Renato Cruz/AE
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Por que empresas que mudam o mundo nascem no vale

Região ao sul de San Francisco tem combinação única de empreendedores, investidores e pesquisa

Renato Cruz, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / PALO ALTO

Reportagem especial

Vale do Silício, centro mundial da tecnologia

O Vale do Silício, na Califórnia, deu origem a algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo. Por lá, parece não haver crise econômica. Na história da região, a Universidade de Stanford desempenha papel central (Bill Hewlett e David Packard saíram de lá para montar a HP em 1939; assim como Larry Page e Sergey Brin, que interromperam seu doutorado para fundar o Google em 1998).

O Estado começa a publicar hoje uma série de reportagens sobre o que torna o Vale do Silício um lugar único, atraindo talentos de todas as partes do mundo. A série continua nos dois próximos domingos, mostrando, entre outros temas, a cultura hacker do Facebook, os estrangeiros que buscam o sonho de criar uma empresa de sucesso e a onda de tecnologias verdes que tomou a região.

Em tempos de redes sociais virtuais, funciona no Vale uma rede social bem concreta, que une empreendedores, investidores e pesquisadores. No segundo trimestre, os capitalistas de risco investiram US$ 7,5 bilhões em 966 negócios nos Estados Unidos, segundo estudo da PricewaterhouseCoopers e da National Venture Capital Association. O Vale do Silício recebeu 39% desse total, mais do que qualquer outra região do país.

Algumas características do ambiente de negócios do Vale do Silício o diferenciam de outras regiões do mundo. Uma delas é a tolerância ao fracasso, encarado como uma forma de aprender o que não deve ser feito. Algumas das frases repetidas pela comunidade de tecnologia são "fail fast" (fracasse rápido) e "fail forward" (fracasse adiante). Na verdade, essa tolerância ao fracasso pode ser vista como a outra face do apetite por risco.

Outro segredo do sucesso do Vale do Silício é a atração de talentos de todas as partes. Empreendedores da China, da Índia e até do Brasil vão para lá para criar suas empresas, para estar próximos dos investidores e dos gigantes do setor de tecnologia. Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, mudou da Universidade Harvard, em Cambridge, para o Vale do Silício, quando quis transformar o Facebook num sucesso global.

Ponto de partida. Uma garagem no número 365 da Addison Avenue, em Palo Alto, é considerada o marco zero do Vale do Silício. Foi lá que, em 1939, os engenheiros Bill Hewlett e David Packard, recém-saídos de Stanford, fundaram a HP, incentivados pelo professor Frederick Terman, que estava cansado de ver os alunos da universidade mudar para a Costa Leste dos Estados Unidos depois da formatura.

A universidade cumpriu um papel importante na origem de outras empresas da região. O nome da Sun, que foi adquirida pela Oracle, é um acrônimo de Stanford University Network. "A universidade é um grande motor de criação de novas ideias, e de ensinar os estudantes a trazer suas ideias à vida", disse Tina Seelig, diretora executiva do Stanford Technology Ventures Program. Apesar de ser um programa para formar empreendedores, é ligado à faculdade de engenharia, e não à administração.

"Nossa filosofia é considerar insuficiente para os estudantes sair da faculdade com um treinamento puramente técnico", explicou Tina. "Eles precisam entender o mundo empreendedor em que vão atuar. É importante para eles como indivíduos para terem sucesso, para as empresas em que vão trabalhar, para o país e para o mundo."

Um bom exemplo do espírito empreendedor cultivado em Stanford é a origem do Google. Foi durante o doutorado que Larry Page e Sergey Brin criaram o PageRank, tecnologia que deu origem a um buscador melhor que todos os concorrentes da época. Page ficou em dúvida se terminava o curso ou criava uma empresa e seu orientador, o professor Terry Winograd, sugeriu que ele empreendesse, já que, se o Google desse errado, Stanford estaria sempre lá. Page nunca terminou o doutorado.

Recriando o Vale. É muito comum ouvir pessoas falando em replicar o Vale do Silício em outro lugar. Normalmente, é alguém de algum governo, que planeja criar uma política pública para desenvolver um centro de tecnologia.

