Douglas Gavras/Estadão
Douglas Gavras/Estadão

'Por ora não falta carne, só faltam clientes'

Consumidor se assusta com preço do produto e apela à Black Friday no açougue e no mercado

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2019 | 04h00
Atualizado 30 de novembro de 2019 | 21h13

Comparar preços, repensar o cardápio e esperar a Black Friday para tentar economizar em itens secundários do churrasco de domingo. Os preços recordes da carne bovina em todo o País têm feito o consumidor se espantar e suar a camisa em busca de promoções. 

O aumento não é pequeno: de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a arroba do boi gordo no Estado de São Paulo teve alta real, já descontada a inflação, de 35% em um mês – chegando a R$ 231 na última quarta-feira. É o maior valor da série histórica, iniciada em 1994.

Em entrevista ao Estado, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse ontem que a alta das exportações para a China pesou na valorização da carne em todo o País, além da falta de reajustes nos preços dos produtos nos últimos três anos.

“Mas não é só chinês que gosta de carne, não. A gente, aqui, come também”, reclama a bancária aposentada Rita de Cássia Lima, de 56 anos, enquanto espera para ser atendida em um açougue de Santa Cecília, região central de São Paulo. “Você já viu o preço? Na minha casa, dia de semana voltou a ser dia de comer frango.”

O atendente do estabelecimento explica que os preços estão altos assim mesmo em todos os lugares. “Por enquanto não falta carne, só faltam clientes mesmo”, resume. 

Sem tanta margem quanto as grandes redes varejistas para segurar preços, os comércios de pequeno porte são os que mais repassaram preços até agora. 

A reportagem visitou sete estabelecimentos, entre supermercados de grande porte e pequenos açougues de São Paulo, nesta sexta-feira e a conclusão do consumidor é sempre a mesma: a carne não está cabendo no orçamento doméstico.

Na casa do vigilante Eduardo Rocha, de 33 anos, todo mundo vai voltar a gostar de linguiça. “Tem lugar vendendo o quilo da alcatra por R$ 50 e o de músculo por mais de R$ 30. Como é que pode?”

Estratégias

Garimpar preços em diferentes lugares vale a pena e é rotina obrigatória agora para o consumidor. Na manhã de ontem, a reportagem viu, no mesmo bairro o quilo dos mesmos cortes com diferenças de preço de até 50%. 

O médico Gabriel José dos Santos, de 30 anos, tem conseguido fugir dos aumentos. Ele não sai para fazer compras sem usar aplicativos de desconto. “Eu uso o app sempre. Comprei frango e músculo hoje e consegui economizar R$ 25, quase 40%. Não dá para sair comprando por aí, no primeiro lugar.”

“Aqui até que nem está tão caro assim”, comemora a empregada doméstica Naira Costa, de 46 anos, em um supermercado na Consolação. O quilo da picanha, ela comprou por R$ 65,99; o do acém, por R$ 24,99. 

Só que, diferentemente dos anos anteriores, as carnes sumiram dos folhetos de ofertas dos supermercados na Black Friday, repara a consumidora. “Pelo menos tem desconto no carvão e na cerveja e vai dar para manter o churrasco de domingo.” 

Naira e outros consumidores aproveitaram o dia de promoções do comércio em todo em País ontem assim: mesmo nos supermercados em que os descontos não chegaram às carnes, os clientes tentavam economizar no restante da compra. 

Apesar das queixas do consumidor, segundo o presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas), Ronaldo dos Santos, o varejo ainda não repassou todo o aumento de valor. “Se o preço do boi continuar nesse patamar na semana que vem, no entanto, o comerciante não vai mais conseguir segurar todo o aumento dos preços, e a tendência é que o cliente acabe mesmo tendo de optar por outros tipo de proteína.

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