'Por favor, não exijam a redução do consumo', pede Lula

Presidente quer união do mundo em desenvolvimento contra as 'alternativas ultrapassadas' dos desenvolvidos

Denise Chrispim Marin, enviada especial do Estado,

12 de julho de 2008 | 11h43

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva instigou a união do mundo em desenvolvimento contra as "alternativas ultrapassadas" apresentadas pelo mundo desenvolvido nas últimas décadas. Em viagem oficial à Indonésia, Lula apelou neste sábado, 12, aos países mais industrializados que, "por favor", não exijam a redução do consumo e, portanto, do crescimento econômico das Nações em desenvolvimento. Em seguida, defendeu que a resposta à crise gerada pelo aumento dos preços internacionais dos alimentos deve vir do justamente mundo desenvolvido, na forma da eliminação de subsídios distorcidos ao comércio internacional e da abertura do mercado desse setor na União Européia. Tratam-se dos principais temas em negociação no capítulo agrícola da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC).   Veja também:  Lula fala de biocombustíveis em visita oficial à Indonésia  Brasil e Indonésia fecham acordo de cooperação em biocombustível   "Por favor, não peçam para os países em desenvolvimento não crescerem. Nós temos o direito de crescer e de melhorar as condições de vida da nossa população. "Não podemos aceitar que os pobres do mundo comam menos. Se nos pedirem para aumentar a produção, podemos atendê-los porque temos as condições", declarou Lula, ao lado do presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, no Palácio Merdeka.   "No momento em que assistimos aos sinais de crise financeira nos países desenvolvidos e em que setores defendem o protecionismo, precisamos abandonar uma lógica ultrapassada de dependência exclusiva em relação aos países do Norte", completou três horas depois, em discurso do encerramento do Encontro Empresarial Brasil-Indonésia.   A declaração de Lula no palácio presidencial indonésio apontou uma depuração em relação a suas falas nas últimas duas semanas. Ensaiou o mesmo discurso na reunião de Cúpula do Mercosul, na Argentina, no início do mês, e o expressou no último dia 9, na ilha japonesa de Hokkaido, durante o encontro do grupo das economias mais ricas e a Rússia, o G8, com o G5 - África do Sul, Brasil, China, Índia e México. Nas ocasiões anteriores, entretanto, o presidente brasileiro não chegara a ser tão enfático na sua tese de confrontação do mundo em desenvolvimento contra as receitas econômicas dos países mais ricos para as crises que engendra. Preferira antes atacar as imposições de organismos como o Fundo Monetário Internacional (FMI).   Em sua argumentação, os países em desenvolvimento devem assimilar a crise alimentar que se avizinha como uma "grande oportunidade" para diversificarem suas relações externas. Países importadores líquidos de alimentos, em seu ponto de vista, deveriam aproveitar o conhecimento tecnológico e as experiências bem sucedidas dos aliados do Hemisfério Sul no setor agrícola. No caso da Indonésia, propôs a celebração de uma parceria estratégica com o Brasil durante a visita do presidente Susilo a Brasília, em novembro, e instigou os empresários dos dois países a incrementarem os fluxos de investimento e de comércio bilateral. O presidente Susilo correspondeu ao chamado e afirmou que pretende, com a cooperação brasileira, aumentar a produção de alimentos.   "Temos a solução, sol, água e tecnologia e, graças a Deus, os pobres do mundo começaram a comer três vezes ao dia, o que vai exigir maior produção agrícola. Portanto, o que para uns é uma crise, para nós é oportunidade", afirmou Lula.   Terceira maior população da Ásia, a Indonésia foi escolhida para fechar essa segunda jornada do presidente Lula pelo continente. Em sua primeira iniciativa, visitara a Coréia do Sul e o Japão, em 2005. Desta vez, entretanto, o próprio Lula destacou que, com essa passagem por Jacarta, encerrava a primeira etapa da estratégia de seu governo de impulsionar uma mudança na geografia comercial do mundo. Essa estratégia levou Lula a buscar, nos últimos cinco anos, parcerias estratégicas com países como a China, a Índia, a África do Sul, a estimular alianças da América do Sul com o mundo árabe e a África e a alimentar especialmente na integração sul-americana. Em agosto próximo, Lula deverá visitar Pequim, para a abertura dos Jogos Olímpicos, e visitar Cingapura.   Subprime   Lula aproveitou seu discurso, no Palácio Merdeka, para queixar-se novamente do comportamento dos agentes financeiros e dos governos dos países desenvolvidos, que não reclamaram dos prejuízos acumulados com a crise gerada no mercado imobiliário americano, o subprime, nem se mostraram dispostos a debater suas razões. Uma vez mais, defendeu que o G8 e o G5 discutam a elevação dos preços internacionais dos alimentos com base em números com credibilidade. "Ninguém coloca a culpa na especulação, em especial nos mercados futuros", reclamou.   O presidente enumerou três pontos que, em sua avaliação, devem ser considerados nesse possível debate. O primeiro seria descartar a produção de biocombustíveis como a razão da redução na oferta mundial por alimentos. O segundo, eliminar a justificativa de que o aumento do consumo na China seria o responsável pelo desequilíbrio nesse mercado. O terceiro, aceitar que um "bom acordo da Rodada Doha pode resolver o problema dos alimentos".

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