

GUSTAVO PORTO, Agencia Estado

25 de novembro de 2013 | 15h01

Só em outubro a PNEA cresceu em 623 mil pessoas, ante igual mês de 2012, para 18,434 milhões. Desse total, 16,724 milhões de pessoas, além de não trabalharem e não procurarem emprego, também não gostariam de trabalhar, uma alta de 4,9% sobre outubro do ano passado. "Nesses últimos dois meses, a gente percebeu um aumento maior dessa população na comparação anual", disse Adriana Beringuy, técnica da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE. "Não há elementos ainda para descobrir o motivo do aumento significativo nos dois meses, que é discrepante."

Segundo ela, um dos fatores que poderiam explicar o crescimento da PNEA seria a alta no desalento, ou seja, no número de pessoas que simplesmente desistiram de procurar emprego após várias tentativas. "Mas esse não é o caso porque de setembro para outubro o desalento caiu de 8 milhões para 3 milhões de pessoas", explicou Adriana. Se não tem uma explicação para a alta pontual, Adriana avalia que o crescimento na PNEA foi maior entre os jovens que ainda estão estudando e entre os idosos.

O professor das Relações do Trabalho da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (USP) José Pastore também considera pontuais as altas na PNEA em setembro e outubro. E também não consegue explicar os motivos. "Quando dá um pico de febre, o médico pede para esperar", comparou. Pastore avalia, no entanto, que, de um modo geral, o crescimento da PNEA "é fruto da melhoria dos programas sociais de transferência de renda do governo e da Previdência Social, que retira pessoas do mercado de trabalho, a maioria muito idosa, além de uma maior escolarização, o que é um ponto positivo", disse.

Rafael Bacciotti, analista da Tendências Consultoria, é outro especialista que não conseguiu chegar a uma conclusão sobre o pico de aumento da PNEA em setembro e outubro. "Mas, pelos dados disponíveis, a principal contribuição para a alta é de pessoas com mais de 50 anos. Os dados não são tão claros, mas são pessoas que possuem algum estímulo para deixar de trabalhar", afirmou.

Já o coordenador da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), Alexandre Loloian, evita fazer uma avaliação do crescimento pontual da PNEA, mas cita o cenário de ampliação na curva de queda no crescimento da População Economicamente Ativa (PEA) em 2013. "Nos últimos anos, a PEA já crescia abaixo da linha de tendência. Em 2013, ela é negativa: em agosto a taxa foi de -1,5% e, em setembro, de -1,2%", disse Loloian.

Como grande parte dessa redução da PEA vira crescimento da PNEA, Loloian avalia que a alta da população não economicamente ativa ocorre inicialmente pela postergação da entrada no mercado de trabalho dos jovens, fruto do crescimento da renda familiar, e ainda está ligada a um fator conjuntural: a disseminação de informações pessimistas da economia.

"Em momentos de redução de crescimento da economia, a disseminação de informação de que empresas não estão admitindo faz com que as pessoas se retraiam naturalmente, deixem de procurar empregos e sigam para a PNEA. O que é curioso porque o cenário no Brasil é de escassez de mão de obra", observou.

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