Getty Images
Getty Images

Por que a África está se tornando menos dependente das commodities

Governos da região já sabem lidar melhor com os ciclos de baixa das commodities e se esforçam para tornar mais fácil a vida dos investidores

Economist.com

12 de janeiro de 2015 | 14h50


Durante décadas, as commodities determinaram o rumo do crescimento econômico na África. Quando os preços estiveram em alta, o crescimento foi bom; quando os preços caíram, o mesmo ocorreu com o continente. Mas isso está mudando aos poucos. Apesar da grande queda no preço das commodities este ano - o petróleo teve queda de 50% - o continente vai provavelmente ter crescimento de 5% em 2015 (e mais nos anos seguintes). Embora muitas moedas africanas tenham sofrido desvalorização em 2014, seu desempenho foi muito superior ao de outros nos quais também se observou uma queda no preço das commodities. Poucos países africanos terão recessão em 2015 - diferentemente de outros exportadores de commodities como Rússia e Venezuela. Por que a África apresenta um desempenho superior ao esperado por muitos?

Duas razões chamam a atenção. Primeiro, o crescimento econômico do continente está vindo de outros setores. Os governos trabalharam duro para tornar a vida mais fácil para os investidores. O relatório anual Doing Business, do Banco Mundial, revelou que em 2013 e 2014 a África Subsaariana fez mais melhorias regulatórias do que qualquer outra região. Maurício está na 28.a posição da classificação do banco de melhores países para fazer negócios. Ruanda, que 20 anos atrás estava mergulhada numa guerra civil, é hoje um país mais receptivo aos investidores do que a Itália. Quando os gestores de dinheiro acreditam que seu tempo não será desperdiçado nem seus recursos serão roubados, eles investem. 

Depois de duas décadas de estagnação, o total de investimentos na África enquanto parcela do PIB aumentou a partir de 2000. O investimento estrangeiro na África aumentou para 5% em 2012 e 10% em 2013. Investidores estrangeiros estão se interessando mais pelos setores das economias africanas que não estão ligados aos recursos: um terço do investimento estrangeiro intra-africano é em serviços financeiros. Os frutos desse investimento começam a brotar: a Nigéria, maior economia do continente, teve crescimento expressivo nos anos mais recentes, que decorreu não do petróleo mas de setores como os serviços financeiros. Se o crescimento econômico da África vier de fontes diferentes da extração de recursos, o continente ficará menos à mercê dos mercados de commodities.

Segundo, muitos governos africanos aprenderam a administrar melhor os inevitáveis ciclos de prosperidade e quebra dos mercados de commodities. Pouco mais de uma década atrás, quase todos os governos africanos gastavam livremente quando a economia ia bem, mas continham os gastos quando as coisas esfriavam. Isso é exatamente o que a maioria dos economistas recomendaria aos ministros das finanças que não fosse feito; a maioria diz que o governo deve aumentar os gastos nos momentos de declínio. Mas, de acordo com Carlos Vegh, da Universidade Johns Hopkins, nos anos mais recentes a política fiscal de muitos países africanas se tornou mais sensata. Hoje em dia uma proporção substancial das economias africanas poupa dinheiro nos momentos de prosperidade, gastando nos momentos de baixa atividade econômica. Como resultado, uma queda no preço das commodities não precisa causar uma recessão: o governo pode absorver parte da folga econômica.

Ainda há um longo caminho a ser percorrido. A África está longe de ser um eixo econômico de destaque mundial; há imensos bolsões de pobreza abjeta e o continente ainda é o que mais depende da exportação de commodities. Mas, gradualmente, esse quadro começa a ser revertido. Apesar do agito nos mercados de commodities, a África continua sendo uma das regiões de crescimento mais rápido. Com mais investimentos e novas reformas regulatórias, o continente pode escapar de vez dessa sina.

© 2015 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados.

Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    theeconomist

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.