AP Photo/Jorge Saenz
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Por que o câmbio preocupa os emergentes?

Inflação e dívida são questões que estão no radar de países como Argentina e Turquia, que fizeram intervenções para conter a desvalorização de suas moedas

The Economist, O Estado de S.Paulo

24 Junho 2018 | 05h00

Imaginem se Milton Friedman fosse nomeado presidente de um banco central – apenas para perder o emprego por expandir rápido demais a oferta de dinheiro. Ou se Robert Shiller, autor de Irrational Exuberance e laureado com um Nobel, ganhasse um cargo semelhante – apenas para ser defenestrado por ter permitido o crescimento de uma bolha no mercado de ações. Foi esse tipo de ironia que levou à renúncia, sob pressão, de Federico Sturzenneger da presidência do banco central da Argentina em 14 de junho, vítima do agravamento da turbulência em mercados emergentes.

Sturzenegger foi professor na Universidad Torcuato Di Tella, de Buenos Aires. Em seu ensaio mais citado, ele mostrou que uma política monetária anunciada é frequentemente um guia falho para a política real. Muitos países dizem que deixam sua moeda flutuar livremente, mas na verdade “intervêm seguidamente para estabilizar a taxa de câmbio”. Suas ações desmentem com frequência suas palavras.

O ex-presidente do BC argentino perdeu o emprego por uma razão muito parecida. Os mercados financeiros não conseguiram conciliar suas declarações sobre a moeda com sua administração da mesma, o que corroeu sua credibilidade. Após a Argentina acertar um empréstimo de US$ 50 bilhões com o FMI, Sturzenneger declarou que só interviria no mercado de divisas estrangeiras numa “situação de ruptura”. Mas, quando o peso logo se viu frente a uma pressão renovada, recomeçou a vender reservas de moeda estrangeira, que caíram US$ 665 milhões entre 12 e 13 de junho. Ele desistiu da luta no dia 14, permitindo que a moeda caísse 5,3% em relação ao dólar num dia que terminou com sua saída. 

Por que os responsáveis pela política monetária em mercados emergentes preocupam-se tanto com a taxa de câmbio? Uma moeda fraca, afinal deixa exportações e ativos de um país mais competitivos. E, quando o capital foge, pode ser melhor deixar a moeda cair que aumentar juros (e sufocar o crescimento) num esforço para manter estável a taxa de câmbio. 

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A inflação é uma das razões para a preocupação. Moedas fracas aumentam o custo das importações, ameaçando a estabilidade de preços. A lira turca, por exemplo, atrapalhou a luta anti-inflacionária num país em que os preços sobem rapidamente com o enfraquecimento da moeda. Em resposta, o banco central da Turquia, como o da Argentina, se sentiu forçado a aumentar dramaticamente as taxas de juros, apesar da oposição de Recep Tayyip Erdogan, que busca se reeleger presidente. 

Dívida. Segundo a empresa britânica de consultoria Capital Economics, as condições financeiras em ambos os países ficaram mais apertadas neste ano do que no mesmo período de 2013, ano em que o banco central americano (Fed) anunciou que eventualmente desaceleraria o programa de compra de títulos do mercado, episódio que ficou conhecido como “taper tantrum”. Em vários outros países, porém, o “tantrum” deste ano ainda não está sendo tão duro quanto seu precursor. A moeda brasileira caiu 9% desde meados de abril, mas o Banco Central do Brasil evitou aumentar as taxas de juros, insistindo que não há uma “relação automática” entre choques recentes e política monetária. 

Outra razão pela qual as taxas de câmbio preocupam é a dívida. Uma moeda fraca torna mais difícil pagar compromissos em dólar ou euro. Segundo o Instituto Internacional de Finanças (IIF), as dívidas do governo argentino e de empresas não financeiras do país em moeda estrangeira, somadas, é de mais de 50% do PIB. Na Turquia, é de 47%. Mas em outros países a carga é mais modesta. É de menos de 25% do PIB no México e na África do Sul; menos de 20% no Brasil e na Malásia; e de cerca de 10% na Índia, China e Tailândia.

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Na Indonésia, tanto a inflação (3,2% ao ano) quanto a dívida em moeda estrangeira são baixas. Seu banco central, porém, elevou as taxas de juros duas vezes em maio para estabilizar a rupia. O país, ainda traumatizado com a crise financeira da Ásia, associa moeda em queda a economia titubeante. Como outros mercados emergentes, a Indonésia teme que o enfraquecimento da moeda possa se autoalimentar com a queda provocando especulações e a quedas ainda maiores. 

Esse, presumivelmente, é o tipo de “situação de ruptura” que Sturzenneger tinha em mente quando abriu exceções a sua regra de não intervenção. Ele talvez tenha tido a infelicidade de tal situação ocorrer logo após ter prometido recuar: a forte queda no peso em 11 de junho foi exacerbada pelos indícios de aumento de juros do Federal Reserve depois de sua reunião em 12 e 13 de junho. Em mercados emergentes, a política monetária pode ser complicada – especialmente porque mercados financeiros gostam de simplicidade.

/ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

© 2018 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. 

PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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