Por que Madri não pede socorro à Europa

Os mecanismos europeus de socorro às economias europeias existem.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2012 | 03h04

Basta fazer um pedido.

Tais mecanismos foram até reforçados, de um lado com o Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE) e de outro a resolução do Banco Central Europeu (BCE) para socorro a países endividados. Apesar disso, enquanto ventos e maremotos se abatem sobre a Espanha, os "caixas" vazios e o povo espanhol não suportando mais, como mostraram os tumultos da quarta-feira, Rajoy continua refletindo.

Como explicar essa fleuma? É reflexo de um orgulho espanhol que prefere perecer em vez de pedir? Com certeza não. Rajoy parece achar que o país ainda pode aguentar mais alguns meses. A Espanha necessita de 130 bilhões para financiar seus déficits, resgatar sua dívida no prazo e pagar os juros dos empréstimos. É viável: enquanto os mercados responderem positivamente, tudo bem. A Espanha não deve declarar moratória. Não se compara à Grécia por exemplo, já que Atenas enfrenta problemas de liquidez. A Espanha ainda consegue pagar seus funcionários.

Entretanto, nada garante que os mercados conservarão a calma. A Espanha passou dois anos em recessão e a estimativa é de que o Produto Interno Bruto (PIB) caia 1,8% em 2012 e 1,4% em 2013. Nestas condições, como Madri conseguirá reembolsar sua dívida? Diante desta perspectiva, os mercados podem se inflamar e os juros aumentarão. O que se verificou ontem: os juros de empréstimos com vencimento para 10 anos já ultrapassaram o teto dos 6%.

Serviço da dívida. Mariano Rajoy reconhece o problema. Sabe bem que com o aumento dos juros a Espanha vai acabar não conseguindo pagar sua dívida (um ponto porcentual de juro suplementar aumenta o serviço da dívida em 1,3 bilhão).

Como explicar a impassibilidade do premiê espanhol e sua recusa em recorrer à Europa? Na verdade o que ele teme é a lentidão dos mecanismos de ajuda europeus. Seu temor é de que seja muito longo o prazo entre o momento em que pedir ajuda e quando essa ajuda chegará. Foi o que ocorreu quando da ajuda europeia aos bancos espanhóis. Rajoy quer que a resposta do MEE ou do BCE seja rápida de maneira a tranquilizar os mercados e desestimular a especulação.

Mas há uma objeção: o premiê teme que a Europa imponha aos espanhóis condições draconianas, obrigando Madri a estabelecer novas medidas de austeridade, uma vez que aquelas em vigor já são insuportáveis para o povo espanhol. No orçamento apresentado por ele estão previstas uma redução do salário desemprego, aumento do Imposto sobre Valor Agregado (IVA) em dois pontos porcentuais, e pelo terceiro ano um congelamento dos salários dos funcionários públicos. Mas os países do norte da Europa, Alemanha à frente, continuam a exigir que "se aperte ainda um pouco mais o cinto", com o perigo de o país perecer.

Estas são as razões da teimosia de Mariano Rajoy. Mas com o aumento das taxas de juro, parece inevitável que Madri recorrerá à ajuda comunitária. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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