Arte/Estadão
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'Pelos meus filhos, eu visto uma armadura de mulher maravilha todos os dias'

Você está acostumado a ler sobre economia nesta coluna. Hoje, excepcionalmente, abro espaço para a história da Tânia*

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

07 Março 2018 | 23h32

Você está acostumado a ler sobre economia nesta coluna. Mas hoje, excepcionalmente, abro espaço para a história da Tânia*, vendedora de 27 anos. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência.  Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

O heptacampeonato brasileiro finalmente chegou para o Corinthians. O time paulista garantiu o sétimo título ao derrotar o Fluminense por 3 a 1 na noite de quarta-feira dia 15 de novembro de 2017. Eu já estava em outra fase da minha vida. Separada há duas semanas, eu ia começar um novo trabalho em poucos dias.

Consegui sair de um relacionamento abusivo. Foram dois anos de agressão verbal, psicológica e física. Estava na minha nova casa. Montei uma piscina de plástico para as crianças no quintal e fiz o almoço.

Mas sabe quando você sente que algo vai acontecer?

Ele bebia muito. E mais ainda nos dias de jogos do seu time. Chegava bêbado e me batia. Há índices que mostram que a agressão aumenta em dias de jogos. Eu falo com toda a franqueza: é verdade. É um catalisador da violência quando misturado com muita bebida. A minha vida tinha que ter outro desfecho.

Mas ele não se conformou com a separação.

Ao longo da tarde, recebi várias ligações com xingamentos e sons de risadas de outras pessoas. Falava coisas sem sentido e que não existiam. Às 9h da noite, as ligações aumentaram. Depois parou. Às duas horas da manhã, porém, bateu na porta de casa.

Abri.

Eu estava com dois dos meus três filhos em casa. A maior, de 12 anos, e o menino, de nove anos. A outra menina, de sete anos, estava na casa da minha mãe – quase ao lado dali.

Ele entrou no quarto, olhou embaixo da cama e revistou outros lugares. Na cabeça dele, tinha alguém na casa, eu estava com outra pessoa, tinha alguém do quintal. De um ano para cá, essas visões eram recorrentes. Via pessoas dentro de casa.

Com medo, fui dormir com as crianças na casa da minha mãe. Eu sabia que ele iria voltar. Logo cedo, às seis horas, ele voltou. Já tinha entrado na casa das vizinhas me procurando.  - O que você está fazendo aqui? Vai para casa, toma um banho. Olha o escândalo – eu disse.

Ele falou para a minha filha: “Daqui a seis horas eu estou voltando. Pode se despedir da sua mãe”.  E foi embora. Foi só a minha mãe sair para a escola onde ela trabalha que ele voltou e entrou dentro da casa com violência.

Corri, pulei a janela, mas ele me alcançou no quintal. Começou me dando um murro. Pegou no meu pescoço para me estrangular. Ia me matar. A minha filha desceu para rua para pedir socorro. Ninguém socorria.

Ele não é alto, mas é muito forte. Minha prima chegou e conseguiu puxá-lo. Caí sentada no chão. Foi nesse momento que ele avançou e mordeu minha orelha. Arrancou ela inteira. Inteira. Depois foi o nariz. Com duas mordidas, eu perdi a orelha e o nariz.

Depois de tudo, saiu correndo. Eu tive forças para recolher os pedaços e colocar num copo com gelo. Mas não serviram para a reconstrução porque o gelo queima a pele. Na orelha, coloquei uma prótese. O meu médico disse que é melhor. Judia menos de mim. No nariz, fiz duas cirurgias e estou partindo para a terceira. Serão nove cirurgias ao todo. Arrancaram um pedaço da minha testa e da bochecha para colocar no nariz.

Ele tomou um chá de sumiço. A polícia está muito empenhada em pegá-lo. Foi uma crueldade sem tamanho. Não durmo bem. É tudo muito recente. Estou passando por tratamento psicológico e as crianças também. A mensagem que eu passo é que as mulheres não se calem e que na primeira agressão separem. Porque isso vai continuar. Não vai melhorar. Eles se fazem de vítima, choram, pedem perdão, mas fazem tudo de novo. A gente casa querendo uma família. Ninguém casa querendo a morte.

Deus me deu uma nova chance. Uma nova vida. Eu quero que ele pague e não faça mais isso. A lei é falha. Mas se eu pensar assim, ficarei muito pior. Eu tenho que pensar que a Justiça será feita. Eu tenho que ficar bem. Tudo isso mexeu muito com os meus filhos. Por eles, eu visto uma armadura de mulher maravilha todos os dias. Mas à noite, sozinha, no meu quarto eu choro.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima.

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