Popularização da Bovespa depende de cultura, diz professor

O sucesso da campanha de popularização do mercado de ações, promovida pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), esbarra em uma questão delicada, que não depende de legislação, de transparência ou de governança corporativa. "É uma questão de cultura", avalia o advogado Ary Oswaldo Mattos Filho, professor da FGV e ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).Em entrevista à Agência Estado, o especialista disse que, dos 460 títulos da Bovespa, 283 não tiveram qualquer negociação no período de um ano. Os dados refletem, por exemplo, a dificuldade de atrair minoritários para um mercado que exige do investidor conhecimentos complexos e sofisticados. "O trabalhador brasileiro não tem idéia de como funciona o mercado financeiro", diz o professor. Além dessa falta de conhecimento, o ex-presidente da CVM aponta um outro aspecto do fator cultural. Por ter uma cultura de raiz ibérica, o brasileiro prefere a propriedade, a renda fixa, a poupança. Já os anglo-saxões são mais abertos a riscos e investimentos de longo prazo. Isso explica porque a popularização do mercado acionário não se espalha além de Estados Unidos e Inglaterra.Mattos Filho não é contra a idéia de popularização, até porque a capitalização da indústria depende do BNDES, do Banco do Brasil ou de algum incentivo por parte do governo. Mas a verdade, segundo ele, é que a cultura de um povo não se muda rapidamente. "Já vimos esforços anteriores de popularizar o mercado de capitais que não deram certo, como o Fundo 157, os incentivos fiscais, a correção monetária", exemplificou.

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