Alex Silva/ Estadão - 9/9/2020
Gôndola do supermercado Extra da Freguesia do Ó; preço do arroz aumentou nas últimas semanas Alex Silva/ Estadão - 9/9/2020

Por que o arroz está mais caro?

Aumento da demanda tanto por parte do mercado nacional, com o auxílio emergencial, como do internacional, devido à desvalorização do real, têm papel na variação do preço

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 20h30
Atualizado 10 de setembro de 2020 | 08h20

A disparada do preço do arroz pode ser explicada pelo aumento da demanda, tanto por parte do mercado nacional como do internacional, ambos influenciados pela pandemia do coronavírus. Nas últimas semanas, um pacote de cinco quilos de arroz, que normalmente custa R$ 15, pôde ser encontrado em alguns lugares a R$ 40. Com isso, alguns supermercados já restringem a quantidade que cada cliente pode comprar

Por parte do mercado nacional, especialistas explicam que houve um aumento na demanda, enquanto a oferta já estava “dada”, ou seja, a quantidade de arroz oferecida no mercado era praticamente fixa, pois o plantio já havia sido feito, mas o interesse da população pelo item cresceu nos últimos meses. 

“Ao longo dos últimos anos, tínhamos uma queda no consumo de arroz. Quanto maior a renda da população, menor o consumo de arroz, porque você vai migrando o consumo, consumindo mais proteína, por exemplo. Logo, se você consome menos um produto, excedente aumenta e o preço cai. Então, os produtores de arroz foram buscar outras fontes de renda”, explicou Lucilio Alves, pesquisador responsável pela área de arroz do Cepea/ USP. 

“Só que em 2020, começa a haver a restrição de locomoção, e as pessoas vão buscar alimentos de fácil preparo em casa e a preços competitivos. Tivemos um choque de demanda, e os estoques caíram. O estoque de passagem estava previsto para ser baixo até fevereiro de 2021. Além disso, tivemos neste ano o auxílio emergencial dado às pessoas.”

Já por parte do mercado internacional, o interesse pelos produtos brasileiros se dá pela competitividade dos preços em função da desvalorização de quase 40% do real nos últimos 12 meses, em comparação com o dólar. “Com a aversão ao risco causada pela pandemia, o dólar subiu, enquanto o real caiu. Logo, qualquer produto produzido em real ficou mais barato para se comprar no exterior”, disse Felipe Serigatti, coordenador do mestrado profissional em Agronegócios da FGV, explicando como a elevação da taxa de câmbio favorece a exportação.

Tire suas principais dúvidas sobre a alta dos alimentos:  

De quanto foi o aumento dos alimentos? 

O gasto com o grupo alimentação e bebidas voltou a pesar no orçamento doméstico em agosto, com uma elevação de 0,78%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os alimentos para consumo no domicílio, aqueles comprados nos supermercados, tiveram um avanço de 1,15% no mês.

No mês de agosto, houve pressão dos preços do tomate (12,98%), leite longa vida (4,84%), frutas (3,37%), carnes (3,33%), óleo de soja (9,48%) e arroz (3,08%). O arroz acumula uma alta de 19,25% no ano de 2020. Por outro lado, ficaram mais baratos a cebola (-17,18%), alho (-14,16%), batata-inglesa (-12,40%) e feijão-carioca (-5,85%).

Até quando o preço do arroz vai continuar alto? 

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura, a produção de arroz estimada para a próxima safra (2020/21) é de 12 milhões toneladas, o que representa um aumento de 7,2% em relação à safra anterior. Com o aumento da oferta de arroz, que começa a ser comercializada em março de 2021, a expectativa é de queda de preços no próximo ano.

Mas o governo não zerou o imposto para o arroz?

De fato, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) zerou a tarifa de importação do arroz. O governo estabeleceu uma cota de 400 mil toneladas de arroz até o fim do ano que podem entrar no País sem a taxa. O montante vale para o arroz com casca e o beneficiado. De acordo com fontes do Ministério da Agricultura, o total é considerado suficiente para ajudar a conter a subida no preço do arroz e garantir que não faltará produto nas prateleiras.

