AFP Photo/Carolyn Wright
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Por que o coronavírus pode ameaçar a economia americana ainda mais que a chinesa?

Setor de serviços presenciais, que tem peso maior nos EUA do que na China, pode ser fortemente afetado pela doença

Austan Goolsbee, The New York Times

09 de março de 2020 | 12h35

Depois de uma série de mortes, algumas quedas de deixar o mercado de ações com o coração na boca e um corte de emergência na taxa de juros do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), há muitos motivos para nos preocuparmos com o impacto econômico do coronavírus nos Estados Unidos.

O primeiro lugar onde procurar respostas é a China, país onde o vírus se espalhou de maneira mais ampla. As notícias têm sido sombrias, com mortes, quarentenas e economia parada, embora o número de novos casos tenha começado a cair.

Economias avançadas como a americana não são imunes a esses efeitos. Pelo contrário, um surto generalizado da doença poderia ser ainda pior para essas economias do que para a chinesa. 

Porque os setores de serviços presenciais – o tipo de negócio que entra em colapso quando pessoas com medo se afastam umas das outras – tendem a dominar as economias dos países de alta renda com mais intensidade do que na China. Se as pessoas ficam longe da escola, param de viajar e não vão mais a eventos esportivos, à academia ou ao dentista, as consequências econômicas são ainda piores.

Em certo sentido, esse é o equivalente econômico dos variados efeitos do vírus sobre a saúde. Assim como a doença representa uma ameaça mais específica para pacientes idosos, ela pode ser especialmente perigosa para economias mais maduras.

De saída, vários fatores trabalham contra os Estados Unidos. O governo autoritário da China pode colocar cidades inteiras em quarentena ou ordenar que as pessoas saiam das ruas de uma maneira que seria difícil de imaginar na América, o que dá aos chineses uma vantagem para retardar a propagação da doença.

Além disso, grande parte dos trabalhadores americanos não tem direito a dias de doença remunerados, e milhões não têm cobertura de assistência médica, então as pessoas têm menos chance de ficar em casa ou obter assistência médica adequada. E 41% da população da China vive fora das áreas urbanas, mais que o dobro da parcela nos Estados Unidos. As doenças geralmente se espalham mais rapidamente nas áreas urbanas.

Estrutura econômica

Além dessas questões, no entanto, há uma diferença fundamental na estrutura econômica: quando as pessoas deixam de interagir com outras pessoas por medo de doenças, as coisas que elas deixam de fazer podem afetar indústrias que são muito maiores nos Estados Unidos.

Pensemos nas viagens. O americano médio pega três voos por ano; o chinês médio, menos de meio voo. E o desastre epidemiológico do navio Diamond Princess convenceu muitas pessoas a adiar viagens em cruzeiros. Esse estigma, sozinho, pode afetar algo como 3,5% dos Estados Unidos, que têm cerca de 11,5 milhões de passageiros por ano, em comparação com apenas 0,17% da China, que tem cerca de 2,3 milhões de passageiros anuais.

As pessoas podem deixar de ir a eventos esportivos nos Estados Unidos. A NCAA até pediu para realizar seu torneio de basquete universitário March Madness sem torcida. Mas o esporte é um grande negócio nos Estados Unidos. Os americanos gastam 10 vezes mais em eventos esportivos do que os chineses.

E, se 60 milhões de americanos parassem de gastar US$ 19 bilhões por ano em academias, seria um problema muito maior do que os 6,6 milhões de membros de academias chinesas pararem de gastar os US$ 6 bilhões que gastam hoje.

Isto é apenas o começo. Quem quer ir ao dentista ou ao hospital durante um surto, se a consulta não for absolutamente necessária? Os gastos com saúde representam 17% da economia americana – mais que o triplo da proporção da China.

Relevância do setor de serviços

Obviamente, nem todo setor de serviços americano é tão maior do que o correspondente chinês. Varejo e restaurantes, por exemplo, têm participações comparáveis no Produto Interno Bruto dos dois países.

Mas, no geral, os Estados Unidos dependem bem mais dos serviços do que a China. Por outro lado, a agricultura, um setor que não é conhecido pela interação social cotidiana e que, portanto, não deve ser muito prejudicado pelo afastamento das pessoas, tem uma participação 10 vezes maior na economia da China do que nos Estados Unidos.

Então, apesar de toda a conversa sobre o “choque de oferta” global desencadeado pelo surto de coronavírus e seu impacto nas cadeias de suprimentos, talvez devamos ter mais medo do velho “choque de demanda” que ocorre quando as pessoas simplesmente ficam em casa. 

Uma grande epidemia de coronavírus nos Estados Unidos pode ser como uma grande tempestade de neve que desliga a maioria das atividades econômicas e das interações sociais até que a neve seja removida. Mas o coronavírus pode ser uma “tempestade no estilo Armagedon de neve”, que atinge todo o país e dura meses.

Então, lave as mãos por 20 segundos completos. E demonstre mais empatia pelas pessoas em quarentena na China e em outros lugares. Porque, se o vírus se espalhar pelos Estados Unidos, poderá ser muito pior. / Tradução de Renato Prelorentzou

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