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José Roberto Mendonça de Barros
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Por que o Brasil cresceu muito rápido até 1980 e parou nos 40 anos subsequentes?

Parte da resposta é encontrada nas análises sobre as sementes da inflação inercial, quando ingenuamente se acreditou que a indexação neutralizaria a inflação

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2021 | 04h00

‘Erros do passado, soluções para o futuro’. Este é o título do último livro de Affonso Celso Pastore, lançado aqui no Estadão, do qual participei. Lembrei-me do tempo em que fui seu aluno por três anos. Posteriormente, Affonso foi meu orientador no doutorado, quando se consolidou uma amizade que perdura até hoje.

Este é um grande livro, por sua relevância, força de conteúdo e clareza na exposição. Para mim, a coisa mais importante do livro é avançar no entendimento da pergunta central que se faz nos dias de hoje: por que o Brasil cresceu muito rápido até 1980 e parou nos 40 anos subsequentes?

Parte da resposta é encontrada nas análises sobre as sementes da inflação inercial, em um dos capítulos, quando ingenuamente se acreditou que a indexação neutralizaria a inflação. Aprendemos depois que, sem a âncora da política monetária, o processo se tornaria inercial. Mas, antes disso, crescemos muito no período chamado de milagre brasileiro, também abordado.

O milagre começa a ser pressionado pela alta do petróleo e da liquidez internacional, provocada pela política expansionista de Nixon. Pastore mostra que este segundo efeito foi o predominante, inclusive porque permitiu a expansão de investimentos financiados pela tomada de crédito externo.

Esse financiamento naufraga quando o passivo externo líquido, que havia atingido 50% do PIB, dispara com o peso da alta das taxas de juros nos EUA. A crise da dívida externa está na base da superinflação dos anos 80, como Pastore ilumina com sua análise.

Esses eventos também explicitam o fracasso do II PND. Neste momento, a indústria brasileira entra numa fase difícil, da qual nunca mais saiu.

Os dois últimos capítulos tratam de questões centrais na discussão de hoje: nosso eterno problema fiscal e a questão do câmbio e do crescimento. Ele mostra que um real desvalorizado pode ajudar o crescimento, mas não é garantia e nem resolve tudo, como aliás os anos recentes mostram.

Deixei para o final a agricultura, o primeiro capítulo da obra. Trabalhar como auxiliar de pesquisa e começar a administrar uma fazenda de café acabaram me direcionando ao estudo do setor, que começou no meu doutorado.

Affonso teve grande pioneirismo na análise da agricultura, seja por demonstrar a hipótese da resposta da produção aos estímulos de preço, seja no entendimento da importância da inovação e sua relação com a dotação de fatores, seja na relevância de uma agricultura aberta ao resto do mundo e que não fica presa a eventual limitação do mercado interno. 

* ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS

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