Tom Brenner/The New York Times
Tom Brenner/The New York Times

coluna

Coluna Dan Kawa: Juro baixo é bom, mas impõe desafio ao investidor

Por que as pessoas ricas não param de trabalhar?

Entre as apostas estão o fato de serem viciadas em dinheiro, em competição ou, simplesmente, gostarem de se sentir importantes

Alex Williams, The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2019 | 07h00

“Bilionários não deveriam existir”, afirmou o senador Bernie Sanders. E há duas semanas, no debate eleitoral, ele afirmou que a disparidade de riqueza nos EUA é “um escândalo econômico e moral”. 

“O senador está certo”, disse o empresário da Califórnia Tom Steyer, que é um bilionário e estava na tribuna naquela noite. 

“Ninguém aqui quer proteger bilionários, nem mesmo o bilionário quer proteger bilionários”, observou a senadora Amy Klobuchar.

Esta é uma ideia que vem circulando. Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, com uma fortuna próxima de US$ 70 bilhões, aparentemente está aberto a ela. “Não acho que cheguei ao limite exato do quanto dinheiro uma pessoa deve ter”, afirmou ele numa sessão de perguntas e respostas transmitida via streaming com funcionários da empresa. “Mas num certo nível, ninguém merece ter tanto dinheiro”, acrescentou.

Mas estamos nesse ponto, entrando no décimo ano de um boom econômico extremamente desequilibrado em que 1% da população, segundo todas as estatísticas, ganhou demais, originando a maior disparidade em termos de riqueza desde a Era do Jazz. Esta era, em termos de duração e ganhos, eclipsa os anos 80, época da “ganância é algo bom”, das gravatas amarelas, dos sushis e das máquinas de café expresso de designer que simbolizam os excessos da era de ouro na imaginação popular.

Mas a única coisa que sabemos nessa economia tipo cassino é que para aqueles que estão no topo demais nunca é suficiente.

Muitas pessoas normais, não bilionárias, perguntam: por que isso?

Estudos realizados no decorrer dos anos indicaram que os ricos, ao contrário daqueles ociosos do passado, costumam trabalhar mais horas e gastar menos tempo com socialização. Tim Cook, diretor executivo da Apple, cuja fortuna está estimada em centenas de milhões de dólares, disse que acorda às 3h45 da madrugada para montar seus ataques diários contra seus rivais corporativos.

Elon Musk, patrão da Tesla e SpaceX, contabiliza US$ 23 bilhões, no entanto considera uma vitória o fato de ele ter reduzido suas 120 horas semanas de trabalho a um período mais “administrável” de 80 ou 90.

E eles continuam a diversificar. Lady Gaga que ganha um milhão de dólares por show nas suas apresentações no Park MGM em Las Vegas e evoluiu da música pop para o cinema, recentemente anunciou um empreendimento no campo dos cosméticos com a Amazon.

Quase tudo o que as pessoas ricas tocam se transforma em dinheiro, mas esse atual inferno financeiro significou pouco para os 50% que estão no ponto mais baixo da pirâmide nos Estados Unidos, que hoje estão 32% menos ricos do que em 2003.

No caso dos que estão inseridos na faixa dos 1% mais ricos, 85% da sua fortuna líquida está vinculada a investimentos como ações, títulos, patrimônio privado, áreas que explodiram em termos de valorização. De acordo com a Redfin, o preço médio de venda de propriedades dos 5% no topo aumentaram 43% em todo o país na última década e no caso de Los Angeles e San Francisco a porcentagem é ainda maior.

Relógios vintage de luxo, que se tornaram um objeto imprescindível para os jovens da classe alta estão explodindo em valor, com os preços de modelos Rolex dobrando de preço em poucos anos.

O ouro, antes desprezado como relíquia, teve uma alta de 40%. O que vem ocorrendo. 

Ninguém tem um cartão de aposentadoria hoje.

“Qual é o número do seu cartão?”, alguém foi indagado na era das ponto.com na década de 90.

Você consegue se aposentar com US$ 5 milhões, US$ 20 milhões? Algumas pessoas atingiram essa cifra, outras não, mas o Vale do Silício é mais do que nunca um exemplo do capitalismo sem restrições de 2019.