Alves, da USP, no entanto, diz que para o consumidor, os efeitos no bolso não vão se alterar no curtíssimo prazo. “Se o mercado encontrasse alguma alternativa mais atrativa, ele já teria ido atrás. É difícil haver algum arroz que chegue a um preço menor que temos aqui hoje.”

Com o dólar alto, o arroz importado não vai ser mais caro ainda?

É possível que os preços cheguem altos às prateleiras. “Os preços dos alimentos subiram em todo o mundo. No caso do arroz, países produtores tiveram problemas de safra e, por conta da pandemia, muitos países resolveram não exportar por segurança”, avaliou o coordenador do núcleo econômico da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Renato Conchon.

Devo estocar arroz? 

Não. “Esse alarde pode fazer com que as pessoas corram ainda mais para o mercado, e por isso os preços podem aumentar ainda mais”, disse Alves. 

De quem é a culpa? 

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, notificou empresas e associações cooperativas ligadas à produção, distribuição e venda de alimentos da cesta básica para questionar a alta nos preços dos produtos. Ele indicou ter sido pego de surpresa pela informação. Todos terão cinco dias para responder aos questionamentos.

Há pelo menos 20 dias, fornecedores e supermercados travam uma queda de braço para ver quem fica com a menor margem de lucro

A inflação vai aumentar por causa dos alimentos? 

O secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, diz que não. “A inflação é uma alta generalizada e recorrente. O aumento que estamos vendo agora não é generalizado, mas localizado em alguns produtos da cesta básica. Vai durar alguns meses e depois retorna à normalidade.”

Alguns economistas, entretanto, já revisaram para cima as projeções de inflação do ano. A XP Investimentos aumentou sua projeção para a inflação de 2020 de 1,4% para 1,7%; o economista Fabio Silveira, sócio da MacroSector, que antes projetava inflação do ano em 2,7%, está revendo para 3,3% e o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Getúlio Vargas, prevê uma inflação de 2,3%, e não mais abaixo de 2%. 

Quem está comprando os alimentos brasileiros?

A China decidiu fazer estoques estratégicos de alimentos, depois de sentir o risco de faltar comida por causa da paralisação provocada pela pandemia. De janeiro a julho, as compras da China injetaram US$ 24 bilhões no agronegócio, segundo a Confederação  da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). É uma cifra recorde para o período e quase 30% maior do que a registrada nos mesmos meses de 2019. 

As compras de carnes bovina, suína, aves e especialmente da soja, que respondeu por 72% das aquisições no período, pressionou as cotações em reais desses produtos e já apareceu nos índices de inflação ao consumidor.

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Inflação vai a 0,24% em agosto, puxada por combustíveis e alimentos

IPCA desacelerou em relação a julho, quando subiu 0,36%, mas resultado é o maior para o mês de agosto desde 2016

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 09h15
Atualizado 09 de setembro de 2020 | 16h55

RIO - As famílias brasileiras voltaram a gastar mais com alimentação no mês de agosto. Os alimentos e os combustíveis foram os itens que mais pressionaram a inflação oficial no País, que fechou o mês em 0,24%, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados nesta quarta-feira, 9, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O índice desacelerou em relação a julho, quando subiu 0,36%, mas o resutlado é o maior para o mês de agosto desde 2016. No ano, o indicador acumula alta de 0,70% e, em 12 meses, de 2,44%.

Após um repique no início da pandemia, provocado por uma corrida da população aos supermercados com receio de desabastecimento, o gasto com o grupo alimentação e bebidas voltou a pesar no orçamento doméstico em agosto, com uma elevação de 0,78%. Os alimentos para consumo no domicílio, aqueles comprados nos supermercados, tiveram um avanço de 1,15% no mês.

