Feliz Schmitt/The New York Times
Feliz Schmitt/The New York Times

Startup alemã diz que em cinco anos seu táxi voador fará viagens nos EUA

A Lilium, que já recebeu investimentos de mais de US$ 100 milhões, quer ser uma das primeiras empresas a ter aeronaves no mercado; pelo menos 20 companhias desenvolvem esses veículos

Adam Satariano, The New York Times

08 de novembro de 2019 | 11h21

MUNIQUE - Num hangar a 20 minutos do centro de Munique, na Alemanha, Daniel Wiegand levanta a porta de um protótipo do que, segundo ele, será um dos primeiros táxis voadores do mundo. Wiegand não especifica o custo do projeto – “muitos milhões”, resume –, mas garante que em cinco anos uma frota desses táxis estará fazendo viagens de 10 minutos de Manhattan ao Aeroporto Internacional Kennedy, por US 70 (cerca de R$ 280).

Muito está em jogo nessa iniciativa. Wiegand, de 34 anos, é diretor e fundador da Lilium, uma das mais promissoras (e secretas) startups envolvidas na corrida para a construção de uma aeronave totalmente elétrica que transportará - se os órgãos reguladores e a opinião pública concordarem – passageiros acima das cidades.

“É o conceito mais avançado de transporte, um aparelho que poderá decolar e aterrissar em qualquer lugar”, disse Wiegand. “É muito rápido e faz pouco barulho.”

As expectativas de que táxis voadores serão uma realidade nos próximos anos crescem rapidamente. Empresas como a Lilium estão testando suas máquinas e abrindo terreno para discussões visando a conseguir a aprovação de governos.

Pelo menos 20 companhias estão investindo nesse mercado, que a Morgan Stanley estima que chegará a US$ 850 bilhões (R$ 3,5 trilhões) por volta de 2040. Larry Page, o bilionário cofundador do Google, está bancando financeiramente a Kitty Hawk, empresa administrada pelos primeiros engenheiros envolvidos no carro autônomo do Google.

Boeing e Airbus têm projetos em andamento. Fabricantes de carros convencionais, incluindo Daimler, Toyota e Porsche, investem no setor. A Uber está desenvolvendo um serviço aéreo de táxi que planeja inaugurar em 2023 em Los Angeles, Dallas e Melbourne, Austrália.

Entretanto, planejar voar sobre Manhattam em cinco anos não significa que isso ocorrerá nesse prazo. Construir jatos duráveis a um custo razoável ainda é um desafio de tecnologia e engenharia.Haverá também um longo processo para se conseguir a aprovação de órgãos reguladores, entre eles, a Administração Federal de Aviação (FAA), que avaliarão a segurança dos novos táxis voadores.

“A questão é construir um sistema que seja amplamente acessível e não apenas brinquedo para ricos, com aparelhos tão silenciosos que não perturbem as pessoas no solo”, disse Sebastian Thurn, diretor da Kitty Hawk.

A Lilium, que já levantou mais de US$ 100 milhões (mais de R$ 409 milhões) com investidores, ilustra o jogo de cintura exigido das empresas que tentam manter a meta de seu ousado empreendimento.

Com seus 11 metros de envergadura, a aeronave branca e preta exibida por Wiegand está menos para um carro voador dos Jetsons que para um planador. Como muitos outros táxis voadores em desenvolvimento, ela é impulsionada por bateria. Sua autonomia é de 300 quilômetros e pode atingir mais de 300 km/h. Na cabine, oval, terá poltronas e outros confortos para quatro passageiros e o piloto.

Os motores ficam embutidos no interior de quatro asas com flaps, de modo que a aeronave pode decolar e aterrissar verticalmente, como um helicóptero. E, como é mais silenciosa que um helicóptero, ela poderá em tese aterrissar em certas áreas proibidas para aeronaves convencionais.

Os custos dos táxis voadores podem eventualmente cair para algumas centenas de milhares de dólares cada, disse Wiegand. E, como a manutenção será relativamente barata, pois há poucos componentes mecânicos, a corrida num táxi voador sairá mais ou menos pelo que sairia num Uber ou num táxi. Seguradoras também disseram a Wiegand que cobrirão os riscos.

Se forem bem-sucedidos, os táxis voadores vão transformar o transporte urbano, com clientes usando o aplicativo da Lilium para marcar um voo usando uma rede de pequenos aeroportos conectados a subúrbios, cidades universitárias e outros pontos urbanos de destaque. “Imaginem”, disse Wiegand, “táxis voadores conectando áreas através da Califórnia ou do sul da Alemanha que não tenham trens de alta velocidade".

Eric Allison, chefe do projeto de táxis voadores da Uber, disse que os desafios tecnológicos são menos complexos que os enfrentados pelos carros autônomos - há menos tráfego no ar e as primeiras gerações de táxis voadores terão piloto. Ele informou que até agora nenhuma empresa recebeu certificação do governo para voar comercialmente. “Esse é um ponto difícil”, admitiu.

Há ainda muitos outros obstáculos a serem superados. A atual tecnologia das baterias limita o alcance dos veículos. Construir um protótipo é diferente de começar a produção em massa. Os preços das máquinas, e de sua operação, terão de ser suficientemente baixos para permitir que as corridas sejam acessíveis aos clientes.

Órgãos reguladores podem atrasar o desenvolvimento dos projetos limitando o número de decolagens e aterrissagens em rotas cobiçadas. Não há controladores de tráfego aéreo em número suficiente para administrar um grande fluxo de voos através das cidades. E um acidente fatal pode esfriar a demanda.

“Será um teste de poder, de capacidade de arcar com prejuízos e de superar fracassos”, disse Adam Jonas, autor do relatório da Morgan Stanley sobre  setor. “Muitos fracassarão”, prevê.

Concorrentes americanos dizem que sabem pouco sobre a Lilium, além de ela estar contratando executivos experimentados da Rolls-Royce, Airbus e Raytheon para supervisionar áreas como manufatura, controle de qualidade e compras de terceiros.

Mesmo a chanceler alemã, Angela Merkel, física de formação, está intrigada. Numa conferência sobre aviação no ano passado, ela parou no stand da Lilium e fez perguntas a  Wiegand sobre baterias, autonomia de voo e motores.

Wiegand disse que o segredo é necessáraio para impedir que a concorrência descubra muita coisa. Diferentemente de outros aparelhos semelhantes a pequenos drones comerciais, que podem ser comprados em lojas, o avião da Lilium é equipado com 36 motores menores em suas asas rotativas que atuam como propulsores para decolagens, aterrissagens e movimentos sutis para trás e para a frente. Embutir os motores nas asas reduz a fricção e o ruído. “Ninguém tem um aparelho com o desempenho do nosso”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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