Emile Ducke/The New York Times
Emile Ducke/The New York Times

Covid-19

Bill Gates tem um plano para levar a cura do coronavírus ao mundo todo

Por que a recessão global poderá durar um longo tempo

Agora, crescem os temores de que a crise possa ser muito mais devastadora e duradoura do que se temia de início

Peter S. Goodman, The New York Times  

02 de abril de 2020 | 10h38

LONDRES – É quase certo que o mundo está emaranhado em uma recessão devastadora provocada pela pandemia do coronavírus

Agora, crescem os temores de que a crise possa ser muito mais devastadora e duradoura do que se temia de início – estendendo-se talvez até o próximo ano, e mesmo depois -, enquanto os governos intensificam as restrições às empresas no intuito de deter o avanço da pandemia. Ao mesmo tempo, o medo do vírus reconfigura o próprio conceito de espaço público, impedindo o crescimento econômico possibilitado pelo consumo.

A pandemia, acima de tudo, é uma emergência de saúde pública. Enquanto a interação humana continuar representando um perigo, as empresas não poderão de maneira responsável voltar ao normal. E o que antes era normal não existirá mais. Talvez, as pessoas estejam menos dispostas a ingressar na aglomeração dos restaurantes e das casas de espetáculo, mesmo depois que o vírus for contido. 

Por outro lado, a parada abrupta das atividades comerciais ameaça impor um sofrimento econômico tão profundo e persistente em todas as regiões do mundo que a recuperação poderá levar anos.

Os prejuízos para o setor privado, já saturado pelo endividamento, ameaçam desencadear uma crise financeira de proporções cataclísmicas.

“Tenho a sensação de que a crise financeira de 2008 foi apenas um prenúncio desta”,  afirmou Kenneth S. Rogoff, economista de Harvard e coautor de um livro sobre as crises financeiras intitulado “Oito Séculos de Delírios Financeiros: Desta Vez é Diferente”. 

“Isto já está se configurando como o declínio mais profundo da economia global já registrado, em mais de 100 anos,” ele disse. “Tudo depende de quanto tempo irá durar, mas se se prolongar de maneira considerável, certamente será a mãe de todas as crises financeiras”.

A situação parece particularmente desastrosa nos países em desenvolvimento, que, neste ano, viram os investimentos sumirem, provocando desvalorizações enormes das moedas, obrigando as pessoas a pagarem mais por alimentos e combustíveis importados e ameaçando os governos de insolvência – tudo isso enquanto a pandemia, por sua vez, ameaça devastar os sistemas de saúde inadequados.

Entre os investidores, o cenário é de certa esperança: A recessão será dolorosa, mas de breve duração, e dará lugar a uma recuperação robusta este ano. A economia global se encontra em um congelamento profundo, porém temporário, segundo esta lógica. Assim que o vírus for contido, permitindo que as pessoas retornem aos escritórios e aos shopping centers, a vida voltará imediatamente ao normal. Os aviões se encherão de famílias partindo para as férias apenas adiadas. As fábricas voltarão a produzir, atendendo às encomendas contidas.

Mas, mesmo depois que o vírus for domado – e ninguém na realidade sabe quando isso acontecerá –, o mundo que sairá dessa experiência provavelmente estará repleto de graves  que desafiarão a recuperação. O desemprego em massa tem custos sociais. As falências numerosas poderão deixar a indústria em condições debilitadas, sem investimentos e sem inovação.

As famílias poderão continuar agitadas e avessas ao risco, e mais dispostas a poupar. Algumas medidas de distanciamento social poderão permanecer em vigor indefinidamente. Os gastos do consumidor representam cerca de dois terços da atividade econômica mundial. Se a ansiedade continuar e as pessoas relutarem a gastar, a expansão será limitada – principalmente porque a vigilância constante contra o coronavírus poderá se tornar necessária por vários anos.

“A psicologia voltará a ser levada em conta”, disse Charles Dumas, economista-chefe da TS Lombard, uma empresa de pesquisa de investimentos de Londres. “As pessoas sofreram um choque real. A recuperação será lenta e determinados padrões de comportamento deverão mudar, se não para sempre, pelo menos por um bom tempo.”

A alta dos preços das ações nos Estados Unidos, nos últimos tempos, impulsionou os gastos. Milhões de pessoas estão agora buscando os benefícios pagos aos desempregados, enquanto famílias mais ricas estão absorvendo a realidade de uma redução substancial da poupança destinada à aposentadoria.

Os americanos aumentaram significativamente suas taxas de poupança nos anos depois da Grande Depressão.  O medo e o crédito dificultado limitaram a dependência de empréstimos, e isso poderá voltar a acontecer.

“A perda da renda com o trabalho é tremenda”, disse Dumas. “A perda do ‘efeito riqueza’ é também muito significativa.”

Quando a pandemia começou, inicialmente na China central, foi considerada uma grave ameaça à sua economia. Enquanto a China se fechava em si mesma, acreditava-se que, na pior das hipóteses, grandes companhias internacionais, como a Apple e a General Motors, sofreriam a perda das vendas aos consumidores chineses, enquanto as fabricantes de outros países tratariam de garantir para si as peças produzidas nas fábricas chinesas.

Mas daí a pandemia se alastrou até a Itália e em seguida por toda a Europa, ameaçando as fábricas do continente. Vieram as medidas adotadas pelos governos que em essência fecharam a vida moderna, os negócios inclusive, enquanto o vírus chegava aos Estados Unidos.

“Agora, onde quer que olhemos na economia global, vemos o golpe sofrido pela demanda interna, além dos impactos àquelas cadeias de suprimentos”, disse Innes McFee, diretor gerente de macro e serviços de investimentos da Oxford Economics em Londres. “É algo incrivelmente preocupante.”

A Oxford Economics calcula que, este ano, a economia global sofrerá uma contração marginal, para depois melhorar por volta de junho. Mas esta opinião deverá ser drasticamente revista para baixo, segundo McFee.

Trilhões de dólares em créditos e garantias de empréstimos concedidos pelos bancos centrais e pelos governos nos EUA e na Europa talvez tenham protegido temporariamente as economias mais desenvolvidas. Isto poderá impedir que um grande número de empresas entre em colapso, afirmam os economistas, garantindo ao mesmo tempo que os trabalhadores que perdem seu emprego possam manter-se em dia com as suas contas.

“Eu acho que esta é uma crise temporária,” afirmou Marie Owens Thomsen, economista chefe global da Indosuez Wealth Management, em Genebra. “Aperta-se a tecla do ‘pause’, e depois a  do ‘start’, e a máquina volta a funcionar.”

No mundo todo, os investimentos estrangeiros diretos deverão declinar 40% este ano, segundo a Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento. O que ameaça “com prejuízos duradouros às redes de produção global e as cadeias de suprimentos”, afirmou o diretor de investimentos e empreendimentos do organismo, James Zhan.

“Provavelmente, levará dois ou três anos para a maior parte das economias retornar aos seus níveis de produção anteriores à pandemia”, afirmou a IHS Markit em uma recente nota da pesquisa. 

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