Os aumentos de preços são impulsionados agora por uma elevação nas exportações brasileiras e pela alta do dólar ante o real, mas também por uma pressão da demanda doméstica, aquecida pelo pagamento do auxílio emergencial, apontou Pedro Kislanov, gerente do Sistema Nacional de Índices de Preços do IBGE. A alimentação para consumo no domicílio acumula um aumento de 11,39% nos 12 meses encerrados em agosto, maior resultado desde novembro de 2016.

“Alguns alimentos estão em alta, outros estão em queda, como alho, cebola, batata. O consumidor acaba percebendo muito mais as altas que as quedas. E sua percepção de inflação depende muito da sua cesta de consumo individual. Se você é vegetariano vai sentir menos preço das carnes”, disse Kislanov.

Embora o Brasil esteja colhendo uma safra recorde de grãos em 2020, Kislanov lembra que o dólar mais valorizado estimula as exportações e reduz a oferta de produtos no mercado doméstico.

“Essa alta nos alimentícios tem a ver com vários fatores, um deles é demanda externa, principalmente chinesa. Outro é câmbio, porque com dólar alto é interessante para o produtor exportar. E o auxílio emergencial ajudou a sustentar preços de alimentos, especialmente arroz e feijão, produtos mais básicos. Aumenta demanda também por laticínios”, justificou Kislanov. “O auxílio emergencial foi importante para sustentar a demanda por alguns produtos da cesta mais básica, e pode continuar sustentando nos próximos meses.”

No mês de agosto, houve pressão dos preços do tomate (12,98%), leite longa vida (4,84%), frutas (3,37%), carnes (3,33%), óleo de soja (9,48%) e arroz (3,08%). O arroz acumula uma alta de 19,25% no ano de 2020. Por outro lado, ficaram mais baratos a cebola (-17,18%), alho (-14,16%), batata-inglesa (-12,40%) e feijão-carioca (-5,85%).

A pressão nos itens alimentícios fez a XP Investimentos aumentar sua projeção para a inflação de 2020, que passou de 1,4% para 1,7%. "A alta de preços em alimentos, que já víamos no atacado, chegou ao consumidor final, e isto também está relacionado com a demanda agregada, já que a população está com dinheiro dos auxílios do governo", justificou o economista da corretora, Vitor Vidal.

Por outro lado, num momento em que a população ainda tem saído menos de casa, por conta da pandemia, a alimentação fora do domicílio voltou a recuar em agosto: -0,11%. A refeição fora de casa ficou 0,56% mais barata.

Também aliviaram o orçamento doméstico os recuos nos preços de itens de vestuário e, principalmente, das mensalidades escolares. Os descontos concedidos pelas instituições de ensino em decorrência da pandemia foram captados pelo IBGE apenas na inflação de agosto, mas já ajudaram a deter o IPCA em 0,22 ponto porcentual. Os gastos com educação recuaram 3,47%. Os preços dos cursos regulares diminuíram 4,38%, com descontos em todas as etapas: pré-escola (-7,71%), seguida por cursos de pós-graduação (-5,84%), educação de jovens e adultos (-4,80%) e creches (-4,76%).

O IPCA teria subido de 0,48% não fosse a queda dos cursos regulares, calculou Pedro Kislanov. / COLABOROU GREGORY PRUDENCIANO

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Camex zera imposto de importação de arroz

Governo estabeleceu uma cota de 400 mil toneladas de arroz até o fim do ano que podem entrar no País sem a taxa; o montante vale para o arroz com casca e o beneficiado.

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 12h01
Atualizado 09 de setembro de 2020 | 20h11

BRASÍLIA - A Câmara de Comércio Exterior (Camex) resolveu nesta quarta-feira, 9, zerar a tarifa de importação do arroz, como antecipou o Estadão/Broadcast. O governo estabeleceu uma cota de 400 mil toneladas de arroz até o fim do ano que podem entrar no País sem a taxa. O montante vale para o arroz com casca e o beneficiado.