Ninguém mais fala sobre seu número, disse Antonio García Martínez, que vendeu uma startup para o Twitter e trabalhou no Facebook como gerente de produto antes de publicar seu livro de memórias, chamado Chaos Monkeys: Obscene Fortune and Random Failure in Silicon Valley, em 2016.

“Não há nunca um ponto ômega. As pessoas que chegam aí não param”, disse ele.

“As pessoas perguntam, “por que não pratica um hobby ou filantropia? Mas muitas não conseguem parar de fazer o que estão fazendo. Elas extraem um significado transcendental do capitalismo. Sem o seu dinheiro, o que mais elas têm?”

Numa época de impostos baixos, juros benéficos e torrentes de capital de risco disponíveis para os potenciais magnatas, este é um momento histórico na busca por mais no meio da classe empresarial.

Tim Ferriss, autor e estrela dos podcasts que foi um investidor-anjo no Vale do Silício por quase uma década, escreveu em um e-mail eu muitas dessas pessoas “levam o trabalho e a vida na máxima velocidade por décadas”.

Sem trabalho constante enfrentamos a realidade da existência 

“Quando não têm nenhuma necessidade financeira de trabalho eles têm problemas para desacelerar o motor”, escreveu Ferriss. “São como corredores que agora têm de aprender a dirigir nas curvas e interligações a 30 quilômetros por hora”.

“Sem projetos ambiciosos para preencher o espaço com frequência surge um vazio que torna impossível evitar algumas questões mais importantes. As coisas que você negligenciou não são mais abafadas pelo ruído; elas são o sinal. É como enfrentar o Fantasma do Natal Passado (do livro de Charles Dickens Um conto de Natal).

“Somos uma nação baseada na derrubada de reis e ricos ociosos, de modo que essa vida apressada está profundamente integrada na noção popular do que significa ser americano”, disse Margaret O’Mara, professora de história na universidade de Washington, que também escreve artigos para o The New York Times.

Pessoas ricas conhecem muitas pessoas ricas

 Com o número de americanos ganhando US$ 1 milhão ou mais chegando a 40% entre 2010 e 2016, de acordo com a Receita Federal, você pode achar que os ricos finalmente acham que o fluxo de dinheiro é suficiente para desacelerar, relaxar, descontrair.

Mas não.

Uma pesquisa recente feita pela Universidade de Harvard com quatro mil milionários, concluiu que pessoas com US$ 8 milhões ou mais não são mais felizes do que aquelas com US$ 1 milhão.

Num estudo feito em 2006 muito citado, pessoas ricas disseram que gastam mais tempo fazendo coisas do que precisariam.

Qual a razão?

O fato de que há mais pessoas ricas que estão, na verdade, mais ricas do que nunca, pode ser em parte a razão.

Os sociólogos há muito tempo falam da “hipótese da renda relativa”. Nossa tendência a medir a satisfação material com base naqueles em torno de nós e não em termos absolutos.

“Para muitas pessoas, o que é suficiente basta”, disse Robert Frank, editor da CNBC e autor do livro: Richistan: A Journey Through the American Wealth Boom and the Lives of the New Rich.

“Mas existem pessoas que, não importa o que possuem, elas têm de continuar em frente. Eu as chamo de 'marcadores de pontos'. Elas são realmente impulsionadas pelo fervor competitivo”.

Dinheiro é como álcool

"Vivendo numa bolha, os ricos precisam de um excesso de dinheiro para sentir a mesma euforia produzida pelo álcool”, disse Steve Bergias, psicólogo e coach de executivos. “Se você é um bêbado vai tomar um, dois, três, cinco drinques para sentir empolgação. Bem, quando você consegue um milhão de dólares, vai precisar de 10 milhões para se sentir como um rei. Dinheiro é uma substância viciante.”

E alimentar o vício fica ainda mais estimulante numa economia em que o preço do símbolo do status vem sempre acrescentando zeros.

Para os super-ricos que frequentam eventos esportivos não basta mais ter assento do lado da quadra ou uma tribuna de luxo. Eles precisam de um time. E times são caros.

O Golden State Warriors, por exemplo, foi vendido em 2010 por um valor recorde de US$ 450 milhões para um grupo de proprietários liderado por Joe Lacob, capitalista de risco do Vale do Silício. A equipe está avaliada hoje em US$ 3,5 bilhões.

