Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Por que misturar o uso racional da água com a redução do consumo de energia?; leia análise

Por meio desta estratégia, esconde-se a severa escassez de recursos hídricos para a geração de energia em um biombo onde cabe quase tudo

Edvaldo Santana*, O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2021 | 04h00

Há 15 anos, o setor elétrico é submetido a aventuras que o transformou em agregador de subsídios perversos. Cada governo marca sua presença com um desastre. A Medida Provisória (MP) 579 era, até esses dias, o erro mais grosseiro. A MP 1.031, de privatização da Eletrobrás, logo tomará seu lugar.

Vi ontem, pela primeira vez, o apelo do governo, em princípio correto, para o uso racional da energia. Porém, o anúncio ressalta também, ou talvez mais, o uso racional da água. Claro que a água deve ser sempre usada com parcimônia, mas a agência de Brasília não mostra restrições em quaisquer dos seus reservatórios. Mesmo em alguns reservatórios de hidrelétricas, como o de Sobradinho, maior do Brasil, a água não é escassa.

Por que, então, misturar dois problemas, quando o alerta deveria ser apenas para a redução do consumo de energia? Tenho uma resposta. Ao contrário da eletricidade, a escassez de água para uso humano é mais frequente e, daí vem a estratégia, é atribuição do governo de Estados e municípios. Assim, esconde-se a severa escassez de recursos hídricos para a geração de energia em um biombo onde cabe quase tudo.

Essa estratégia, de resultado político duvidoso, desviará as atenções dos consumidores das regiões onde não há limitações no uso da água. E, como o sistema elétrico é interligado, os usuários do Nordeste devem utilizar menos energia para que os excedentes sejam exportados para o Sudeste, única região em que os reservatórios das usinas estão em estado crítico.

Coisa semelhante acontece com o extraordinário aumento da bandeira tarifária. O governo deve dizer diretamente aos brasileiros que a elevação da tarifa só terá algum benefício se o consumo de energia diminuir, o que reduz as chances de cortes compulsórios da carga.

No setor elétrico, até é providencial o tratamento precoce para evitar que a crise se alastre, mas a terapia é ortodoxa, comprovada cientificamente e não admite a negação de fatos. Por enquanto, tudo indica que a bússola escolhida foi desnivelada por um choque ou, quem sabe, por um negacionismo elétrico.

*DOUTOR EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, FOI DIRETOR DA AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL)

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