A redução poderá valer a partir de quinta-feira, 10, se for publicada em edição extra do Diário Oficial ainda desta quarta, ou a partir de sexta-feira, se a publicação for feita amanhã. Para a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), a medida é "paliativa" e o arroz importado deve chegar com preço alto por causa da desvalorização do real (veja mais abaixo).

De acordo com fontes do Ministério da Agricultura, o total é considerado suficiente para ajudar a conter a subida no preço do arroz e garantir que não faltará produto nas prateleiras.

Neste ano, até agosto, o Brasil importou 45.087 toneladas de arroz com casca e 372.890 toneladas de arroz beneficiado (sem casca, parbolizado e polido).

O produto tem pouca importação no Brasil - a ideia é justamente tirar a taxa para que aumente a compra enquanto os preços internos estão altos.

O Estadão/Broadcast mostrou que, no fim de agosto, preocupado com o aumento dos preços no mercado interno, o governo brasileiro avaliava retirar temporariamente as tarifas de importação para o arroz, milho e soja.

Na reunião da Camex desta quarta, de acordo com fontes, será analisada a desoneração apenas para o arroz, cujo preço disparou nas últimas semanas, com o pacote de cinco quilos chegando a custar R$ 40 em alguns sites (normalmente, é vendido por cerca de R$ 15).

Na terça-feira, 8, o presidente Jair Bolsonaro se reuniu com ministros e a alta dos preços agrícolas foi o principal assunto da pauta. A alíquota de importação para países fora do Mercosul é de 12% para o arroz.

Arroz importado também deve ter preço alto por causa do dólar

A importação de arroz é uma medida paliativa e não resolverá a alta no preço do produto, disse ao Estadão/Broadcast o coordenador do núcleo econômico da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Renato Conchon. Segundo o economista, com o real desvalorizado, mesmo sem imposto de importação a tendência é que o produto chegue às prateleiras a preços altos, a depender do tipo maior do que o cobrado pelo arroz brasileiro. 

“Reduzir a tarifa vai propiciar mais importação, mas importar está mais caro. Pode ser uma medida paliativa, mas que vai ser impactada pelo cambio. O Brasil até encontra arroz no mercado mundial, mas a preços maiores, em dólar”, afirmou.

“Os preços dos alimentos subiram em todo o mundo. No caso do arroz, países produtores tiveram problemas de safra e, por conta da pandemia, muitos países resolveram não exportar por segurança”, avalia Conchon. 

Para o coordenador, a redução do preço do produto brasileiro passa por diminuição nos custos de produção e fomento à produção interna, o que pode ter reflexo no médio prazo. 

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CNA vê nova alta nos preços de alimentos com aprovação da reforma tributária

Texto na Câmara quer tributar agronegócio em 25%, sem nenhuma desoneração; cálculos da entidade apontam que com reforma, a produção de itens como soja, milho, café e arroz pode ficar ainda mais cara

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2020 | 05h00

BRASÍLIA - O preço dos alimentos, que está pressionado neste momento, deve sofrer nova alta caso a reforma tributária seja aprovada no Congresso Nacional. Segundo estimativa da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), as mudanças na cobrança de impostos para o setor poderão levar a um aumento adicional na inflação oficial (medida pelo IPCA) de 1,8 ponto porcentual em 18 meses.

A projeção considera a “pior das hipóteses” para o setor: a proposta de emenda constitucional 45, em tramitação na Câmara dos Deputados. Há impacto também para a área agrícola em outros projetos de reforma tributária, inclusive o enviado pelo governo, que prevê a unificação do PIS/Cofins e a criação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).

Pela proposta da Câmara, o agronegócio será tributado em 25% e não haverá desoneração de nenhum produto. Para a CNA, isso levará a um aumento no custo de produção, já que insumos como sementes e fertilizantes e maquinários agrícolas não terão mais benefícios tributários.