E mesmo isso não é suficiente. Agora você precisa construir a arena mais ostentosa. Recentemente foram concluídos os toques finais de uma nova arena dos Warriors em São Francisco chamada Chase Center. Seu valor financiado pelos próprios proprietários foi de US$ 1,4 bilhão.

Steve Ballmer, antigo diretor executivo da Microsoft e dono do Los Angeles Clippers pretende construir um local de recreação de US$ 1 bilhão em Inglewood Califórnia.

Os ricos suspeitam que a montanha-russa está para desabar

 Como veterano de fundos hedge, conselheiro na área de metais preciosos e escritor, James Rickards é um ricaço que fala para muitos outros ricaços. E eles nem sempre gostam do que ele diz.

Ele acha que a atual recuperação alimentada pela dívida por ser o prelúdio de um colapso econômico muito mais grave do que a Grande Recessão. Segundo ele, até recentemente essas teorias eram recebidas com desinteresse por muitas pessoas ricas. Mas agora algo mudou.

“Literalmente, em questão de semanas, talvez meses, os telefonemas que recebo têm um tom diferente”, disse ele. “As pessoas me perguntam: ‘Tenho o dinheiro. Como devo conservá-lo? Os futuros em ouro vão se manter ou deveria ter lingotes? Neste caso devo colocá-los numa bolsa ou num cofre privado?’ É uma preocupação que nunca ouvi antes de pessoas muito ricas”, disse Rickards. “E o tom de voz sugere que elas querem “uma resposta já’”.

Não se trata somente da instabilidade das Bolsas. Os temores têm uma natureza mais existencial.

É como se as pessoas que lucraram o máximo dos bons tempos não acreditem que os tempos são bons ou que continuarão bons, no caso, digamos, de uma presidência Bernie Sanders.

Paul Singer, que administra o fundo Elliot Management, estaria pedindo bilhões para os investidores como fundo de reserva para uma possível implosão do mercado.

Depois que deixou o Facebook, García Martínez adquiriu um terreno arborizado de dois hectares numa ilha no Pacífico equipada com geradores e painéis solares.

Os novos ricos que vêm de um contexto de vida normal são os mais inquietos, disse Jennifer Streaks, comentarista de finanças pessoais e contribuinte da CNBC. “Imagine crescer na classe média ou até pobre e depois acumular milhões de dólares. Isso soa como sonho americano, mas de repente você tem um apartamento de US$ 5 milhões, um carro de US$ 200 mil e uma família que tem essas expectativas.”

Surge um pânico quando essas pessoas acham “que têm um investimento ruim a ponto de entrar em colapso”.

E os ricos ficam nervosos e isolados

Não é como Jeff Bezos, o homem dos US$ 110 bilhões que terá de leiloar seu jato de US$ 65 milhões se fizer uma aposta ruim nos drones de entrega da Amazon (ou passar por um divórcio de US$ 36 bilhões).

Mesmo assim, o isolamento que sempre acompanha a riqueza extrema pode fornecer um impulso emocional para as pessoas continuarem ganhando bem depois de o conforto material ter sido alcançado, disse Byram Karasu, professor de psiquiatria no Albert Einstein College of Medicine, no Bronx.

Os empreendedores e financistas Apex no final, são com frequência pessoas “com muita adrenalina, transgressivas. Elas tendem a ter cérebros digitais com foco no laser, sempre no modo transacional e quanto mais alcançam, mas solitárias estão”.

Berglas, membro da faculdade de psicologia em Harvard, disse que “se você não consegue se relacionar com pessoas vai achar que o fato de não ter amizades é por causa da inveja – sua casa é três vezes maior do que a dos vizinhos, e eles olham seu novo Corvette e babam. É um mecanismo de compensação “posso não ter um monte de amigos, mas posso fazer tudo o que quiser e sou o sujeito mais poderoso por aí”.

Oportunidade ilimitada, extremo isolamento. Eles já possuem o presente. O que mais há para comprar amanhã, e depois de amanhã? Repentinamente, a obsessão dos super-ricos pelo turismo espacial começa a fazer sentido. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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