Mas se vê muito pouco governo no sucesso do Vale do Silício. O que houve de importante, no passado, foram investimentos públicos em pesquisa na Universidade Stanford, principalmente durante a Segunda Guerra Mundial e, logo depois, compras de eletrônicos pelo setor de defesa. Foram as Forças Armadas americanas que sustentaram os primeiros anos da indústria de semicondutores da região, adquirindo quase toda a produção.

Depois desse pontapé inicial, o setor privado passou a andar sozinho. É possível recriar o ambiente do Vale em outro lugar? "Os componentes podem ser replicados. Construir a cultura leva mais tempo", afirmou David Charron, professor do Lester Center for Entrepreneurship, da Universidade da Califórnia em Berkeley. "Empreender é perseguir uma oportunidade. É possível ensinar a empreender, mas, sem a oportunidade, o aluno nunca vai se tornar um empreendedor."

PRESTE ATENÇÃO

Alguns fatores que fazem diferença

1. Muitas empresas nasceram de ideias surgidas na Universidade de Stanford, que atrai estudantes de todas as partes do mundo. A Universidade da Califórnia em Berkeley é outro centro de excelência, que recebe talentos de vários lugares e fornece mão de obra para as empresas da região.

2. O Vale do Silício é tolerante ao risco. Ao contrário de outras regiões do mundo, fracassar não se torna uma mancha no currículo do empreendedor. Em muitos casos, é sinal de experiência, que aumenta as chances de sucesso da próxima empreitada.

3. A história de empreendedorismo no Vale do Silício tem décadas. Os empresários de uma onda tecnológica anterior tornam-se investidores e mentores dos empreendedores da próxima onda, criando um ciclo virtuoso de investimento e de transmissão de conhecimento.

ENTREVISTA

Chris Anderson, editor-chefe da revista Wired

"É preciso lançar o produto, mesmo se não estiver pronto"

Anderson fala sobre os motivos que tornam o Vale do Silício um lugar único, e sobre o que é preciso para um empreendedor ter sucesso

SAN FRANCISCO

Chris Anderson é conhecido como editor da revista Wired e autor dos livros A Cauda Longa e Free. Mas ele também é um empreendedor. Anderson fundou em San Diego a empresa DIY Drones/3D Robotics, que fabrica equipamentos para amadores que constroem aviões não tripulados. Com faturamento entre US$ 2 milhões a US$ 3 milhões, a empresa cresce 100% ao ano.

Programado para sair ano que vem, seu novo livro, Atoms Are the New Bits ("átomos são os novos bits"), trata do que ele chama de a "próxima revolução industrial", com hardware de código aberto (desenvolvido coletivamente, sem royalties) e microfábricas. E sua empresa é um exemplo desse novo modelo.

Anderson recebeu o Estado na redação da Wired, no terceiro andar do número 305 da Third Street, em San Francisco, para falar sobre o que faz o Vale do Silício único. A seguir, trechos da entrevista.

Sua empresa tem investidores?

Nós crescemos organicamente, sem investidores. Coloquei um pouco do meu dinheiro, mas não muito, para começar. Principalmente do cartão de crédito. Sem investidores, sem capital de risco, sem empréstimos. É um tipo de negócios que faz dinheiro a partir do primeiro dia.

Por que você não abraçou o modelo do Vale do Silício, de buscar investidores para crescer rápido?

Não existe um único modelo do Vale do Silício. Muitas pessoas acreditam em autofinanciamento. Além disso, queríamos manter o controle. Não queríamos investidores nos pressionando a fazer coisas que não queríamos fazer. Por fim, não precisávamos. Temos um processo de desenvolvimento bem barato, com hardware de código aberto. A pesquisa e desenvolvimento é feita pela comunidade, de graça. O modelo é bem eficiente.

Por que tantas empresas importantes nascem no Vale do Silício?

Em primeiro lugar, os empreendedores vêm para o Vale do Silício. Em segundo, temos muitos bons exemplos. Todo mundo conhece alguém que é um empreendedor. Então é muito fácil saber como as coisas acontecem. Em terceiro, é muito fácil conseguir informação e ajuda. Se você precisa de dinheiro, pode conseguir aqui. Tudo está a uma mensagem de correio eletrônico ou um telefonema de distância.

Por que é necessário estar fisicamente aqui, se vivemos num mundo tão conectado?

Por que você está aqui pessoalmente, se poderia conversar comigo pelo telefone? Um encontro físico se destaca em um mundo de interações virtuais.