Cálculos da entidade repassados ao Estadão/Broadcast mostram que produzir pode ficar 23,6% mais caro no caso da pecuária de corte, 19,4% no caso da soja e do milho, 19,3% no café e 14% no arroz, o atual vilão dos preços nas gôndolas de supermercado. As projeções foram feitas com base nos custos de produção de municípios específicos – Wanderley (BA), Sorriso (MT), Monte Carmelo (MG) e Uruguaiana (RS) respectivamente.

O estudo da CNA mostra também aumento nos custos em culturas como tomate (14,6%), laranja (13,1%), cacau (12,4%), e cana-de-açúcar (6,9%). Também há alta na pecuária de leite (11,8%) ou avicultura para produção de ovos (21,4%).

A CNA também estima uma queda na rentabilidade para o produtor rural que, em alguns casos, chegará a um grande prejuízo. Para o produtor de soja e milho, a rentabilidade cai 65%. Já para o de arroz, 80%.

Para o coordenador do núcleo econômico da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Renato Conchon, o fim dos benefícios tributários - como previsto na PEC 45 e defendido pela equipe econômica, mas que ainda não consta da proposta do governo – resultará em um aumento imediato nos custos e há dúvidas se isso poderá ser repassado ao longo da cadeia. “Os insumos ficarão mais caros, o custo de produção sobe e a necessidade de fluxo de caixa é maior. O produtor terá que pegar mais empréstimo nos bancos”, explicou.

Ele afirma que no caso de commodities, como a soja, não é possível passar para o consumidor o aumento no custo representado pela tributação, uma vez que o preço desses produtos é definido pelo mercado internacional. “Isso vai afetar a rentabilidade do produtor e do exportador”, afirma. “A nossa preocupação não é a queda da rentabilidade, mas a queda do reinvestimento. Se o produtor vê o lucro caindo, não terá dinheiro para investir numa nova safra e isso terá impacto na queda da produção agropecuária nos próximos anos”.

No caso dos produtos vendidos no mercado doméstico, com o tomate, por exemplo, o repasse dependerá da capacidade de o consumidor brasileiro absorver a alta de custos. “Ao final de 2020, 50 milhões de pessoas não terão renda. Justamente nesse período vamos aumentar tributação sobre  alimentos?”, questiona. “Nossa preocupação é que o Brasil seja um campeão na produção, mas o país que tem o preço mais caro dos produtos para seus consumidores”.

Cesta básica

Enquanto o governo defende a reoneração dos produtos da cesta básica, Conchon diz que os produtos básicos deveriam continuar pagando menos tributos.

Ele acredita que o aumento no valor do Bolsa Família ou a criação do Renda Brasil não será suficiente para cobrir o aumento que haverá em produtos como arroz, feijão, leite e óleo de soja com o fim da desoneração.

“Não faz sentido nenhum desonerar salmão, assim como não faz sentido cobrar a mesma alíquota de 25% de um Iphone ou de um litro de leite de uma família pobre. Estão falando em acabar com as distorções sociais com uma mudança que cria outras muito piores para a sociedade brasileira”.  

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Ministério da Justiça notifica supermercados e produtores de alimentos por alta nos preços

Segundo o documento distribuído, estabelecimentos terão cinco dias para responder a questionamentos da Secretaria Nacional do Consumidor

Julia Lindner , O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 15h48
Atualizado 10 de setembro de 2020 | 01h17

 BRASÍLIA - Após o presidente Jair Bolsonaro pedir lucro "próximo de zero" aos donos de supermercados, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, notificou nesta quarta-feira, 9, empresas e associações cooperativas ligadas à produção, distribuição e venda de alimentos da cesta básica para questionar a alta nos preços dos produtos.

A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) e as associações de produtores terão cinco dias para explicar a alta nos preços praticados, por exemplo, na venda do arroz. A partir das explicações, a Senacon vai apurar se houve abuso de preço ou infração aos direitos dos consumidores. Uma eventual multa pode ultrapassar os R$ 10 milhões.

