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Por que a Índia representa um risco maior do que a China

Com grande déficit da conta corrente e necessidade de financiamento externo, a Índia está mais exposta às dificuldades dos mercados

É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE YALE, DIRETOR DO MORGAN STANLEY ASIA, STEPHEN S., ROACH, PROJECT SYNDICATE, É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE YALE, DIRETOR DO MORGAN STANLEY ASIA, STEPHEN S., ROACH, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2011 | 03h06

Artigo

Neste momento, crescem os temores de que China e Índia estejam prestes a se tornar as próximas vítimas da atual carnificina econômica global. Se isso acontecer, as consequências serão extremamente graves. As economias em desenvolvimento recém industrializadas da Ásia registraram expansão a uma média anual de 8,5% no período 2010-11 - cerca do triplo do crescimento de 3% registrado em outros países do mundo. Se China e Índia forem as próximas a cair, a Ásia estará ameaçada, e será difícil evitar uma recessão global.

Em certo sentido, estas preocupações são compreensíveis: ambas as economias dependem em grande parte do contexto global. A China é sensível aos riscos de queda da demanda externa - hoje mais relevante do que nunca porque, em 2010, Europa e Estados Unidos representaram em conjunto 38% do total das exportações. Mas a Índia, com seu grande déficit da conta corrente e necessidades de financiamento externo, está mais exposta às dificuldades dos mercados financeiros globais.

Entretanto, os temores de um "pouso difícil" para ambas economias são exagerados. De fato, a China está pagando um preço considerável pelo estímulo econômico agressivo adotado nos piores momentos da crise dos empréstimos subprime. O sistema bancário financiou a maior parte dos gastos adicionais e, por isso, está exposto a toda deterioração da qualidade do crédito que possa ter decorrido desses esforços. Teme-se também por causa dos mercados imobiliários inconsistentes e pela inflação crescente.

Embora nenhum desses problemas deva ser menosprezado, é improvável que venham a provocar um pouso difícil. Há muito tempo preocupados com a estabilidade, os responsáveis pela economia chinesa tomaram rapidamente medidas preventivas.

Isso é particularmente evidente na campanha bem-sucedida das autoridades chinesas contra a inflação. Medidas administrativas no setor agrícola conseguiram baixar a inflação dos preços dos alimentos. Ao mesmo tempo, o Banco Popular da China, que elevou cinco vezes a taxa de juros de referência por um ano, nos 12 meses encerrados em outubro, para 6,5%, agora tem amplo espaço de manobra para a flexibilização das condições monetárias caso o contexto econômico se agrave. Déficits fiscais relativamente pequenos - somente em torno de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010 - proporcionarão à China uma maior flexibilidade.

Mas a China não se manteve passiva diante dos crescentes excessos especulativos no mercado de imóveis residenciais. Em abril de 2010, o governo implementou rigorosas normas, elevou os pagamentos dos sinais de 20% para 30% para a primeira casa, para 50% para a segunda casa, e 100% para as compras de três ou mais unidades. Essa estratégia parece estar funcionando.

É um grande exagero afirmar, como muitos hoje em dia, que a economia chinesa é uma enorme bolha imobiliária. De fato, o total dos investimentos fixos está se aproximando de 50% do PIB, uma porcentagem sem precedentes, mas os imóveis residenciais e não residenciais, em seu conjunto, representam apenas de 15% a 20% desse total - não mais que 10% da economia como um todo.

Quanto aos bancos chineses, o principal problema parece ser a exposição ao crescente endividamento dos governos municipais que, de acordo com o governo, chegou ao total de US$ 1,7 trilhão (cerca de 30% do PIB) no fim de 2010.

Parte das novas dívidas pode perfeitamente ser desvalorizada. A urbanização em andamento - cerca de 15 ou 20 milhões de pessoas se mudam para as cidades a cada ano - oferece amplo apoio, do lado da demanda, aos investimentos no desenvolvimento de infraestrutura e da construção residencial e comercial. Isso ameniza o risco envolvido na qualidade dos empréstimos e, somado à relativamente baixa proporção entre empréstimos e depósitos (65%), deve funcionar como um amortecedor para o sistema bancário chinês.

A Índia é um caso mais problemático. Sendo a única economia da Ásia apresentando um déficit na conta corrente, seus problemas de financiamento externo não podem ser tratados com descaso. Como ocorre com a China, o impulso econômico da Índia está perdendo força. Mas, diferentemente da China, o declínio indiano é mais acentuado - o crescimento do PIB ficou abaixo do limiar dos 7% no terceiro trimestre de 2011, e a produção industrial anual chegou a cair 5,1% em outubro.

Mas o verdadeiro problema é que, em comparação à China, as autoridades indianas contam com uma margem de manobra muito menor na política econômica. Para começar, o valor da rupia está praticamente em queda livre. Isso significa que o Reserve Bank of India - que elevou os juros em 13 ocasiões desde o início de 2010 - não pode se dar o luxo de afrouxar a política monetária. Além disso, um desproporcional déficit orçamentário consolidado do governo equivalente a cerca de 9% do PIB limita a liberdade da Índia na política fiscal.

Embora a China esteja em situação melhor do que a Índia, nenhuma das duas economias deve implodir por conta própria.

Uma possibilidade óbvia hoje seria um caótico esfacelamento da União Monetária Europeia. Nesse caso, Índia e China - e a maioria das economias do mundo - enfrentariam sérias dificuldades, com uma imediata contração nas exportações chinesas e o aumento das pressões associadas ao financiamento externo na Índia.

Apesar de ainda ser um eurocético, acredito que a vontade política necessária para fazer avançar a integração europeia vai prevalecer. Seduzido pela economia política da falsa prosperidade, o Ocidente desperdiçou seu poder. Impulsionada pela estratégia e pela estabilidade, a Ásia se valeu de sua força recém descoberta. Mas, agora, o continente precisa se reinventar. No mundo desenvolvido, uma estagnação semelhante à vista no Japão desafia a Ásia a mudar o foco para a demanda interna. As pressões que agora afetam Índia e China sublinham esse desafio. Para a Ásia, é possível que esteja próximo o momento de definição.

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