Não se vê muitos sinais da crise econômica por aqui.

O Vale do Silício não está em recessão. O setor de tecnologia é anticíclico. Tivemos a nossa própria crise em 2000 e neste momento a indústria está crescendo. Mas isto não são os Estados Unidos. Temos falta de imóveis, no lugar de excesso.

Na sua opinião, é possível recriar este ambiente em outros lugares?

Sim, mas não é necessário. O Vale de Silício é especial por vários fatores: universidades de classe mundial, empreendedores, apetite por risco, muitos imigrantes, o acesso ao Pacífico e outros. Algumas características são facilmente replicáveis, como a diversidade e boas universidades, aspectos culturais e de negócios. Nova York está indo muito bem. Boulder, no Colorado, também. Fora dos EUA, existem concentrações em lugares como Xangai e Shenzhen. Cada lugar é diferente. Nova York tem um foco maior em mídias sociais, Boulder em hardware. Não é possível recriar o Vale do Silício, mas outra coisa que seja boa para o seu país e para o momento.

O Vale do Silício está ligado à contracultura dos anos 60?

De certa forma, a tolerância por uma ampla gama de comportamentos atrai pessoas. Quem é inteligente se sente atraído por um ambiente de tolerância. Gênios podem ser estranhos, então é preciso aceitar a estranheza. A contracultura aceitou a estranheza e encontrou coisas boas nela. A Apple foi criada a partir de princípios da contracultura: "pense diferente". É difícil imaginar certas coisas acontecendo em outros lugares. Quando falo em contracultura, não quero dizer drogas e hippies, mas uma ampla diversidade de pessoas e tolerância verdadeira à estranheza.

O que um empreendedor precisa fazer e o que não deve fazer?

O que um empreendedor precisa fazer é entregar, colocar o produto porta afora. Mesmo que não esteja pronto, precisa executar. Acho que o corolário é o oposto: testar, fazer pesquisa de mercado, tentar criar um produto perfeito e ficar obcecado em fazer certo. Já vi muitos empreendedores que ficam repetindo que não está pronto, que é preciso acrescentar mais uma funcionalidade. Dois anos se passam, nenhum produto é lançado e o mercado acaba seguindo em frente. Simplesmente faça. Lance alguma coisa e depois adapte.

CRONOLOGIA

Trajetória tecnológica

1939

A HP surge numa garagem

Bill Hewlett e David Packard (foto), engenheiros formados por Stanford, criam sua empresa numa garagem de Palo Alto. O primeiro produto é um oscilador de áudio.

1956

O silício chega ao Vale

William Shockley, um dos inventores do transistor, instala em Mountain View o Shockley Semiconductor Laboratory, a primeira empresa e centro de pesquisas a trabalhar com silício na região. Depois, surgem no Vale outras fabricantes de semicondutores, como a Fairchild Semiconductor, a Intel e a AMD.

1976

O início de uma revolução

Steve Jobs e Steve Wozniak formam a Apple Computer em uma garagem em Los Altos. Seu primeiro produto, o computador pessoal Apple I, é vendido por US$ 500 cada unidade. No ano seguinte, a empresa se muda para a cidade de Cupertino, também no Vale do Silício, e lança o Apple II, seu primeiro sucesso.

1994

A explosão da web

Criada por Jim Clark e Marc Andreessen (foto) em Mountain View, a Netscape lança o browser Navigator, responsável pela popularização da World Wide Web. A empresa dá início a um novo ciclo de empreendedorismo no Vale do Silício. A euforia acaba gerando a primeira bolha da internet, que estoura em 2000.

1998

O nascimento de um gigante

Dois alunos de doutorado em Stanford, Larry Page e Sergei Bryn, fundam o Google em Menlo Park. A empresa tem como base uma tecnologia desenvolvida por eles, chamada PageRank, que define a relevância das páginas de internet para buscas. Posteriormente, a empresa vai para Mountain View, também na região.

2004

Mudança para o Vale

Mark Zuckerberg (foto), fundador do Facebook, decide mudar a sede da empresa para Palo Alto, no Vale do Silício. Ela sido criado em Cambridge, na Costa Leste dos Estados Unidos, No mesmo mês em que se muda, recebe o primeiro investimento, de Peter Thiel, um dos criadores do PayPal, serviço de pagamentos online.R

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