No texto, a Senacon justifica que, "diante do sensível aumento de preços de itens da cesta básica, em especial do arroz, a Secretaria Nacional do Consumidor decidiu notificar o setor produtivo e comercial para esclarecer as causas do aumento nos alimentos que compõem a cesta básica brasileira". 

"O aumento de valores foi notado especialmente em relação ao arroz que, apesar dos positivos volumes produtivos da última safra brasileira, informados pela Conab, teve significativo incremento de preços na prateleira", diz outro trecho da notificação.

Na terça-feira, 8, ao falar sobre  o preço do arroz, que disparou nas últimas semanas, com pacote de 5 quilos chegando a custar R$ 40 (normalmente, é vendido a cerca de R$ 15), Bolsonaro disse que o governo prepara medidas para encarar a inflação dos alimentos e "dar uma resposta a esses preços que dispararam nos supermercados”.   

De acordo com a secretaria ligada ao Ministério da Justiça, o intuito da notificação feita hoje é "coibir aumentos arbitrários". A notificação destaca trecho do Código de Defesa do Consumidor em que é considerada uma prática abusiva "elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços".

No prazo de cinco dias, os estabelecimentos deverão informar quais os produtos da cesta básica possuem maior variação de preço no último mês, quais são os três principais fornecedores do produto, qual o preço médio praticado pelos fornecedores nos últimos seis meses, entre outras questões.

A secretária nacional do consumidor, Juliana Domingues, afirmou, em nota, que é preciso avaliar toda a cadeia produtiva antes de verificar se há um eventual aumento abusivo de preços. “Não podemos falar em preços abusivos sem antes avaliar toda cadeia de produção e as oscilações decorrentes da pandemia. Por essa razão, o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor expediu ofícios para o levantamento de dados que são necessários para aferir qualquer abusividade”, disse.

Segundo a nota encaminhada pela Senacon, a secretaria convidou os ministérios da Agricultura e da Economia para "debater medidas para mitigar o aumento exponencial nos preços de alimentos que compõem a base alimentar dos brasileiros". "A Secretaria também solicitou ao Ministério da Economia a avaliação de alternativas que possam permitir maior competitividade entre os produtores e comerciantes, bem como maior oferta aos consumidores, privilegiando a livre iniciativa e incentivando a concorrência."

Na tarde desta quarta-feira, o presidente Jair Bolsonaro recebeu o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto, para tratar da alta dos preços, mas não mencionou a notificação do Ministério da Justiça. Sanzovo Neto soube da medida através da imprensa, na saída do encontro. "Não, eu ainda não recebi", reagiu o presidente da Abras.

"Nós vamos mostrar a realidade, temos todos os relatórios, inclusive as associações dos próprios produtores também têm, informando o que oscilou em cada produto. Temos muita confiança", afirmou, após tomar conhecimento da notificação. "Vamos explicar o porquê e esperamos que outros, desde lá da roça até o supermercado também expliquem, porque estamos no final (da cadeia)."

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Governo não vai fazer intervenção em preços de alimentos, diz Tereza Cristina

Segundo a ministra da Agricultura, não há nenhum risco de desabastecimento dos itens da cesta básica; nas últimas semanas, produtos como arroz, feijão, carne e óleo de soja têm apresentado forte alta

André Borges, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2020 | 15h41
Atualizado 08 de setembro de 2020 | 20h55

BRASÍLIA - A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que o governo não fará nenhum tipo de intervenção nos preços dos principais alimentos da cesta básica brasileira, que têm apresentado forte inflação nas últimas semanas, como arroz, feijão, leite, carne e óleo de soja. Há registros de crescimento de mais de 100% nas gôndolas de supermercados.

