Por que as mulheres ganham menos quando subordinadas a homens

Por que as mulheres ganham menos quando subordinadas a homens

Dados dos Estados Unidos mostram que as mulheres ganham, em média, 20% menos que os homens; chefe ser do sexo masculino acentua o quadro

Ana Swanson, The Washington Post

20 de novembro de 2014 | 16h32


WASHINGTON - Depois de estagnar em meados dos anos 1990, o progresso na superação da diferença salarial entre homens e mulheres nos Estados Unidos basicamente parou na década passada. Os dados mais recentes mostram que as mulheres ganham, em média, 20% menos do que os homens.

Alguns citam a discriminação, o tempo que as mulheres precisam dedicar à gravidez ou ao cuidado com a família, ou a relutância delas em negociar um salário melhor. Outros dizem que as mulheres escolhem elas mesmas empregos que pagam menos, ou seriam por algum motivo menos produtivas ou competitivas no ambiente de trabalho.

Um novo estudo dos professores canadenses David Newton e Mikhail Simutin traz uma nova perspectiva para a persistência dessa diferença. O estudo defende que não importa apenas o gênero do trabalhador, mas também o gênero da pessoa que paga o salário. O estudo mostra que a diferença salarial é consideravelmente maior quando os homens são chefes das mulheres. E os homens seguem dominando a hierarquia corporativa, onde a definição dos salários pode ser mais importante.

Valendo-se de um conjunto de dados de mais de 23 mil diretores executivos e outros cargos corporativos num período de 16 anos, o estudo mostrou que, em comparação aos homens, as executivas recebiam em média US$ 2.960 a menos em compensação anual. Mas as executivas que trabalham para diretores executivos recebiam em média US$ 46.500 a menos por ano se comparadas aos homens com o mesmo cargo. A diferença de idade também é um fator importante: quanto mais velho o diretor, maior a diferença salarial entre executivas e executivos.

É interessante observar que o estudo também identificou uma diferença inversa no caso dos homens que trabalham subordinados a mulheres, embora esta seja menos acentuada. Os executivos trabalhando para diretoras recebem em média US$ 21.960 a menos por ano se comparados às executivas.

O estudo se apropria de um vasto corpo de obras acadêmicas envolvendo a teoria da identidade social - a ideia segundo a qual as pessoas tendem a tratar melhor as pessoas que consideram semelhantes a si mesmas. Outros estudos revelaram que, em situações de jogos competitivos, as pessoas são muito mais solidárias com outras do mesmo gênero (uma mentalidade do tipo "estamos no mesmo time"). Assim, a presença de mais mulheres no topo da hierarquia pode ter um poderoso efeito nos andares de baixo, ajudando a garantir que outras profissionais da empresa sejam mais reconhecidas e recompensadas por seus feitos.

"O tom precisa ser definido no nível mais alto das organizações, permeando-as", disse o diretor da Bloomberg Inc., Peter Grauer, durante uma conferência da Comissão para o Desenvolvimento Econômico envolvendo o tema das mulheres na liderança corporativa, realizada em Washington, D. C. na semana passada.

O problema dessa estratégia é que ela nos leva a uma situação do tipo ovo-e-galinha. As mulheres na liderança corporativa podem ajudar suas subordinadas, é claro. Mas como uma mulher pode chegar nos cargos mais altos? Falando durante o mesmo evento, Barbara Krumsiek, presidente e diretora executiva da Calvert Investments, destacou que, para a maioria das corporações, o ramo que conduz as mulheres às posições de liderança é repleto de obstáculos.

As mulheres representam 47% da força de trabalho, mas apenas 14% do quadro de executivos e 4% do quadro de diretores, disse Barbara. E, em metade das empresas do índice S&P 100, não há mulheres entre os cinco executivos mais bem pagos.

Em vez de ensinar as mulheres a "fazer acontecer" ou a negociar melhor, nosso foco deveria estar em adaptar as corporações para melhor se adequarem às mulheres, sublinhou Barbara. "Não precisamos de outro livro de autoajuda para mulheres, obrigada", disse ela. "As empresas precisam analisar o próprio funcionamento interno. Precisamos de mais livros de autoajuda para empresas." / Tradução de Augusto Calil

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.