AP Photo/Virginia Mayo
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Por que o ‘Brexit’ é péssimo para a economia mundial

As incertezas são muitas e o resultado deve ser um banho de água fria para os investimentos em todo o mundo

The Economist, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2016 | 05h00

Nigel Farage, líder do Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip), disse a uma plateia entusiasmada que o 23 de junho deveria entrar para a história como o Dia da Independência do Reino Unido. A reação dos mercados financeiros globais ao referendo em que os eleitores britânicos optaram pela saída da União Europeia (UE) foi bem menos eufórica. No pregão das bolsas asiáticas, a libra perdeu 10% frente ao dólar, sendo cotada a US$ 1,32, seu valor mais baixo em 30 anos. A moeda britânica também sofreu forte queda em relação ao iene, tradicional refúgio dos mais ansiosos. Os investidores começam a buscar a segurança dos títulos do Tesouro americano. Quando as bolsas europeias abriram, os principais índices de ações acompanharam o mercado asiático e chegaram a registrar baixas em torno de 10%, para mais tarde se recuperar um pouco. Algumas horas depois, foi a vez do pessimismo chegar às bolsas do continente americano.

Os investidores detestam as incertezas, e o resultado do referendo provoca um bocado delas. Mas a reação do mercado financeiro também é, em grande medida, uma primeira avaliação do impacto que a decisão britânica terá sobre a economia mundial. Não é incomum, claro, que os mercados exagerem em sua reação.

O Reino Unido é responsável por apenas 3,9% do PIB mundial; não tem o porte de uma economia americana, ou chinesa, para determinar o humor econômico global. Por outro lado, nos Estados Unidos, o crescimento anda meio letárgico, e muitos receiam que a China não consiga se livrar da sombra de seu monstruoso endividamento. Já no contexto especificamente europeu, a economia britânica tem participação mais expressiva, destacando-se pelo afã consumidor num continente marcado por elevadas taxas de poupança. E qualquer desaceleração na Europa seria particularmente problemática no momento.

Na manhã de sexta-feira, o Banco da Inglaterra anunciou: “Estamos preparados para lidar com a situação”. A autoridade monetária pode reduzir ainda mais os juros, no momento em 0,5%. E talvez se disponha até mesmo a reativar seu programa de afrouxamento quantitativo, comprando títulos com novas emissões de dinheiro eletrônico. Apesar disso, é provável que o país entre em recessão. Os investimentos privados serão afetados pela incerteza em relação ao acesso ao mercado único e a outros países em que a entrada dos produtos britânicos é facilitada pelo fato de o Reino Unido ter pegado carona em acordos comerciais negociados pela UE. Quando o horizonte é nebuloso, as empresas postergam todos os gastos que não sejam inadiáveis.

O mesmo vale para os consumidores. A maioria dos que votaram pela saída da UE talvez acreditasse que os alertas de que o “Brexit” faria o país entrar em recessão não passassem de manobra para assustar os eleitores. Nesse caso, é pouco provável que esses britânicos apertem o cinto da noite para o dia. Mas, conforme as consequências nefastas para a economia forem se evidenciando, seus gastos com itens de valor mais elevado devem sofrer forte contração.

A desvalorização da libra pressionará a inflação, provocando a queda dos salários reais. Alguns postos de trabalho serão eliminados. Deve haver redução tanto no número de horas trabalhadas como na expansão da massa salarial. Tradicionalmente, quando o crescimento do PIB do Reino Unido perde velocidade, a economia europeia sofre desaceleração correspondente à metade da freada britânica.

Os prováveis efeitos negativos do Brexit não param por aí. Não se sabe até que ponto um movimento de aversão a riscos financeiros agravará algumas “falhas geológicas”, observadas principalmente na China e no Sul da Europa, que já vêm desestabilizando a economia mundial. Em outubro, a Itália também realizará um referendo. Os eleitores italianos serão consultados sobre uma alteração constitucional proposta pelo governo do primeiro-ministro Matteo Renzi, que modifica a organização do Parlamento do país. Renzi diz que renunciará se a mudança não for aprovada. Depois da decisão que os britânicos tomaram na quinta-feira, o líder italiano estar com a pulga atrás da orelha. Com a aproximação do referendo, é provável que o nervosismo se reflita em spreads maiores no mercado de títulos da região. O Banco Central Europeu pode até intervir, comprando títulos para aliviar a ansiedade, mas não tem muito mais o que fazer para lidar com o problema de fundo, que é a debilidade do crescimento econômico.

Já no caso da China, não é tão fácil determinar os possíveis impactos do Brexit. O enfraquecimento da economia europeia certamente prejudicará as exportações chinesas. Mais grave que isso, porém, é o risco de que o enfraquecimento das moedas europeias leve a nova onda de valorização do dólar, colocando ainda mais pressão sobre um yuan que já não vai muito bem das pernas.

Ainda que alguns investidores operem com horizontes estreitos, a queda das bolsas de valores também é reflexo de preocupações de longo prazo. Se até um país como o Reino Unido, que há tanto se bate pelo livre-comércio, é capaz de revogar um acordo comercial regional, como as empresas poderão confiar na solidez de outros arranjos econômicos internacionais? Para a ordem econômica mundial, não é de bom agouro que a UE deixe de sofrer a influência liberalizante exercida pelos britânicos. O Brexit incentivará enormemente as forças nacionalistas, populistas e protecionistas de outros países.

Há pouco tempo, a OMC fez a advertência de que, entre os países do G-20, desde 2008, o protecionismo não crescia a um ritmo tão acelerado como agora. Nessas circunstâncias, seria de admirar que o resultado do referendo britânico não tivesse efeitos negativos para os investimentos no mundo inteiro. O Brexit torna um pouco mais provável a adoção de restrições à migração de trabalhadores, coisa que resultará em mais custos para as empresas. E, se algo das tribulações europeias forem exportadas, por meio de desvalorizações cambiais, para a Ásia e os Estados Unidos, haverá também mais pressão para a imposição de limites aos fluxos de capitais.

Muito dependerá do tipo de acordo comercial que os britânicos conseguirão negociar com a UE – e da agilidade com que isso será feito. Se o Reino Unido conseguir rapidamente um acordo que não resulte em grandes óbices a seu acesso ao mercado único, os cenários mais sombrios para a economia mundial talvez não venham se concretizar. Mas os mercados não parecem estar contando com isso. © 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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