Ao Estadão, Tereza Cristina afirmou nesta terça-feira, 8, que não há nenhum risco de desabastecimento desses produtos para o consumidor brasileiro, e que o governo monitora em tempo real a situação do mercado. “Estamos vivendo uma situação de transição, é uma questão pontual e que vai passar. O governo não vai fazer nenhuma intervenção em preços de mercado, o que estamos fazendo é monitoramento constante”, disse à reportagem.

Nesta quarta-feira, 9, representantes da Abras têm reunião com o governo, em Brasília, para discutir o assunto. A associação deve apresentar um panorama geral sobre a inflação dos alimentos e tratar de eventuais medidas que possam reduzir o preço dos produtos nas gôndolas. A expectativa é de que o encontro reúna representantes do Ministério da Economia, Agricultura e Palácio do Planalto.

Na semana passada, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), que representa 27 associações estaduais afiliadas, afirmou que “vê essa conjuntura com muita preocupação, por se tratar de produtos da cesta básica da população brasileira”.

“O setor supermercadista tem sofrido forte pressão de aumento nos preços de forma generalizada repassados pelas indústrias e fornecedores. Itens como arroz, feijão, leite, carne e óleo de soja com aumentos significativos”, declarou a associação, afirmando que isso se deve ao aumento das exportações desses produtos e sua matéria-prima e a diminuição das importações desses itens, motivadas pela mudança na taxa de câmbio, que provocou uma forte valorização do dólar frente ao real.

Somam-se a isso a política fiscal de incentivo às exportações e o crescimento da demanda interna impulsionada pelo auxílio emergencial. A alta, no entanto, ocorre no mesmo período em que houve redução à metade do valor do auxílio, de R$ 600 para R$ 300, cuja primeira parcela da prorrogação até o fim do ano começa a ser paga no dia 17 de setembro. O auxílio emergencial é considerado o grande responsável pelo aumento da popularidade do presidente. 

“Reconhecemos o importante papel que o setor agrícola e suas exportações têm desempenhado na economia brasileira. Mas alertamos para o desequilíbrio entre a oferta e a demanda no mercado interno para evitar transtornos no abastecimento da população, principalmente em momento de pandemia do novo coronavírus”, afirmou a Abras.

A associação declarou que o setor supermercadista tem se esforçado para manter os “preços normalizados” e vem garantindo o abastecimento regular desde o início da pandemia nas 90 mil lojas de todo o País. “Apoiamos o sistema econômico baseado na livre iniciativa, e somos contra às práticas abusivas de preço, que impactam negativamente no controle de volume de compras, na inflação, e geram tensões negociais e de ordem pública”, disse a instituição.

Tereza Cristina disse que deverá haver uma nova acomodação de preços dos alimentos. A ministra comentou que o governo tem analisado a situação dos estoques de cada região que está atento às necessidades.

“Há um conjunto de fatores. Não se trata apenas de aumento de exportação. Houve aquecimento interno, por causa do auxílio emergencial. As pessoas passaram a comprar mais, porque houve uma mudança de hábito, mas haverá uma acomodação”, disse a ministra.

Na avaliação do Ministério da Agricultura, os preços tendem a cair nos próximos meses. “Assim como já aconteceu com o leite, que subiu e depois caiu, os preços tendem a se acomodar.”

A ministra lembrou que houve uma safra recorde neste ano e que, apesar do aumento das exportações, não há risco de faltar alimento neste ano e no próximo.

Bolsonaro apela a comerciantes a fim de conter preço do arroz

O presidente Jair Bolsonaro afirmou na tarde desta terça-feira, 8, que fez um "apelo" a donos de supermercados para conter a alta do preço do arroz. O presidente acrescentou que não pretende tabelar preços.

“Tenho apelado para eles, ninguém vai usar a caneta Bic para tabelar nada, não existe tabelamento, mas pedindo para eles que o lucro desses produtos essenciais nos supermercados seja próximo de zero. Acredito que nova safra começa a ser colhida em dezembro, janeiro, de arroz em especial, a tendência é normalizar o preço”, disse o presidente.

