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Por que a felicidade?

Mercado está indiferente a Alckmin, mal das pernas nas pesquisas

Fernando Dantas *, O Estado de S.Paulo

09 Março 2018 | 05h00

Aproximadamente nesta época do ano em 2006, Geraldo Alckmin, então governador de São Paulo, tinha uma avaliação de ótimo e bom de quase 70% dos paulistas, o dobro do seu nível mais recente exercendo o mesmo cargo. Os que achavam naquela época que Alckmin era ruim ou péssimo eram uma quarta parte dos cerca de 25% que o julgam assim nas últimas pesquisas divulgadas.

Em termos de intenção de voto para a disputa presidencial, Alckmin apresentava cerca de 20% nesta mesma época de 2006, e agora tem de 6,5% a 9,0%, dependendo de Lula estar na pesquisa ou não.

Um experiente gestor de recursos desabafa a sua perplexidade: por que o mercado financeiro, na atual maré positiva, está tão indiferente às pesquisas eleitorais que mostram Alckmin, o seu candidato preferido, tão mal das pernas?

Há várias possíveis explicações. A primeira é que, com Lula fora da parada, todos os outros candidatos exibem debilidades flagrantes. Bolsonaro desponta como líder indiscutível no cenário sem Lula, mas tudo indica que o seu tempo de TV será minúsculo (para não falar do seu extremismo, temperamento, etc.)

Ciro Gomes e Marina, presidenciáveis da velha-guarda, não empolgaram até agora, assim como os possíveis substitutos de Lula no PT. O “outsider” Luciano Huck saiu de campo antes de o jogo começar. Meirelles, Temer e Rodrigo Maia permanecem em torno do nível irrisório de 1,0% das intenções de voto.

Alckmin tem condições de montar uma coalizão reunindo PSDB, diversos partidos do Centrão e talvez até o MDB, e abocanhar uma grande fatia do tempo de TV e do fundo partidário. Diante de adversários fragilizados, essa estrutura eleitoral superior seria um trunfo decisivo do tucano.

Mas há indicações de que o eleitorado brasileiro, assim como em outras democracias, está farto do establishment político com seus vícios e corrupção. Não dá para descartar que Bolsonaro (apesar de seus pecados corporativistas) ou alguma outra carta fora do baralho use o poder da internet para conquistar os eleitores e pulverizar a vantagem de tempo de TV e fundo partidário de Alckmin.

Do ponto de vista do mercado financeiro, entretanto, mais do que a vitória de Alckmin, o que importa é que o próximo presidente dê continuidade à agenda ortodoxa e liberal do atual governo. Já há até quem veja com bons olhos uma eventual vitória de Bolsonaro, agora que o candidato, ferozmente estatista até recentemente, tem como tutor Paulo Guedes, economista ultraliberal.

Marina é vista como uma política que combinaria liberalismo na economia com sua agenda ambiental. Já Ciro, apesar do passado centrista (foi ministro da Fazenda na implantação do Plano Real), guinou à esquerda e assusta pela possibilidade de que queira baixar juros (ou mantê-los baixos) “na marra”.

Do ponto de vista dos interesses do mercado, não basta que o vencedor seja vagamente simpático ao liberalismo na economia. A agenda do novo governo, se for por esse caminho, será pesadíssima: reforma da Previdência, cortes de gastos sociais e subsídios para cumprir o teto constitucional dos gastos, redução ou eliminação dos aumentos reais do salário mínimo na nova lei a ser aprovada em 2019 – apenas para começar.

Marina ou Bolsonaro, ambos sem base no Congresso, com defeitos inversos de, respectivamente, passividade e destempero, terão condições de exercer a liderança ao mesmo tempo agregadora, firme e respeitada para tocar mudanças tão profundas e tão duras na largada?

Dessa forma, a ideia de que tudo está correndo bem para a eleição de Alckmin ou de um candidato igualmente centrista e reformador parece mais sonho do que realidade. Talvez a eleição ainda esteja muito longe para o tempo dos operadores, e por essa razão a maré de otimismo prossiga. Mas em breve não deve mais ser possível ignorar a enorme incerteza eleitoral que paira sobre a economia brasileira.

 

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