Ao falar sobre o tema, Bolsonaro disse que o governo prepara outras medidas para encarar a inflação dos alimentos e "dar uma resposta a esses preços que dispararam nos supermercados”. O presidente não detalhou o que será feito.

Na última semana, em viagem ao interior de São Paulo, Bolsonaro já havia falado sobre um "apelo" aos comerciantes. Em um vídeo, o presidente disse que está pedindo apoio a intermediários e donos de grandes redes de supermercados para evitar a alta do valor dos alimentos básicos.

Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), a pandemia fez os brasileiros comprarem mais alimentos, o que forçou preços para cima antes mesmo das altas provocadas pela entressafras. Além disso, a disparada do dólar em relação ao real encareceu os insumos da agropecuária.

 

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Representante dos supermercados diz para brasileiro trocar arroz por macarrão

Depois de encontro com Bolsonaro, presidente da Abras disse que os mercados não são 'os vilões' da inflação da cesta básica e comentou sobre ação para estimular o consumidor a substituir o arroz

Dida Sampaio e Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2020 | 16h57

BRASÍLIA - O presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Sanzovo Neto, afirmou nesta quarta-feira, 9, que deve ocorrer uma campanha para o brasileiro substituir o arroz pelo macarrão. Segundo ele, não há prazo para que o preço do produto seja reduzido para os consumidores.

"Vamos estar promovendo o consumo de massa, macarrão, que é o substituto do arroz. E vamos orientar o consumidor que não estoque (arroz)", disse, depois de se reunir com o presidente Jair Bolsonaro, em Brasília, para falar sobre a questão do aumento dos preços dos produtos da cesta básica nas gôndolas.

O preço dos alimentos foi destaque para a alta de 0,24% inflação oficial do país em agosto, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira, 9. Dois alimentos chamaram a atenção: o arroz, com valorização de 19,2% no ano, e o óleo de soja, que subiu 18,6% no período.

Em 2014, no governo da ex-presidente Dilma Rousseff, quando a carne era a vilã da inflação, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland, sugeriu substituí-la por outros alimentos mais baratos, como ovos e aves.

Questionado sobre a fala de Bolsonaro nos últimos dias, que chegou a pedir "patriotismo" aos donos de supermercado e que trabalhem com lucro "próximo de zero", Sanzovo Neto disse que explicou ao presidente que o setor "já está fazendo isso". "Sempre fizemos isso nos produtos essenciais", declarou a jornalistas.

O presidente da Abras foi informado de que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, notificou empresas e associações cooperativas ligadas à produção, distribuição e venda de alimentos da cesta básica para questionar a alta nos preços dos produtos. Ele indicou ter sido pego de surpresa pela informação. Todos terão cinco dias para responder aos questionamentos.

Após a reunião, Sanzovo Neto disse em entrevista que os mercados não são "os vilões" da inflação da cesta básica, e que o problema está ligado ao excesso de demanda, principalmente no exterior, e à falta de oferta. Na prática, isso significa que falta produto e, por isso, o preço aumenta. 

"É a lei de mercado, é oferta e procura. Se você tem menos produtos sendo ofertados, e no caso foi exportado, muitos dos nossos produtos estão sendo exportados, o produtor prefere exportar porque o câmbio está alto e tem uma receita maior do seu produto...", justificou.

Ontem, ao Estadão, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse o governo não fará nenhum tipo de intervenção nos preços dos principais alimentos da cesta básica brasileira. “Estamos vivendo uma situação de transição, é uma questão pontual e que vai passar. O governo não vai fazer nenhuma intervenção em preços de mercado, o que estamos fazendo é monitoramento constante”, disse.

Nesta quarta-feira, 9, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) deve zerar a tarifa de importação do arroz, segundo apurou o Estadão/Broadcast. A redução poderá valer a partir de amanhã, se for publicada em edição extra do Diário Oficial ainda hoje, ou a partir de sexta-feira, se a publicação for feita amanhã.

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